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Patinetes da Bird vão revolucionar a mobilidade urbana da mesma forma que fez a Uber? Improvável | Bird
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Patinetes da Bird vão revolucionar a mobilidade urbana da mesma forma que fez a Uber? Improvável| Foto: Bird Divulgação

Eu sempre me interessei por patinetes elétricos. Comecei a pesquisá-los em 2002, quando fazia um trajeto de 1,5 quilômetros até meu trabalho, em Nova York. Imaginei que um patinete elétrico me levaria até lá mais rápido.

Queria comprar um que se chamava Zappy Turbo, fabricado por uma empresa chamada ZAP. Mas ele pesava cerca de 15 kg e seria um incômodo carregá-lo no ônibus.

Além disso, as leis de trânsito em torno de patinetes eram um pouco nebulosas (e ainda são). Você não usá-los na calçada e corria o risco de se machucar se os usasse na rua. A última coisa que eu queria era passar algumas horas por mês brigando para revogar as inevitáveis multas que receberia, então abandonei a ideia.

No mais, o mercado ia mal e aparecer montado em um patinete elétrico no meu trabalho, em Wall Street, seria provavelmente motivo para demissão.

Não há como negar que os patinetes elétricos são legais. Eles são mais amigos do ambiente do que carros e são divertidos. Eu sempre pensei que poderiam ser uma solução para o congestionamento nas cidades.

Hoje, 15 anos depois, eles são um uma febre nos Estados Unidos. Na semana passada, uma startup de patinetes compartilhados chamada Bird foi avaliada em US$ 1 bilhão, após levantar US$ 150 milhões em financiamento.

Bird é a nova Uber?

A Bird é comparada à Uber, mas existem diferenças importantes entre as duas. A principal delas é que a Bird é dona dos patinetes. Isso significa que a margem de lucro (teórica) do aluguel do “veículo” é bastante baixa, com estimativas de cerca de 10%.

Se pensar que a empresa pode gerar cerca de US$ 2,50 por cada aluguel, algumas estimativas apontam que ela poderia ganhar US$ 14 milhões por ano. Mas, depois de pagar pela manutenção, cobrança e outras despesas, talvez restasse apenas US$ 1 milhão.

Deve haver muita gente otimista na Califórnia, porque uma avaliação de US$ 1 bilhão pressupõe que a Bird pode chegar a ter até 75 vezes mais usuários do que atualmente. O que significa que a startup tem que se expandir para todas as cidades dos EUA e atingir uma taxa de adoção de quase 100%.

“A avaliação de US$ 1 bilhão é, para ser franco, meio idiota”

Isso não leva em conta todas as multas e problemas logísticos que a empresa encontrará ao longo do caminho. Portanto, a avaliação de US$ 1 bilhão é, para ser franco, meio tola. Em situações como esta, o capital de risco se assemelha mais a um financiamento coletivo do que a um investimento real.

A Bird é um negócio antigo com verniz de nova economia. Você usa um aplicativo no smartphone para localizar um patinete (eles têm sensores de GPS), digitar um código, alugá-lo e guiá-lo. Pergunte a si mesmo: o que seria a Bird sem a internet? Apenas uma loja onde você poderia alugar patinetes?

Onde moro, na Carolina do Sul, temos uma loja chamada “Go Fast Scooters”, que aluga bicicletas elétricas. Seus proprietários ganham a maior parte de seu dinheiro no verão, alugando elas para turistas. Mas o negócio é sustentável durante todo o ano, quando atende pessoas condenadas por dirigirem embriagadas ou que não conseguem crédito para comprar um carro. É um negócio da velha economia, mas é certamente lucrativo! Tem que ser, porque não é financiado por capital de risco. Basicamente é a mesma coisa que faz a Bird, mas sem um aplicativo.

Eu não estou dizendo que empresas financiadas por capital de risco não podem ter um período de experimentação e fortes perdas a fim de obter lucros muito maiores no futuro, mas acho que a Bird é um dos muitos “unicórnios” que não têm uma esperança realista de ser rentável em qualquer ponto no futuro.

“Eu acho que Bird é um dos muitos “unicórnios” que não têm uma esperança realista de ser rentável em qualquer momento no futuro”

Nem toda startup disruptiva dá lucro

A Uber perdeu US$ 4,5 bilhões no ano passado, e duvido que o aplicativo de caronas se torne lucrativo. Eles não podem pagar menos pelos motoristas e não cobram mais dos usuários. É um beco sem saída. De fato, 76% das empresas que abriram o capital no ano passado não eram lucrativas, a maior porcentagem desde 2000. Quase parece que a falta de rentabilidade é um distintivo de honra. Existem startups como a Robinhood, corretora online que permite que os usuários negociem na Bolsa de graça, mas que tem uma avaliação de quase US$ 6 bilhões e seus fundadores são bilionários.

Simplificando, há momentos em que os investidores se importam com os lucros, e há aqueles em que eles não se importam. Atualmente, eles não se importam. 

Nós já vimos isso antes. Em 2000, ninguém se importava com os lucros. Até que um dia, de repente, começaram a se importar. Foi como virar uma chave. As empresas financiadas por capital de risco receberam US$ 84 bilhões em financiamentos no ano passado. Mesmo depois que os mercados chegaram ao auge em um frenesi de especulações em janeiro, os capitalistas de risco continuaram a investir dinheiro em startups.

O que aconteceu com a ZAP? Suas ações são negociadas por cerca de um centavo cada, após despencarem de um pico de cerca de US$ 100 no final de 1999.

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*Jared Dillian é editor do The Daily Dirtnap, estrategista de investimentos da Mauldin Economics, e autor de Surtando em Wall Street e All the Evil of This World, o último ainda sem tradução no Brasil.

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