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Imigração

Turbulência põe fim ao “sonho americano”

Silvana (à esquerda) e uma cliente americana: venda de brincos garante renda | Arquivo pessoal
Silvana (à esquerda) e uma cliente americana: venda de brincos garante renda (Foto: Arquivo pessoal)

Se ainda restam esperanças para o povo americano de que a economia vai se recuperar da grave crise em que se encontra, para milhares de brasileiros que saíram de sua terra natal com pouco dinheiro e muita disposição em busca de oportunidades nos Estados Unidos, parece que o sonho americano acabou. As demissões e a diminuição na abertura de vagas de trabalho, estão trazendo muita gente de volta ao Brasil – há uma inversão do fluxo migratório.

Segundo estimativa do Centro do Imigrante Brasileiro (CIB), uma ONG com sede em Boston, desde o início da crise, só no estado de Massachussetts, mais de 10 mil trabalhadores brasileiros abandonaram os Estados Unidos e voltaram ao Brasil. O número deve subir ainda mais nos próximos meses, com a chegada do inverno no hemisfério Norte – que deve consumir cerca de US$ 500 a mais do orçamento de cada lar apenas para fazer funcionar o sistema de calefação. Em um ano, a energia elétrica no país teve reajuste de até 30%, enquanto os salários de algumas categorias estão congelados ou mesmo sendo achatados.

O diretor executivo do CIB, Fausto Rocha, calcula que, se a crise não for debelada até 2010, aproximadamente 30% dos imigrantes brasileiros podem deixar os EUA – a é de que cerca de 1,3 milhão vivam no país atualmente, 230 mil só em Massachussetts. "O imigrante é o primeiro a sofrer o impacto de qualquer crise. O problema começou no setor imobiliário e afetou diretamente a construção civil, no qual trabalha grande parte da mão-de-obra brasileira", diz. "O país deixou de ser atraente."

Mesmo para os que possuem o cobiçado green-card (visto de permanência) ou a cidadania norte-americana, a situação não é das mais confortáveis. O modelo de vida bem sucedida pautada pelo alto nível de consumo agora dá lugar a medos e inseguranças.

Morando há 10 anos nos EUA e casada com um americano, a manauara Silvana Hoggan ocupava até pouco tempo atrás a diretoria de vendas e marketing internacional da Nutraceutical, uma grande empresa de produtos naturais e suplementos alimentares. A crise derrubou as vendas e a companhia fechou o departamento internacional, demitindo todos os funcionários.

Para escapar do desemprego, Silvana abriu uma empresa que comercializa brincos artesanais feitos com sementes da flora brasileira pela internet. E para complementar a renda, a saída é vender em feiras temáticas os "brazilian style hot-dogs" (versão dos cachorros-quentes vendidos no Brasil). "O momento é de incertezas. Estamos no meio de duas guerras, em um período pré-eleitoral e sem saber se o próximo presidente dará conta de resolver a economia. Então deixamos de gastar com o que não é necessário para guardar para uma ocasião futura."

Já que a palavra de ordem é economizar, o casal trocou o utilitário esportivo por um modelo menor e mais econômico, diminuindo em 50% o consumo de gasolina – o galão custa hoje, em média, U$ 4. A reforma da casa foi cancelada e os planos de viagem, adiados.

Com a curitibana Caroline Crowther a situação não é diferente. Formada no Brasil em pedagogia, ela vive há seis nos EUA, é casada com um americano e dá aulas de educação especial em uma escola municipal de Salt Lake City. A crise forçou o casal a cortar o que ela chama de "mordomias do dia-a-dia". "A crise não está matando ninguém de fome, mas, como todos, tivemos que cortar os gastos desnecessários", explica. "Não dá mais para sair e comer sushi todo fim de semana ou viajar para acampar. Nem tem mais como comprar sapatos ou perfumes da Victoria Secret’s sempre que dá vontade."

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