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Foto: Reprodução | Pixabay.
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O Brasil não alfabetiza bem as suas crianças. Ao invés de ensinar o chamado “princípio alfabético”, de forma explícita e sistemática, e as regras de codificação e decodificação dos fonemas, os professores esperam que os alunos “adivinhem” como ler.

“Esse método não funciona, porque ler não é natural para o homem”, explica Luiz Carlos Faria da Silva, que integrou o Grupo de Estudos da Academia Brasileira de Ciências (ABC) sobre Aprendizagem Infantil. “Os educadores no Brasil, por uma série de circunstâncias históricas, não são ensinados nas faculdades de Pedagogia sobre o melhor caminho indicado pelas evidências científicas para alfabetizar”, lamenta.

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Em entrevista à Gazeta do Povo, ele explica por que os métodos fônicos nunca foram utilizados no Brasil e por que as faculdades de Pedagogia não ensinam as melhores técnicas para alfabetizar a seus alunos.

Por que a abordagem construtivista para alfabetizar, mais conhecida como letramento, não funciona?

Porque ao priorizar a compreensão da palavra ou frase, a abordagem tipo letramento (que não corresponde ao termo inglês literacy) não ensina a criança a decodificar/codificar. Isso não funciona, pois não dá à criança a chave do código. Lembremo-nos: ler e escrever não são ações naturais para o ser humano, como é o falar. O aprendizado do que é invenção humana, criação cultural, requer ensino explícito e sistemático. E a escrita é invenção, cultura.

Essa discussão já foi superada há mais de 40 anos por evidências científicas. Os países que melhor alfabetizam, onde a maioria das crianças pode ler aos 6 anos, sem trauma, utilizam métodos fônicos. Essa idade pode variar um pouco com as distintas características das línguas e suas escritas. Não é o caso do Brasil.

Nos termos da ciência cognitiva, a discussão não é método fônico ou não fônico, mas qual método fônico utilizar.

Por que o senhor considera ineficaz a forma como as crianças são alfabetizadas hoje no Brasil?

Não sou eu que considero ineficaz. São os números que indicam. Os resultados das avaliações do desempenho em leitura no Brasil são desastrosos ao final do terceiro ano, ao final do quinto ano, e ao final do nono ano, ou seja, em todo o ensino fundamental, respectivamente 45%, 44% e 66% dos concluintes de cada fase de escolarização apresentam desempenho abaixo do mínimo esperado.

O que as crianças fazem nas escolas entre os oito e dez anos? E entre 11 e 14 anos? A porcentagem dos que apresentam desempenho abaixo do mínimo cai somente 1% entre o terceiro e o quinto anos do ensino fundamental e aumenta vertiginosamente ao final do nono ano.

Todos os números apontam na mesma direção. Mesmo olhando somente para o que ocorre na fase inicial, é um desastre colossal ter 45% das crianças com desempenho abaixo do mínimo esperado em leitura aos 8 anos. Ainda mais se levarmos em conta que a maioria dessas crianças frequenta escola há cinco anos. E muitas há sete anos.

Resultados como esses indicam, no mínimo, que não é de baixa magnitude a falha da educação escolar brasileira no mais básico que é ensinar a ler e a escrever.

Por fim, o desempenho leitor de nossa população escolar com idades entre 15 e 16 anos, e que está na escola há pelo menos 9 anos, é desastroso, se dermos crédito aos números do PISA, exame internacional de iniciativa da Diretoria de Educação da OECD, do qual o Brasil participa desde 2000.

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Quais são as vantagens do método fônico?

Ele é eficaz para todos os perfis de crianças, mas principalmente para crianças de famílias em situação de vulnerabilidade. Como ler não é algo natural, é preciso ensinar, explícita, sistemática e precocemente, o princípio alfabético, quer dizer, mostrar à criança que o que funda a escrita como código é o fato de existirem letras e delas serem relacionadas a unidades mínimas de fala que, embora nem sempre escutemos clara e completamente na comunicação oral, precisamos discernir quando vamos ler ou escrever palavras. Além disso, é preciso ensinar, também sistemática e não incidentalmente, as regras da decodificação e da codificação, pois o código é complexo.

Métodos fônicos dão a chave do código à criança e isso dá autoconfiança, as crianças ficam orgulhosas de si mesmas, o que aumenta as chances de trajetória escolar bem-sucedida. Crianças que fracassam na alfabetização evitam ler. Assim, conhecem poucas palavras, aprendem menos, sofrem queda de autoestima, atrasam-se. Isso tem impacto negativo no desenvolvimento da trajetória escolar. E aumenta o risco de evasão.

Por que, então, o método fônico foi superado?

Métodos fônicos nunca foram superados. Nem aqui nem em lugar algum. Essa história é complexa. O que acontece é que, no Brasil, ele nunca foi aplicado apropriadamente. No Brasil, confundem-se cartilhas como a Cartilha Sodré e Caminho Suave com método fônico, o que é um erro.

Como assim?

