
O designer mineiro Roberto Vascon, 50 anos, conquistou fama inesperada, e quase imediata, nos Estados Unidos. Agora sonha em ser reconhecido pelos brasileiros.
Nascido em Raposos, interior de Minas Gerais, ainda de sobrenome Vasconcelos, o menino que adorava ver o trem chegar da cidade grande todos os dias e sonhava cruzar o mundo em um avião a jato começou a trabalhar aos 5 anos, produzindo colorau para vender de porta em porta. Aos 13, morando com a família em Belo Horizonte, ganhou o primeiro salário dançando balé em um grupo a convite do próprio coreógrafo as sapatilhas foram seu primeiro par de calçado.
Serviu o Exército quando chegou a hora e, aos 20, foi de carona para o Rio de Janeiro, para tentar ser ator. Não deu. A saída foi tentar o sonho americano, tudo para poder oferecer uma vida melhor para a mãe. Com o dinheiro que conseguiu lavando carros em Copacabana, comprou passagem para os EUA. Chegou. Passou fome. Mas conseguiu alcançar o objetivo de vencer, de um jeito que jamais imaginou. Tudo começou depois de um sonho com coloridas bolsas voadoras. A partir daí, Vasconcelos virou Vascon os norte-americanos não conseguiam pronunciar seu sobrenome até o fim.
O designer esteve em Curitiba há alguns dias, como um homem rico e considerado um dos maiores designers de bolsas dos EUA. A visita foi para o lançamento da sua marca na loja Je Veux, que iniciou a venda exclusiva das peças do mineiro. Hoje ele tem lojas que comercializam suas bolsas nos EUA e no Japão. A fábrica fica em Belo Horizonte, onde são confeccionadas 700 peças por mês, de modelos exclusivos produzidos à mão por 18 funcionários. No Brasil, além de Curitiba, as peças são vendidas na capital mineira e em Brasília. Em entrevista à Gazeta do Povo, Vascon falou sobre sua trajetória de vida e de sucesso nos negócios.
Como foram os primeiros meses em Nova York?
Catava latinhas e trocava por 5 centavos de dólar cada. Tinha dias em que encontrava 100 latinhas, dias em que achava 500, mas tinha dia em que não juntava nenhuma. Sempre tive de ter muita provisão de alimento, para não passar fome. Houve épocas muito difíceis, de ficar três dias sem comer. Mas ia muito a museu me colocavam para dentro de graça quando eu dizia que não tinha como pagar, mas que queria muito conhecer.
Como um sonho deu origem a toda sua trajetória profissional?
Quatro meses após chegar a Nova York, dormia no "meu" banco de praça no Central Park e sonhei com bolsas que voavam sobre o parque. Foi muito real e fiquei com aquilo na cabeça. Elas estavam me perturbando, porque eram muitas, um bando de bolsas. Na manhã seguinte gastei US$ 80 com couro, linha e agulha e comecei a produzir. Quando fazia uma, lembrava da outra. Fiz 12. Depois que gastei tudo o que tinha é que pensei: "Meu Deus, não deixei o dinheiro do café de amanhã!". Mas naquela noite eu jantei, igual a gente grande.
Você está se referindo ao dinheiro que ganhou com as 12 bolsas...
Uma mulher passou e viu, disse que era lindo o que eu estava fazendo e que levaria todas. Era ninguém mais ninguém menos que a editora de moda do New York Times [Nancy Harris]. Pedi US$ 75 pelas peças, mas ela não aceitou. Disse que estava muito barato e que pagaria US$ 150. E ainda ofereceu o jantar, para que eu contasse tudo sobre a minha história, desde quando nasci. Passamos a noite conversando. Na mesma semana fui ao edifício do New York Times a convite dela para oferecer minhas bolsas para as mulheres do jornal. Entrei numa sala e estavam vários jornalistas querendo saber sobre as bolsas.
Como foi o estouro no mundo da moda?
Foi publicada no jornal a informação de que eu estaria na feira de domingo que acontece em Manhattan. Quando cheguei, tinha uma multidão de gente, todos em fila. Eram pessoas que tinham visto a matéria e estavam me esperando. Dei uma coletiva para a imprensa naquele dia, fizeram até entrada na tevê, ao vivo, para o Japão. Fiquei muito assustado, inclusive por medo da imigração, porque estava ilegal no país.
E você conseguiu atender a todos os pedidos da feira?
Foi uma loucura, cada pessoa da fila encomendava mais de uma e deixava pago, mas consegui entregar todos os pedidos. Juntei US$ 80 mil naquele dia. Não tinha nem onde guardar, porque não podia carregar comigo para um banco de praça. O jornal reservou hotel para eu passar um tempo e acabei ficando um mês de cortesia, porque as diárias não foram cobradas. No 30.º dia de hospedagem recebi um telefonema do Japão. Queriam comprar meu nome para uma marca de móveis e me deram uma quantia, que foi o dinheiro que usei para comprar meu apartamento, em frente ao "meu" banco da praça no Central Park. Toda vez que vou ao parque sento nele. É o banco da energia boa.
Com o início de uma carreira promissora no exterior, como ficou a relação com o Brasil e a família que ficou?
Um ano e meio depois consegui retornar para visitar minha cidade. Minha mãe permaneceu em Minas Gerais, ia a Nova York apenas para passear. Eu a perdi há três meses, com 83 anos, e está sendo muito difícil, mas proporcionei a ela momentos de alegria, consegui deixá-la em uma boa situação.
O que você diz às pessoas que sonham em crescer como você?
Sempre falo que a primeira ferramenta é o amor. Se amar o que faz, só poderá fazer bem. Tive um sonho, que virou realidade. Mas não precisa sair do país para isso. Hoje está acontecendo o contrário, estou vendo meu sonho crescer aqui no Brasil. Quero que minhas bolsas sejam conhecidas.







