
Logo após o banco norte-americano Lehman Brothers pedir concordata e deixar centenas de executivos desempregados, no mês passado, milhares de profissionais passaram a correr em busca do curso ideal de MBA. Em tempos de desastres financeiros, a procura por esse tipo de pós-graduação cresce. Quem relata a aparente contradição é Paul Danos, reitor da Tuck School of Business, a escola de negócios da Dartmouth College, nos Estados Unidos, que figura entre as dez melhores do mundo e é a mais antiga do gênero, com 108 anos de existência. Com as empresas em suspensão por causa da crise que sacode bolsas de valores, interrompe o crédito e causa solavancos na cotação das moedas, as escolas de negócios miram no, digamos, "mercado futuro" dos empregos. Para Danos, o cenário é menos sombrio do que a turbulência atual faz crer. De passagem pelo Brasil, o professor tratou desta e de outras questões em entrevista à Gazeta do Povo:
Como a crise financeira afeta as escolas de negócios?
Em geral, a procura por cursos de negócios aumenta em tempos difíceis e se retrai no ano seguinte ao início da turbulência. Foi assim com o caso Enron e com o 11 de Setembro. Mas o crescimento das empresas tem sido tão gigantesco, e a procura por métodos de gestão melhores e mais modernos no Brasil, na China e na Índia tem sido tão intensa, que a crise atual não deve afetar as matrículas. Há uma carência muito grande de gerentes no mundo. Quem apostar numa carreira de administração poderá estar numa excelente posição daqui a dois anos. Talvez não em Wall Street nem em instituições financeiras, mas em outras áreas. Uma coisa é certa, no entanto: o cenário não será tão bom como foi até o ano passado.
Mas isso não desanima quem procura os cursos de MBA?
Pode desanimar quem busca uma carreira no setor financeiro. Na Tuck, estamos com a procura no mesmo nível de 2007, talvez um pouco menor na área de finanças, mas, como trabalhamos com apenas 240 alunos ao ano, não acho que teremos dificuldades em colocá-los no mercado. As grandes instituições de ensino, que preparam milhares de estudantes, podem ter a taxa de empregabilidade de ex-alunos afetada. As oportunidades não vão desaparecer, mas algumas vagas deixarão de existir, com certeza. Talvez eu esteja confiante porque a primeira semana de outubro foi tão terrível que parece que as coisas melhoraram. Mas tenho certeza que não assistiremos a um nível de desemprego batendo em 20%, como em 1932. Ele pode chegar a 6%, 7%, não mais do que isso. E, no estrato de profissionais mais qualificados, essa taxa é menor ainda.
Então essa não é uma crise como a de 1929?
Não. É claro que teremos uma redução na produção durante os próximos anos, mas o esforço para salvar o sistema financeiro em várias partes do mundo tem se mostrado gigantesco, e as respostas têm sido rápidas. Isso vai se refletir num retorno da confiança e, por conseqüência, num retorno à normalidade das empresas. A próxima década verá mudanças em gestão, em maneiras de aplicação financeira e em regulamentação, o que é muito saudável.
A regulamentação sobre as empresas e sobre o sistema financeiro será mais forte?
Toda uma nova área de regulamentação terá de ser aberta. Após os escândalos da Enron e da WorldCom, a lei Sarbanes-Oxley praticamente sanou os problemas de falta de transparência na contabilidade, em controles internos e em auditorias. Desta vez será diferente. Os legisladores tratarão de quanto pode ser pago em bônus a altos executivos, ou quanto as empresas devem manter em reservas técnicas ou, ainda, que tipos de produtos as instituições financeiras podem ou não vender a seus clientes.
Entramos, então, em um período de gestão mais conservadora?
Com relação ao que vem sendo praticado nos últimos 15 anos, sem dúvida. A gestão dos negócios ficará mais parecida com a adotada nas décadas de 40 e 50, principalmente nos bancos. Isso acontecerá espontaneamente, mas também por causa de novas obrigações a serem definidas pelos políticos. Haverá também, em boa parte do mundo, mais nacionalizações de empresas. Nos EUA, existe uma questão filosófica contra esse tipo de política. Mas, a partir de certo momento, as pessoas não se importam com quais medidas o problema será atacado, desde que ele seja atacado e que a estabilidade volte.
