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Mídia

Primeiro jornal britânico em 30 anos: “Temos notícias e somos de papel”

Peródico The New Day promete cobertura otimista para o público jovem

    • Folhapress
    • 29/02/2016 13:59
     | DANIEL SORABJI/AFP
    | Foto: DANIEL SORABJI/AFP

    O Reino Unido acordou na manhã desta segunda-feira (29) com 2 milhões de cópias de um novo jornal impresso espalhadas pele território. “The New Day” (O Novo Dia, em tradução livre) é o primeiro diário britânico a ser lançado em 30 anos.

    O periódico chega ao mercado editorial com um proposta ousada não apenas por ser de papel num momento em que milhares de informações circulam frenéticas pela internet.

    O “New Day” não tem um site, não terá colunistas fixos, mas promete muita opinião diferente. Garante ainda neutralidade política e exibe um texto mais informal, repleto de contrações e gírias bem similar à linguagem falada. Avisa que vai ter notícias boas também e tem como slogan: “A vida é curta, então vamos vivê-la bem”.

    “Nós seríamos completamente insanos se estivéssemos lançando apenas mais um outro jornal. Mas não é. Sim, temos notícias e somos de papel (de alta qualidade, cor branco neve e grampeado). Mas as similaridades terminam por aí”, diz o anúncio na página 2 do novo jornal.

    A primeira edição traz, além de muitas notas curtas, um relatório sobre cuidadores de criança no Reino Unido e um texto sobre o romance de duas estrelas da música pop britânica (a cantora Cheryl Fernandez-Versini, 32, e Liam Payne, 22, integrante do One Direction).

    Também publica um texto do primeiro-ministro David Cameron sobre o plebiscito marcado para junho para decidir se o Reino Unido fica ou sai da União Europeia. Ao lado do que pensa Cameron, estampa a opinião de uma “londrina mãe de dois filhos” que está indecisa. “Todo mundo pode ter uma voz, seja o primeiro-ministro ou um pedestre na rua porque ambos merecem ser ouvidos”, explica o novo jornal.

    O New Day é do grupo Trinity Mirror, que publica mais de 150 títulos no Reino Unido e na Irlanda. Vai circular de segunda a sexta e chega para concorrer, principalmente, com os tabloides “Daily Mail” e o “Daily Express”.

    Na manhã desta segunda, foi distribuído gratuitamente. Vai custar 25 centavos de libra (cerca R$ 1,50) nas primeiras duas semanas, valor que em seguida será reajustado para 50 centavos (R$ 3). Será distribuído em supermercados, lojinhas e bancas por todo o país.

    Mesmo depois de um fim de semana com muitos anúncios na televisão e com a palavra “grátis” em letras garrafais na primeira página, nesta segunda o novo jornal não chamou tanto a atenção de quem passou pela estação de metrô de Westminster ou foi à procura de periódicos nas prateleiras de um supermercado na região noroeste de Londres.

    No supermercado, uma senhora apressada pegou o “Daily Mail” e o “The Times” e disse que há anos só lê os dois jornais. Contou que tinha ouvido falar do novo produto, mas não se animou de pegar a primeira edição do “New Day” nem mesmo para dar uma olhada. Na estação, onde o “Metro” e o “City AM” já são distribuídos gratuitamente há anos, a pilha do “New Day” passava desapercebida pelos menos atentos na porta da lojinha que vende de tudo um pouco.

    Neutralidade

    O novo jornal será feito para ser lido por quem é pobre de tempo e tem apenas 30 minutos para se informar, segundo explicou à “BBC” a editora Alison Philips. No editorial assinado por ela na primeira edição do “New Day”, Alison promete informações para pessoas “modernas, do tipo copo metade cheio”.

    Para o professor de jornalismo George Brock, da City University, em Londres, há uma enorme quantidade de leitores mais jovens que simplesmente não tem o hábito de comprar e ler jornais. Ele aposta que o público-alvo será jovem, urbano e que se desloca, preferencialmente, de trem e metrô, em especial para ir ao trabalho. Esse é o público que normalmente lê os periódicos distribuídos gratuitamente nas estações da capital inglesa.

    O novo jornal inglês promete uma cobertura animada, otimista e politicamente neutra. Para Brock, contudo, tal neutralidade não existe. “Provavelmente os grupos focais mostraram que há muitos jovens cansados e entediados com a posição dos atuais jornais. Talvez eles queiram mais originalidade, o que é diferente de neutralidade”, avalia Brock, que foi repórter e editor dos jornais “The Observer” e “The Times”.

    O professor James Curran, da universidade Goldsmiths, por sua vez, acredita que a principal característica dos impressos britânicos é apresentar uma linha editorial bem definida e declarada. “Jornalismo neutro -o gênero o novo título diz estar almejando- é dominado pela televisão e seus websites”, diz Curran, que leciona cursos sobre mídia, história e política.

    Brock concorda que os jornais britânicos hoje estão mais opinativos, os textos estão mais parecidos com os das revistas e, de certa forma, estão mais partidários também.

    O “New Day” garante que não vai dizer o que o público precisa pensar, mas vai trazer sempre dois lados.

    Futuro

    O “New Day” foi lançado nesta segunda, mas o futuro do novo título já divide opiniões de especialistas.

    O professor James Curran não vê um futuro duradouro pro novo jornal. “A estrada está repleta de carcaças de impressos lançados desde os anos 1980. O único diário nacional que foi bem sucedido foi o ‘Independent’ e ele agora está quase morto. Infelizmente, este projeto provavelmente não dura mais de dois anos, no máximo. Espero que eu esteja errado”, observa Curran.

    George Brock, por sua vez, é mais otimista. Para ele ainda há oportunidades na mídia impressa e produtos como livros, revistas e periódicos semanais e mensais ainda têm espaço no Reino Unido. Para ele, contudo, o modelo de negócio dos jornais diários é que, potencialmente, tende a mudar a médio prazo.

    Brock observa que o Reino Unido viu, por exemplo, o diário “Evening Standard” exibir uma performance acima da média desde que passou a ser distribuído de graça no metrô da capital inglesa.

    “Não é impossível sobreviver, mesmo para os diários. Mas está ficando cada vez mais difícil”, admite Brock. Para ele, o problema não é um novo jornal na praça, mas o fim da versão impressa do “Independent”. “Não estou seguro que o ‘Independent’ vai sobreviver apenas na internet”.

    Brock acredita que, em cinco, sete anos, jornais estabelecidos podem mudar a frequência de suas edições. Ao invés de publicações diárias, podem passar a circular três vezes por semana ou somente aos finais de semana. “Acho mais fácil isso acontecer do que o fim dos impressos”.

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