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Orçamento de 2027

Governo promete contas no azul em 2027, mas mercado contesta cenário otimista

Orçamento de 2027 governo Lula
Governo Lula envia orçamento de 2027 prevendo contas no azul, mas usa projeções de crescimento e inflação mais otimistas que as do mercado (Foto: EFE/Andre Borges)

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O governo federal apresentou nesta segunda-feira (31) a Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 prevendo, pela primeira vez em cinco anos, um superávit primário.

O resultado tem peso simbólico e político, mas depende de premissas para crescimento e inflação mais otimistas do que as projeções do mercado. A proposta prevê um superávit primário de R$ 83,4 bilhões, equivalente a 0,56% do PIB. Porém, quando são descontadas as exceções previstas no arcabouço fiscal, o resultado considerado para a meta cai para R$ 18,6 bilhões (0,13% do PIB).

Na proposta, o governo trabalha com uma projeção de crescimento de 2,46% do PIB em 2027. No entanto, a mediana das previsões divulgadas nesta segunda pelo Relatório Focus — pesquisa do Banco Central que reúne as estimativas de bancos e outras instituições financeiras — é de apenas 1,5%.

Os sinais de desaceleração da economia, entretanto, estão se intensificando. Dados do IBGE divulgados nesta terça-feira (1º) mostram que o PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 na comparação com o trimestre anterior, acumulando alta de 1,9% nos últimos quatro trimestres, o menor resultado em cinco anos.

Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, observa que o consumo perde força mesmo com o desemprego baixo. Ele pontua que juros elevados e crédito restrito se sobrepõem aos vetores de sustentação da demanda.

Outra premissa usada na PLOA em que há grande divergência é a inflação. O governo estima que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador de inflação do país, ficará em 3,60% em 2027. Já o mercado financeiro, segundo o Relatório Focus, projeta inflação de 4,28%.

As previsões do mercado quanto à inflação, portanto, seguem acima das estimativas do governo para os próximos dois anos, o que deve dificultar o cumprimento das metas previstas na proposta.

"Se você começa errado, o resultado não tem como ser certo", avalia o professor Denis Medina, da Faculdade do Comércio de São Paulo (FAC-SP).

Gestão Lula aposta em premissas otimistas para obter superávit

A proposta orçamentária para 2027 projeta uma receita primária total de R$ 3,46 trilhões, ou 23,4% do PIB. Desse total, são deduzidos R$ 610,6 bilhões em transferências a estados e municípios, resultando em uma Receita Líquida de R$ 2,85 trilhões, equivalente a 19,27% do PIB.

"Infelizmente o governo não tem tanta credibilidade porque todos os anos errou o orçamento e, por outro lado, as premissas para desenho do orçamento atual também estão totalmente equivocadas", afirma Medina.

A equipe de política fiscal da consultoria Warren, formada pelos analistas Felipe Salto, Josué Pellegrini e Daniel Ferraz, ressalta que a estimativa da receita líquida embute uma queda expressiva de 0,57 ponto percentual do PIB nos repasses subnacionais. Eles defendem maior detalhamento da estimativa e alertam para uma possível retração da receita total após os picos de arrecadação com petróleo.

Já do lado da despesa primária, fixada em R$ 2,83 trilhões, ou 19,14% do PIB, os técnicos apontam uma queda de 0,34 ponto percentual do PIB nas despesas obrigatórias em relação a 2026.

A equipe da Warren ressalta que "a queda é muito expressiva e precisaria ser entendida sem a adoção de novas medidas, ainda mais se considerado o novo Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais da Reforma Tributária do Consumo de 0,2 ponto percentual do PIB".

Governo limita reajustes e congela Bolsa Família

Nas despesas com funcionalismo público, projetadas em R$ 440,7 bilhões, o governo aplicou limitações. A estimativa de déficit de 2026 fez com que fosse acionada a regra que limita o ganho real do funcionalismo federal em 2027 a 0,6% acima da inflação se as contas continuarem no vermelho, bloqueando reajustes com ganho real mais expressivo.

Nas despesas com programas sociais, o governo manteve o Bolsa Família sem reajuste, com o benefício mínimo congelado em R$ 600 por família.

Já o salário mínimo foi projetado em R$ 1.741 para 2027, alta de 7,4% sobre os R$ 1.621 vigentes. O reajuste, porém, segue regra própria de valorização do mínimo, descolada do teto do arcabouço — o que o coloca à margem do esforço de contenção que atinge as demais despesas.

A PLOA também prevê um aporte de R$ 6 bilhões para os Correios, justamente no momento em que as empresas estatais apresentam alguns dos piores resultados da história.

Por que o superávit pode não se sustentar

Os analistas consultados pela Gazeta do Povo avaliam que o saldo positivo apoia-se em receitas que exigem atividade incompatível com o aperto monetário e a desaceleração recente. A estratégia depende do represamento de despesas de pessoal e programas sociais.

Sem cortes estruturais de gastos obrigatórios, o superávit de R$ 18,6 bilhões pode virar novos déficits. "O teste de 2027 será a execução do Orçamento, não a projeção", avalia o CEO da MA7 Capital, André Matos.

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