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Turbulência na rota da aviação regional

Nos últimos dois anos, 8 companhias fecharam. Hoje, 80% das rotas estão concentradas em apenas dois competidores, Gol e TAM

  • Pedro Brodbeck, com agências
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As companhias aéreas regionais estão à beira da extinção. Das 13 empresas que operavam no país há dois anos, oito fecharam. Das restantes, a Pantanal foi incorporada pela TAM, a Trip fundiu-se com a Azul e a Passaredo firmou parceria com a Gol. Somente a goiana Sete e a gaúcha NHT continuam operando de forma independente. Como resultado, Gol e TAM passaram a controlar 80% das rotas do país, ditando o ritmo de uma competição que resulta em preços comprimidos e baixa lucratividade.

A avaliação de especialistas é de que essa concorrência é prejudicial para as pequenas companhias diante dos altos custos e reduzida infraestrutura dos aeroportos do interior do Brasil. "Esse é um setor em que a mortandade das empresas é muito grande. Em geral, os empresários subestimam o risco de entrar nesse negócio", afirma o consultor André Castellini, da Bain & Company, consultoria especializada no mercado de transporte aéreo.

Mesmo com um crescimento forte na demanda, que este ano deve chegar a 190 milhões de passagens, os resultados não têm sido animadores. TAM e Gol, as duas companhias abertas que atuam no segmento, registraram prejuízo de R$ 1,6 bilhão no segundo trimestre deste ano. O professor de Ciência Aeronáutica da PUC-RS Enio Dexheimer explica que as empresas trabalham com uma margem muito estreita, o que explica os resultados ruins. Para quem é pequeno, como as empresas regionais, fica inviável pagar pelas aeronaves e combustíveis. Com isso, elas acabam suspendendo suas atividades.

Dexheimer afirma que este tipo de serviço sobreviveu enquanto as grandes empresas não estavam presentes nos destinos mais incomuns das viagens aéreas. "Há alguns anos, só as empresas menores chegavam aos confins do Brasil. Hoje o movimento é contrário. Quanto maior capilaridade e maior a rede, mais chances de se manter", explica.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) registrou queda na tarifa nominal média no ano passado. Descontada a inflação, a queda de 2010 para 2011 foi de 6,7% no valor das passagens, passando de R$ 296,33 para R$ 276,25. No cálculo de preço por quilômetro percorrido via transporte aéreo, as tarifas também estão menores. O yield, índice que corresponde a esta equação, em 2010 era de R$ 0,38 por quilômetro sobrevoado. Em 2011, o índice ficou em R$ 0,34, o que significa uma queda de 10,3%.

Guerra

"É uma guerra tarifária. Não sei até que ponto isto acontece de forma responsável. Em algum ponto da cadeia isso estoura", acredita Dexheimer. Ele acredita que o resultado desta formula de baixos preços e mercado reduzido tem sido a piora na qualidade dos serviços prestados. "Com menos opções de companhias, os serviços estão completamente deteriorados", afirma.

Segundo o Procon-PR, as reclamações crescem anualmente. De 2008 para 2011, o nú­mero de reclamações triplicou. "Há um declínio vertiginoso na qualidade dos serviços. A cada dia recebemos mais queixas de cancelamento, atrasos nos voos ou extravio de bagagem. As empresas não estão conseguindo lidar com o crescimento da demanda", explica Marcelo Santini, assessor jurídico da Associação Nacional em Defesa dos Di­rei­tos dos Passageiros do Trans­porte Aéreo.

Ele também alerta que, por mais que na média as passagens tenham caído de um ano para o outro, o índice não reflete a realidade de mercado. "A Anac usa uma metodologia, mas este índice é puxado para baixo pelas promoções. O sentimento do consumidor é de que a queda não foi nestes patamares", relata.

Abav quer fundo para garantir voos

Gabriel Azevedo

O presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav), Antônio João Monteiro de Azevedo, vai propor à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a criação de um Fundo Garantidor para pessoas que comprarem bilhetes aéreos e para agências de turismo que intermediam a venda de passagens.

De acordo com um documento enviado ao Conselho Consultivo da Anac, do qual Azevedo faz parte, o Fundo Garantidor poderia ser acionado por pessoas ou agências no caso de prejuízos, resultado de falhas das empresas áreas. No documento, Azevedo cita a Pluna, empresa aérea uruguaia que, em julho, suspendeu todos os voos diante dos problemas financeiros que enfrentava.

A falência da companhia provocou prejuízos às agências de viagem, que tiveram de reembolsar os passageiros. No documento, que será apresentado hoje, em Brasília, a Abav propõe a adesão obrigatória das empresas áereas, inclusive, com contribuições financeiras anuais ainda não estipuladas, proporcionais aos balanços financeiros.

Sobreviventes apostam em planos de negócios

Sem espaço no mercado de transporte aéreo, algumas companhias conseguem sobreviver controlando 1% das rotas que as grandes empresas abrem mão de servir. Além dos altos custos do querosene, as empresas regionais enfrentam a deficiente infraestrutura aeroportuária do interior do país e uma rede de distribuição de combustíveis que não chega a todas as cidades com voos regulares.

Entre os 13 destinos que a Trip, que se fundiu com a Azul, opera no Amazonas, há abastecimento em apenas quatro. "Isso significa que a empresa tem de levar o combustível para ir e voltar. Então tenho menos capacidade de levar passageiros e um custo maior", aponta o diretor de Relações Institucionais da aérea, Victor Celestino.

Mesmo com as dificuldades, empresários ainda apostam no segmento. É o caso de Jorge Barouki, do grupo catarinense Acauã, que comprou a NHT em maio. A aérea pertencia ao gaúcho JMT, e deu prejuízo no ano passado.

O novo dono planeja expandir a atual frota de seis bimotores LET-140, de fabricação tcheca, para 19 passageiros. A meta é incorporar quatro aviões Embraer de 30 lugares este ano e outros seis em 2013 – um investimento de US$ 21,5 milhões – e ampliar os destinos no Paraná e em Santa Catarina e estrear no interior de São Paulo.

Com base em Goiânia, a Sete Linhas Aéreas, que usa aviões iguais aos que a NHT quer comprar, tem planos mais modestos. Pretende manter o ritmo atual de crescimento e adicionar uma aeronave por ano à frota. "É preciso investir em metodologia. Quem tenta viver na base do instinto não prospera", diz o diretor comercial da Sete, Decio Assis.

Apesar do ânimo de alguns empresários, a aviação regional no país atende atualmente menos destinos que há 13 anos. Em 2011, havia voos regulares para 130 municípios, número inferior ao de 1998, quando 180 cidades estavam interligadas.

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