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A vitória inesperada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez a Bolsa de Valores brasileira (B3) registrar nesta segunda-feira (26) a maior queda em um dia desde março de 2020.
O Ibovespa recuou 17,34% em seu pior momento, em meio à reação do mercado ao resultado eleitoral. Os juros futuros também dispararam, com as taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) subindo até três pontos percentuais. No fechamento, a queda registrada era de 13,88%, aos 176.608,23 pontos.
O movimento reflete a frustração de investidores que apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro e esperavam um ajuste fiscal mais rigoroso sob seu governo. Convencidos de que o empate técnico nas pesquisas favorecia o candidato da direita, muitos consideravam a eleição praticamente decidida.
A vitória de Lula, por uma diferença de 4,4 milhões de votos, contrariou essas expectativas e desencadeou uma corrida para vender ativos. Parte dos investidores e importadores deixou de contratar proteção cambial (hedge) contra uma eventual alta do dólar.
"A tão aguardada segunda-feira após o segundo turno acabou pegando muitos investidores desprevenidos", afirma Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI Investimentos.
"Como boa parte do mercado trabalhava com a vitória da oposição como cenário-base, houve uma rápida mudança de posicionamento, com investidores desmontando posições e ajustando suas carteiras à nova realidade política."
A B3 precisou acionar o circuit breaker às 9h57, quando o Ibovespa atingiu o limite de queda de 10% em relação ao fechamento anterior. O mecanismo interrompe as negociações por 30 minutos para conter movimentos extremos do mercado e não era usado desde a pandemia de Covid-19. (Leia mais abaixo.)
A reação também reflete o temor de que o governo Lula mantenha uma política fiscal expansionista para cumprir promessas de campanha, dificultando cortes nos juros e aumentando a pressão inflacionária.
Dólar: maior variação desde 1994
O dólar teve uma das maiores altas diárias desde a criação do Plano Real. As mesas de tesouraria dos bancos só conseguiram realizar cotações a partir das 9h30 ou 10h. No período, a alta chegou a 12,5%, com a cotação ultrapassando R$ 5,60, um aumento de mais de 60 centavos em poucas horas.
Ao longo do dia, a alta perdeu força. Perto das 13h30, o dólar era negociado com valorização de 8,92%, a R$ 5,4391. No fechamento, ficou em R$ 5,4232, com alta de 8,95%. Na sexta-feira, a moeda americana estava cotada em torno de R$ 4,97 a R$ 4,98.
"Foi um cenário de forte turbulência", diz Rodrigo Miotto, da Nippur Finance. "Muitos importadores não estavam protegidos por operações de hedge, pois confiavam nas sinalizações das pesquisas e no resultado do primeiro turno, prevendo queda do dólar no dia de hoje. O impacto foi expressivo."
Mercado tem perdas bilionárias
A queda dos ativos provocou perdas bilionárias entre os maiores investidores do país. Os quatro maiores banqueiros brasileiros perderam cerca de US$ 10 bilhões, o equivalente a 18% de seu patrimônio combinado, segundo dados publicados pelo Valor Econômico.
André Esteves, fundador do BTG Pactual, teve a maior perda individual: US$ 4,4 bilhões, cerca de 30% de sua fortuna, agora estimada em US$ 11,3 bilhões.
David Vélez, controlador do Nubank, perdeu US$ 2,6 bilhões, enquanto os irmãos Pedro e Fernando Moreira Salles, ligados ao Itaú Unibanco, tiveram uma perda conjunta de US$ 2 bilhões.
No conjunto, os dez brasileiros entre as 500 pessoas mais ricas do mundo acumulavam perdas de US$ 15 bilhões até o meio-dia, no horário de Nova York. Segundo o Bloomberg Billionaires Index, foi a maior queda diária do patrimônio desse grupo desde a criação do índice, em 2012.
Analistas preveem volatilidade
Analistas preveem que a volatilidade permaneça nos próximos dias, pelo menos até que o governo dê sinais mais claros sobre os rumos da política econômica no quarto mandato de Lula. "A normalização não deve acontecer de uma hora para outra, nem necessariamente ao mesmo tempo para todos os mercados", afirma Viotto.
"O câmbio, os juros e a Bolsa vão reagir de maneiras diferentes, conforme cada nova informação seja incorporada aos preços. O ponto de inflexão virá quando os investidores conseguirem enxergar maior previsibilidade na condução da política econômica."
Para o executivo da EQI Investimentos, a escolha do novo ministro da Fazenda pode influenciar o humor dos mercados. "Dependendo do nome e, principalmente, das sinalizações que o acompanharem, a reação pode ir do alívio à intensificação das preocupações", diz.
Na sequência, segundo ele, o cenário mais favorável aos investidores envolveria um compromisso crível com o ajuste fiscal, metas consistentes de resultado primário e, idealmente, um plano para estabilizar e reduzir a dívida pública ao longo do tempo.
Mais do que declarações de intenção, porém, o mercado vai querer entender como essas medidas serão implementadas e qual será o grau de compromisso do governo com sua execução.
"A confiança precisará ser reconstruída com medidas concretas, e não apenas com discursos", afirma. "Até que isso aconteça, devemos conviver com dias de forte especulação. O mercado continuará tentando antecipar não apenas o que o governo pretende fazer, mas, sobretudo, o que de fato será capaz de entregar."
Quando a Bolsa brasileira acionou o circuit breaker
Criado em 1997, o circuit breaker interrompe temporariamente as negociações na B3 quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior. Se a queda atingir 15% após a reabertura, há uma nova suspensão, de uma hora. O terceiro estágio, previsto para perdas de 20%, nunca foi acionado. Até esta segunda-feira (26), o mecanismo havia sido utilizado 24 vezes.
- 1997 — Crise asiática: três acionamentos em outubro e novembro, em meio à turbulência financeira internacional e à fuga de capitais de mercados emergentes.
- 1998 — Crise russa: cinco acionamentos entre agosto e setembro. O calote da dívida russa e o temor de contágio provocaram forte saída de recursos de países emergentes. Em 10 de setembro, a Bolsa chegou a registrar duas interrupções no mesmo dia.
- 1999 — Desvalorização do real: dois acionamentos, em 13 e 14 de janeiro, durante a crise cambial brasileira, que levou ao abandono do regime de bandas cambiais e à adoção do câmbio flutuante.
- 2008 — Crise financeira global: seis acionamentos entre setembro e outubro, após o agravamento da crise imobiliária nos Estados Unidos e a quebra do banco Lehman Brothers. Foi um dos períodos de maior turbulência dos mercados mundiais.
- 2017 — Joesley Day: um acionamento em 18 de maio, após a divulgação de gravações envolvendo o empresário Joesley Batista e o então presidente Michel Temer. A crise política provocou uma forte onda de vendas na Bolsa.
- 2020 — Pandemia de Covid-19: seis acionamentos em março, diante da disseminação do coronavírus, da incerteza sobre os efeitos econômicos da pandemia e do tombo dos preços do petróleo. Em 16 de março, o Ibovespa fechou em queda de 13,92%.
- 2026 — Resultado eleitoral: um acionamento em 26 de outubro, após a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno. A reação negativa refletiu a frustração de parte dos investidores e o temor de uma política fiscal menos rigorosa. O Ibovespa chegou a cair 17,34% durante o pregão.




