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Varejo

O que explica a crise no varejo que levou Casas Bahia e Marabraz à recuperação judicial

Crise do varejo Casas Bahia
Juros altos, crédito restrido e consumidor endividado levaram varejo brasileiro à crise (Foto: Dall-E/Gazeta do Povo)

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O varejo brasileiro atravessa uma das piores tempestades em décadas. Em poucos dias, duas redes de grande porte — Casas Bahia e Marabraz — pediram recuperação judicial, pressionadas por juros elevados, crédito escasso, concorrência digital e um consumidor com a renda cada vez mais comprometida por dívidas.

A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial no domingo (16) após registrar prejuízo de mais de R$ 10 bilhões no segundo trimestre. As dívidas superam R$ 17 bilhões.

A reestruturação financeira da empresa dependia da captação de novos recursos e da ampliação dos limites de crédito. Segundo Renato Franklin, presidente da Casas Bahia, o plano previa novas captações de dívida e uma oferta subsequente de ações, que não se concretizaram.

Para se ter uma ideia da crise, as ações da varejista, que registraram sua máxima histórica acima de R$ 400 em 2020, hoje não chegam a R$ 1.

Já a rede Marabraz, que chegou a ter mais de 130 unidades em São Paulo, pediu recuperação judicial no sábado (15), com passivo de R$ 140 milhões. A varejista enfrenta uma combinação de restrição de crédito, disputa societária e piora das condições de consumo.

O problema, porém, não se restringe às duas redes. o Grupo Toky, por exemplo – controlador das marcas Tok&Stok e Mobly –, também entrou com pedido de recuperação judicial em maio, para renegociar cerca de R$ 1,1 bilhão em dívidas.

O que explica a crise no varejo

Tanto Casas Bahia como Marabraz apontam os juros elevados e o crédito mais restrito entre os principais fatores da crise financeira.

Os juros altos — com a Selic atualmente em 14% ao ano — atingem o varejo de móveis e eletrodomésticos de duas formas. Primeiro, encarecem o dinheiro usado pelas empresas para financiar estoques e manter as lojas abastecidas.

Mas o impacto é ainda maior no crediário, essencial no modelo de negócio de parte das varejistas. Na Casas Bahia, por exemplo, as vendas no crediário, financiadas pela rede, responderam por 15,9% das vendas no segundo trimestre. Com o crédito mais caro, o consumidor parcela menos, compra produtos mais baratos ou adia a compra, enquanto aumenta o risco de inadimplência.

Júlio Moretti, CEO da Neot, classifica o momento como uma crise centrada em juros e escassez de crédito. "O varejo que vende parcelado está travado. O crédito na loja, que por décadas foi o ponto competitivo dos lojistas, deixou de ser vantagem e passou a ser custo."

Endividamento das famílias bate recorde

As vendas no varejo encolhem há 14 meses seguidos, segundo a Cielo, e o endividamento das famílias brasileiras atingiu o recorde de 82% em julho, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) divulgada pela CNC. Este é o maior nível da série histórica e marca o sexto mês consecutivo de alta.

Analistas do BTG Pactual e da XP Investimentos avaliam que o varejo físico enfrenta uma combinação de menor poder de compra e crédito mais restrito.

Segundo a Cielo, julho teve o pior desempenho desde 2020, quando a economia sentia os efeitos da pandemia. A retração, porém, não é homogênea: as famílias estão mais seletivas e priorizam os segmentos de maior recorrência. Os que melhor resistem são supermercados, hipermercados, drogarias e farmácias.

"As compras continuam acontecendo, mas categorias ligadas a necessidades mais recorrentes apresentam maior resistência, enquanto gastos que podem ser adiados ou reduzidos seguem mais pressionados. É um comportamento que revela como as famílias estão reorganizando suas prioridades de consumo", afirma Carlos Alves, vice-presidente de Tecnologia e Negócios da Cielo.

Concorrência digital

O varejo também enfrenta uma mudança no modelo de consumo. Plataformas como Mercado Livre e Amazon transformaram o varejo de eletrodomésticos e eletrônicos, diz Cláudio Santos, sócio da Galeazzi Associados. Apenas em julho, dados da Cielo mostram que as vendas por canais digitais cresceram oito vezes mais do que as das lojas físicas.

Para fontes ouvidas pela reportagem, a crise, portanto, não é somente conjuntural: além de enfrentar juros altos e consumidores endividados, as redes tradicionais precisam competir com empresas digitais que operam com estruturas diferentes e podem crescer sem a mesma rede de lojas físicas.

Casas Bahia atingida por juros e dívidas

Segundo o presidente da Casas Bahia, uma operação de captação internacional de crédito, que poderia dar novo fôlego financeiro, não foi concluída. Em paralelo, tentativas de empréstimos-ponte domésticos também falharam.

Com o caixa pressionado pelo custo da dívida, as despesas financeiras da varejista aumentaram. Ao mesmo tempo, ficou mais caro financiar a operação do dia a dia, reduzindo o dinheiro disponível depois do pagamento das dívidas.

Para preservar o caixa, a companhia reduziu fortemente os estoques. A queda de R$ 1,16 bilhão no trimestre gerou faltas pontuais de mercadorias em lojas e canais de venda, afetando diretamente a receita.

Franklin destacou que, diante das adversidades macroeconômicas após o primeiro trimestre, a medida judicial tornou-se a "melhor escolha para a companhia, para haver garantia de continuidade e poder organizar os passivos".

Segundo especialistas em reestruturação, o fechamento das 298 lojas consideradas deficitárias reduz os custos da empresa e evita que recursos sejam direcionados para unidades que não geram retorno suficiente.

Santos ressalta que o problema não é simplesmente falta de clientes ou de vendas, mas a dificuldade de gerar caixa suficiente e refinanciar uma dívida muito elevada.

Disputa familiar complica a situação da Marabraz

Parte dos problemas da Marabraz tem a mesma origem macroeconômica da Casas Bahia: juros elevados, crédito mais seletivo e capital de giro caro em um setor que depende fortemente de financiamento e venda parcelada. A Justiça deferiu o pedido de recuperação judicial da rede.

A raiz, porém, passa pela estrutura patrimonial e pela dinâmica familiar, especialmente pela disputa em torno da holding que concentrava boa parte dos imóveis, que historicamente serviam como reforço de garantia quando a empresa precisava de crédito, explica Santos. O acirramento do conflito impediu o uso dos imóveis como garantia, dificultando o acesso a crédito para financiar a operação.

Além da disputa societária, pesa a defasagem tecnológica. Enquanto o setor acelerava, a Marabraz, segundo o consultor, falhou em acompanhar a transformação digital. O e-commerce brasileiro saltou de R$ 126,45 bilhões para R$ 235,52 bilhões entre 2020 e 2025, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), mas a rede permaneceu dependente de uma estrutura tradicional de lojas físicas.

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