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MACROECONOMIA

Passado marcado por filas e hiperinflação

Os anos de estabilidade parecem ter apagado da memória dos curitibanos os tempos de hiperinflação e a prática de estocar produtos. Nas ruas da cidade poucos se lembram do que aconteceu durante a implantação do Plano Cruzado, em 1986, durante o governo de José Sarney e muitos confundem a medida com outras implantadas no país – como o Cruzado Novo ou o Plano Real.

Até entre aqueles que faziam parte do mercado de trabalho na época há pouca memória sobre o otimismo causado pelo anúncio do plano e os problemas enfrentados depois, como a falta de carne e leite, e as enormes filas nos supermercados. "A população esperava que alguma coisa fosse feita", lembra. "Eu recebia meu salário e corria para o mercado. A correção de preço era diária", recorda o professor universitário e consultor, Amaury Branco Belem, 52 anos. Para ele, a economia instável não abria oportunidades de planejar o futuro. "Era difícil programar um evento ou uma festa." Mas Belem acredita que nestes 24 anos a economia "melhorou muito". "Apesar das taxas de juros altas, a facilidade do crédito ajuda bastante. Hoje a população tem mais acesso."

O servidor público Pedro Antônio Dias, 53, se recorda de 1986 por dos motivos: o nascimento de uma das filhas e o congelamento de preços previsto no plano. Foi nesta época que ficaram famosos os "fiscais do Sarney", consumidores chamados a fiscalizar o cumprimento do congelamento no varejo. "Eu levantava três ou quatro da manhã para enfrentar a fila para a compra do leite. Tinha dia em que quando chegava a minha vez o leite acabava e dava até briga. O volume era racionado – normalmente apenas um pacote por pessoa."

O aposentado Waldemir Pimentel era bancário na época – trabalhava no extinto Banestado – e diz que os primeiros dias depois do anúncio do plano foram "um drama" para todos. "Era difícil explicar a situação para os clientes. Todos tinham muitas dúvidas". Pimentel lembra que muitos se beneficiaram com as brechas financeiras criadas com a implantação da medida. Uma das "manobras" era pegar uma duplicata com deságio e assumir um novo compromisso. "Quem tinha consórcio ou financiamento de casa, dívidas comercias ou industriais, foi altamente beneficiado porque tive um deságio grande sobre a inflação passada."

Também faltavam automóveis para pronta entrega, o que acabou criando um mercado de intermediários que cobravam ágio na venda. "Nas concessionárias, a espera podia chegar a dois ou três meses." O momento econômico também acabou por beneficiar quem estava compromissado com prestações contratadas antes da implantação do plano – a pessoa pagava todas elas com um grande deságio (30% a 40%), de uma inflação passada, e as vendia com o preço atualizado.

Para a estudante Camila Maia Gonçalves, que nasceu em 1989, é difícil de imaginar uma realidade como a daquela época. Camila diz que fica assustada quando imagina que naqueles tempos os preços mudavam todos os dias. "Apesar de não ter vivido essa experiência, acho a nossa realidade muito melhor. Antigamente as coisas deviam ser bem mais difíceis porque não tinha como se planejar", diz. "Hoje a gente consegue se programar. Dá para planejar uma compra, por exemplo." (CR e Adria­­no César Gomes, com co­­la­­boração de Taysa Dias)

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