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Mark Zuckerberg em evento do Facebook, em abril de 2017. | Anthony Quintano/Flickr
Mark Zuckerberg em evento do Facebook, em abril de 2017.| Foto: Anthony Quintano/Flickr

Décadas atrás, o brilhante satirista Tom Lehrer alfinetou a ignorância deliberada dos engenheiros em relação às suas criações em uma cantiga sobre Wernher von Braun, o cientista que saiu das fábricas de foguetes da Alemanha nazista para assumir o programa espacial norte-americano. “Depois que o foguete sobe, que me interessa onde vai cair? Não é meu departamento, diz Wernher von Braun”, cantou Lehrer.

Mas seu alvo era bem mais amplo do que os engenheiros que se concentram só na pesquisa que têm à sua frente; ele nos lembra de que não há abordagem amoral à ciência. Só que, encará-la como um produto em si, como também as ferramentas e conexões que oferece, é extremamente perigoso e errado.

Fundadas por jovens engenheiros da computação, Facebook, Google e outras empresas do Vale do Silício se contentam em ver suas invenções poderosas como bases neutras. Uma vez que o número de postagens sobe, a quem interessa o que vai acontecer? Essas companhias transformaram a indiferença do engenheiro pelos resultados na vida real em uma ideologia libertária que menospreza os danos gerados por suas plataformas e rejeita as regras e regulamentações para preveni-los.

Em um artigo recente, Sam Altman, presidente da influente incubadora de tecnologia Y Combinator, denunciou a “correção política” como um perigo para o progresso econômico. “É muito incômodo, mas é bem provável que precisemos permitir que as pessoas digam coisas terríveis sobre os gays se quisermos que nos contem as novidades da física”, ele escreveu em seu blog.

É fácil encontrar declarações tão explícitas quanto essa entre os líderes do Vale do Silício. Por exemplo, quando uma autoridade francesa descreveu sua determinação de encorajar a inovação tecnológica sem a desigualdade salarial extrema, o capitalista de risco Marc Andreessen respondeu, zombeteiro, no Twitter: “Ou seja, capitalismo sem toda aquela lambança do capitalismo!”. E, quando a Índia rejeitou a proposta do Facebook de introduzir uma versão gratuita do acesso à internet limitado à rede social e a um número reduzido de outros sites, Mark Zuckerberg, o CEO da empresa, respondeu mais com tristeza do que raiva. “A história nos ensina que ajudar as pessoas é sempre melhor do que relegá-las ao abandono”, explicou, passando batido pelo argumento do governo indiano de que oferecer um acesso pela metade seria uma opção ainda pior.

Mas parece que 2018 vai ser o que o Vale do Silício chamaria de “ponto de inflexão” no gráfico da moralidade. O Facebook por enquanto lidera a tendência, com o anúncio feito na semana passada por Zuckerberg de que a empresa se sentia “responsável por garantir que nossos serviços não sejam apenas em nome da diversão, mas também do bem-estar das pessoas”. Em termos práticos, isso significa que haverá uma redução no volume do chamado “conteúdo público” – geralmente postagens provocativas de empresas e agências de notícias –, e favorecimento do lado pessoal, ou seja, de amigos e familiares.

E aí o público se depara com uma dúvida irrespondível: é melhor sofrer por causa da negligência ou da preocupação do engenheiro?

Algo bom para o mundo

Desde os primórdios do Facebook, Zuckerberg se mostra fascinado pelo poder de compreender e manipular os usuários graças à aplicação de algoritmos aos dados que coleta. Em 2005, falando em Stanford, descreveu como ele e um amigo estavam vendo se podiam usar as informações que tinham para calcular quem eles achavam que iria fazer parte de seus relacionamentos. “Testamos uma semana depois e percebemos que tínhamos mais de trinta por cento de chance de prever se duas pessoas estariam se relacionando dali a uma semana.” Graças a esse conhecimento profundo de seus usuários, explicou Zuckerberg, o Facebook pode determinar “o que realmente interessa a cada pessoa em um nível mais específico”.

Mais de uma década depois, a rede social ainda utiliza essas ferramentas de engenharia social para investigar a psique de seus usuários. Agora, entretanto, a empresa, que teve um lucro anunciado de US$ 4,7 bilhões no terceiro trimestre, garante que elas serão modificadas para priorizar a saúde de nossa sociedade. Em dezembro, seus pesquisadores tentaram responder se as redes sociais são uma força para o bem e acabaram divididos.

“Quando a pessoa passa muito tempo consumindo informações passivamente, ou seja, lendo, mas sem interagir, ela diz se sentir pior depois. Por outro lado, a interação ativa com outras pessoas, principalmente trocando mensagens, postagens e comentários com amigos íntimos, relembrando interações antigas, está relacionada com a melhoria no bem-estar”, conclui a empresa.

Zuckerberg diz que o Facebook vai guiar os usuários para interações mais saudáveis. “Já estou contando que as medidas de engajamento caiam, assim como o tempo passado no Facebook; ao mesmo tempo, porém, espero que ele seja mais proveitoso. E, se fizermos a coisa certa, acredito que a medida será boa para a nossa comunidade e para o nosso negócio em longo prazo”, escreveu ele em um post.

Aos 33 anos, Zuckerberg já se preocupa com seu nome, mas, ao contrário de outros gigantes corporativos — como Rockefeller, Carnegie, Gates —, não acha que tenha que esperar criar um império para depois fazer o bem. Afirma que está fazendo mudanças no Facebook hoje para que quando suas filhas, Max e August, crescerem, saibam que “o pai fez algo bom para o mundo”.

Mas o que Mark Zuckerberg acha que torna o mundo melhor? Em carta aberta, publicada na ocasião do nascimento de Max, em 2015, ao lado da mulher, Priscilla Chan, ele estipulou alguns objetivos. Primeiro, o “avanço do potencial humano”, que descreveu como “a ampliação dos limites de excelência da vida humana”. Curiosamente, o casal supõe que, um dia, poderemos “aprender e vivenciar o mundo cem vezes mais do que hoje”.

O outro era “promover a igualdade”, que definiu como “a garantia de que todos tenham acesso a essas oportunidades, independentemente do país, da família ou das circunstâncias de nascimento”. Aqui, “acesso” parece significar a dependência da internet para o fornecimento de educação ou oportunidade de trabalho. Conectar as pessoas é o que mantém a sociedade em movimento, em progresso. “Para cada dez pessoas que ganham acesso à internet, uma supera a linha da pobreza e um novo posto de trabalho é criado”, escreveu.

Acontece que o Facebook iluminado e socialmente engajado tem uma perspectiva bem semelhante à do Facebook amoral e sedento por audiência: ambos veem a conexão online como a chave para uma boa vida.

Em outras palavras: não conte com o Facebook para mudar o Facebook tão cedo.

* Noam Cohen é o autor de The Know-It-Alls: The Rise of Silicon Valley as a Political Powerhouse and Social Wrecking Ball, ainda sem tradução no Brasil.


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