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Renata Vichi, do Grupo CRM, detentor das marcas Kopenhagen e Brasil Cacau: no comando de 1,2 mil funcionários | Divulgação
Renata Vichi, do Grupo CRM, detentor das marcas Kopenhagen e Brasil Cacau: no comando de 1,2 mil funcionários| Foto: Divulgação

Chega uma hora nas empresas familiares em que o fundador precisa passar o bastão. Mas para quem? O caminho mais sensato, segundo o consultor empresarial especialista em sucessão Domingos Ricca, da DS Consultoria Empresarial e Educacional, é optar por aquele herdeiro com vocação para o negócio, que demonstre ter, de forma visível, uma afinidade com as atividades da empresa. "O fundador constrói para os filhos, mas se esquece de perguntar a eles se querem tocar o negócio", afirma, citando como exemplo o caso de Walter Salles, herdeiro do Unibanco, que preferiu o cinema ao mercado financeiro.

Segundo Ricca, nos últimos 10 anos as mulheres vêm conseguindo cada vez mais espaço nas empresas familiares, assumindo posições estratégicas para o futuro do negócio. O consultor observa que as filhas têm maior afinidade com o pai, por quem nutrem uma admiração especial. "Quando elas entram na empresa, não é para competir, mas para dar continuidade." Diz ainda que as mulheres vêm conseguindo um respeito maior dos funcionários, e isso se deve à forma como enxergam os negócios. "O homem coloca o ego e o status acima da razão, enquanto elas são mais flexíveis, ponderam, escutam mais", conclui.

A seguir, exemplos de herdeiras empreendedoras bem-sucedidas, que atuam em diferentes segmentos do mercado e que agregaram inovação aos negócios da família.

Reinações de Sissi

Fundada em 1870, no Rio de Janeiro, a Botica Granado era frequentada por D. Pedro II. De lá para cá, muita coisa mudou na história da marca centenária e certamente a imperatriz Leo­poldina aprovaria a moderninha linha pink de cuidados para unhas, pés e pernas da marca. Por trás das novidades está Sissi Freeman, 30 anos, que responde pelo marketing. Depois de três gerações na família Granado, a farmácia foi comprada por seu pai, Christopher Freeman, que hoje preside a empresa e a Phebo, adquirida em 2004. Juntas, as marcas somam 350 itens. "Tinha 14 anos quando ele comprou a Granado e, como toda menina, adorava cosméticos." Formada em Economia e Relações Exteriores, antes de entrar para a empresa Sissi teve outras experiências profissionais, regra imposta pelo pai. Quando assumiu a área de marketing da Granado, aos 25 anos, um dos maiores desafios, revela, foi dar contemporaneidade aos produtos sem perder a essência da marca. "Há uma identidade muito forte entre o produto e o consumidor, caso do polvilho antisséptico." Também partiram dela as parcerias com a estilista Isabella Capeto (que assina a linha de perfumes Águas de Phebo) e com a marca de presentes We, em uma linha de bem estar.

Doces negócios

O empresário Celso Ricardo de Moraes, 68 anos, presidente do Grupo CRM, detentor das marcas Kopenhagen, Brasil Cacau e DanTop, deu duro nos negócios e hoje pode se dar ao luxo de dedilhar canções de bossa nova no seu piano de cristal e apresentar um programa de tevê, onde recebe seus ídolos da MPB. O ex-proprietário do Laboratório Virtus, que produzia o popular Maracugina, nunca precisou tomar calmante, pensando na sucessão familiar. Tinha sua filha, reconhecida no mercado como uma líder nata.

Renata Figueiredo de Moraes Vichi, 28 anos, vice-presidente, é quem carrega o piano, orquestrando 1,2 mil funcionários. "Meu pai sempre foi uma grande referência em minha vida. Mas ele nunca impôs o caminho para a sucessão. A iniciativa partiu de mim."

Formada em Publicidade e Propaganda e com MBA pela Fundação Getúlio Vargas, Renata operou um verdadeiro lifting na tradicional marca de chocolates, mas preservando a qualidade, o sabor e o glamour das finas guloseimas. "Passados mais de 80 anos desde a fundação da Kopenhagen, o bombom Cherry Brandy continua sendo feito um a um, e com o laço vermelho dobrado de forma que o nome da marca fique visível." Mas a tradição para por aí. "Quando entrei na empresa, o marketing era amador. Tivemos, então, de remodelar os pontos de venda, investir em campanhas publicitárias e novas embalagens."

Vestindo a camisa

Um grande amor e uma máquina de costura. Foi assim que começou a história da Dudalina, uma das maiores camisarias da América Latina. O casal Duda e Adelina (daí o nome da confecção) era dono de um armazém de secos e molhados na cidade de Luis Alves, interior de Santa Catarina. Eles tiveram 16 filhos, 5 mulheres e 11 homens. A filha Sonia Hess é quem preside a empresa com 1.350 funcionários (mil são mulheres) e as 4 fábricas. A camisaria, conta, começou meio por acaso. "Numa ocasião, meu pai comprou um lote grande de tecidos de um comerciante árabe da 25 de Março, que acabou sobrando na loja. Minha mãe viu ali uma oportunidade de vendas e transformou tudo em camisas. As peças eram cortadas por ela e confeccionadas por costureiras nos quartos de casa. Como vendeu tudo logo, alugou um espaço maior e saía para vender. Nascia ali uma empreendedora a anos-luz de sua geração, com o apoio total do meu pai."

Se a disputa pelo poder entre dois herdeiros já é complicada, imagine entre 16! Mas, por sua experiência, espírito de liderança e afinidade com os negócios, Sonia foi eleita por unanimidade presidente da Dudalina. "Tive de abraçar a empresa inteira e ir fundo no conhecimento das áreas de finanças, recursos humanos, marketing." Arrojada tal qual dona Adelina, ela lançou este ano a linha de camisaria feminina e promete mais novidades.

Carga pesada

Quando vai se aproximando o Grande Prêmio de Fórmula 1, em Interlagos, o coração de Maria Regina Yazbek, à frente da Movicarga, empresa que vende e loca empilhadeiras, bate no compasso das máquinas. Há 18 anos, a empresa é responsável pela logística do evento. Nesse dia, funcionárias treinadas deixam seus postos na fábrica para operarem as máquinas. É aí que a empresária de 46 anos tem a oportunidade de voltar no tempo, quando participava das operações, acompanhando pessoalmente a entrega das máquinas aos clientes. Na época tinha 23 anos e a Movicarga estava no mercado havia 14.

O pai, Alberto Yazbek, queria passar o bastão e, dos três filhos, ela era quem apresentava mais afinidade e gosto pelo negócio. Mas antes trabalhou em uma empresa de seguros, onde batia cartão e penava com o austero chefe alemão. "Quando assumi, queria mostrar ao meu pai que tinha capacidade para administrar os negócios."

Quando anunciou ao pai o suado contrato que conquistou com a Fórmula 1, ganhou um sermão. "Ele disse que eu era louca, pois, se houvesse qualquer erro, o estrago seria conhecido no mundo." Não por acaso, o patriarca dizia que ela era uma mistura de Poliana com Telê Santana, "do tipo que acredita que tudo vai dar certo e atira para todos os lados."

Hoje, a Movicarga, que começou com 4 funcionários, conta com 1,7 mil.

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