Um dos componentes da crise é a falta de transparência?
É também. Mas o principal talvez seja o nível atual de complexidade dos negócios e das finanças. Conheço muita gente em Wall Street, e muita gente que trabalha e comanda grandes instituições, e há dois anos ninguém tinha idéia da magnitude das conexões financeiras. Os agentes reguladores não tinham uma visão global do problema. O sistema de crédito, de dívidas e do mercado de recebíveis ficou tão intrincado e tão complexo que acabou sendo determinante para criar um rombo gigantesco e ao mesmo tempo invisível. Quando algo se torna tão difícil de ser avaliado, por ser complexo demais, ele se torna perigoso. Acredito que a crise levará a um sistema financeiro mais inteligente, e mais inteligível.
A crise vai atingir países emergentes como o Brasil com a mesma força que nos EUA e na Europa?
As chances de que isso aconteça são grandes, afinal o sistema financeiro está interconectado no mundo inteiro. Bancos de todos os países compraram papéis de qualidade duvidosa, e tem mais: para quem vender quando todo o mundo desconfia de todo o mundo? Essa é uma bola-de-neve. O Brasil depende muito de commodities, e isso é um problema. Com uma recessão no horizonte, a cotação da soja e do minério de ferro vai cair, o que irá penalizar as exportações brasileiras.
Quanto tempo levará para que a crise seja superada?
Este ciclo ruim será mais curto do que no passado. Tudo o que estamos vendo e enfrentando agora está baseado em expectativas, por isso é difícil prever em quanto tempo a crise será superada. Basta lembrar que, apesar de o pacote de resgate de US$ 700 bilhões ter sido aprovado, o Tesouro dos EUA não comprou um centavo de crédito podre ainda.
Você acredita que a tendência de maior intervencionismo é ruim?
Alguns conhecidos meus dizem que sim, que seria melhor deixar o mercado se auto-ajustar. Mas isso poderia levar muito tempo. Ninguém quer sofrer por quase uma década, como ocorreu após 1929.
Por que o governo dos EUA salvou a seguradora AIG e o banco Wachovia, mas não o fez com o Lehman Brothers?
Não sei. Acho que esse foi um grande erro, que resultou num mau sinal para o mercado. Mas você se lembra, no caso Enron, quando a consultoria Arthur Andersen foi forçada a parar? Não havia razão para aquilo. A Arthur Andersen não era pior do que as demais empresas de auditoria. Desta vez, foi semelhante. Não se mediram as conseqüências de deixar o Lehman Brothers pedir concordata.
Os investidores estão prestando muita atenção, ou pouca atenção, no mercado neste momento?
Muito pouca atenção. O que existe é desconfiança e pânico. Muitas companhias nos EUA, na Europa e no Brasil estão sofrendo sem motivos reais. Aliás algumas delas estão indo muito bem, com boas vendas e bom fluxo de caixa, mas suas ações estão lá embaixo. É o caso da General Electric e da Petrobras, para ficar em dois exemplos. Mas ninguém olha para esses dados agora. Os investidores só querem transformar as aplicações em dinheiro vivo, afinal só se fala em congelamento do crédito. Creio que essa fase de desconfiança generalizada começou a ser superada nos últimos dias.
Além dos bancos, que setores serão mais afetados pela crise?
Aqueles em que o componente puramente financeiro dos negócios é grande a ponto de se tornar tão ou mais importante do que seus produtos ou seus serviços. Tomemos como exemplo a General Motors. Ela está em dificuldades, mas se ela não tivesse cortado custos, aumentado a eficiência e fechado fábricas nos últimos anos, ela não teria sobrevivido. E a GM ainda tem US$ 150 bilhões em patrimônio. O Lehman Brothers vinha fazendo o mesmo trabalho, arrumando a casa, mas o patrimônio de um banco de investimentos é muito mais volátil que o de uma montadora. Também acho que companhias aéreas estão constantemente sob risco. Agora elas estão indo bem, com o petróleo em queda, mas essas empresas trabalham com um nível de endividamento muito alto e, em momentos de turbulência, sofrem mais do que a média.