A Cartilha Sodré, por exemplo, editada pela primeira vez em 1939, era considerada de método fônico – o que não é verdade. Chegou a ter 300 mil exemplares por edição com vendas sempre esgotadas. Sua primeira lição tem a frase: a pata nada. E pede ao professor para comandar a leitura da frase pelas crianças. Na primeira lição de uma cartilha para alfabetizar. Claro que não há leitura feita pelas crianças. A professora, ou o professor é que leem. Para os alunos, a percepção do que ali está escrito se apoia na imagem. Justamente uma imagem na qual... uma pata nada.

Isso é ensino de leitura a partir de frase. E apoiada em imagem. Ao final, como não se escreve sem letras, a cartilha terá que ir às letras. Ninguém pode ensinar a ler sem elas. Mas nas abordagens modernas, naturais, analíticas, letras passaram a ser vistas como estorvo pelos educadores.

A Cartilha Sodré muito usada no século passado, fazia da frase o centro da ação didática de ensino da leitura, linguagem expressando o pensamento. Mas linguagem chamando atenção para as coisas, e não para letras e sílabas. Nem, menos ainda, chamando a atenção para grafemas, fonemas, fones.

Outro exemplo é o da cartilha Caminho Suave. Editada após a Cartilha Sodré, mas também difundida a partir dos anos 1940, ela aplica um método de alfabetização pela imagem (isso está escrito na capa da cartilha). As lições têm letras, associadas a palavras a serem memorizadas por associação com imagens.

As letras estão infundidas em desenhos estilizados: “a” de abelha, “b” de barriga, “f” de faca, etc. O processo de leitura, por óbvio, nunca pode dispensar a letra. Mas o importante, para os elaboradores dessas cartilhas a que nos referimos aqui, é a coisa expressa em palavra.

Educadores brasileiros em geral fazem o contrário do que se faz em países que alfabetizam bem. Aqui não se dá importância ao ensino explícito e sistemático dos elementos presentes no material acústico da fala que terá suas unidades representadas na escrita como um código, o código alfabético. Desconhecimento dos conceitos da criptografia e indistinção entre cifra, código, notação, baseiam afirmações equivocadas sobre a natureza de código do alfabeto.

Daí que no material do “Caminho Suave” as letras são usadas sob as formas estilizadas e infundidas em imagens associadas a palavras inteiras. As crianças memorizam a escrita da palavra inteira. Como se essa palavra fosse uma imagem.

Isso não é método fônico.

Qual é o problema desse sistema?

Havia uma falsa premissa de que aprender a ler seria tão natural quanto aprender a falar, o que se descobriu que não é verdade. O que já é um fato mundialmente aceito na ciência, ainda gera confusão e o equívoco entre educadores. Sobretudo por aqui.

Ao preconizar a necessidade de análise crítica do que está escrito, já no momento do aprendizado inicial de leitura, ao afirmar que ler é “construir sentidos”, a teoria e a prática de ensino inicial de leitura, especialmente no Brasil, negligenciam o fundamental para a alfabetização: a percepção consciente dos fonemas, dos valores fonológicos associados às letras, o conhecimento das regras da decodificação e da codificação. Repito: prestar atenção conscientemente aos fonemas não é coisa que se faça naturalmente.

Naturalmente, desde tenra idade, percebemos e distinguimos fonemas na comunicação oral. Mas isso é feito abaixo do nível da percepção consciente. Percepção consciente dos fonemas só é necessária quando se está aprendendo a ler uma escrita baseada em alfabeto.

O conhecimento científico mais atualizado sobre alfabetização desenvolvido nas últimas décadas valeu-se de achados da pesquisa básica em linguística e paleografia, certamente. Mas incorporou também conhecimentos de diversos campos: processamento informacional no cérebro, tratamento da informação acústica presente na fala, mapeamento funcional e estrutural de áreas de interesse para a fala e a visão no cérebro (não disponíveis antes dos anos 1990), neurobiologia do processamento cognitivo das informações visuais, auditivas e motoras, comportamento leitor em tarefas controladas de leitura, ciências da informação e da computação, biologia evolucionária e psicologia cognitiva evolucionária.

No Brasil, a abordagem do problema da aprendizagem em geral e a abordagem do problema da alfabetização em especial ainda estão presas a uma psicologia da educação e a uma psicologia cognitiva fortemente influenciadas pela biologia do final do século retrasado e início do século passado. Também estão ligadas a debates teóricos sobre a função social da linguagem.

O debate educacional no Brasil pouco ou nada incorpora das informações de primeira mão nos campos da modelagem do tratamento informacional durante a leitura e seu aprendizado, da neurociência cognitiva do desenvolvimento da leitura ou do campo dos estudos sobre os sistemas de escrita e dos estudos experimentais que comparam efeitos diferenciados de métodos de alfabetização no desempenho em leitura.

O senhor vê uma causa ideológica à aversão ao método fônico?

Não sei se diria ideológica. O fato é que, enquanto outros países abandonaram a whole language, na década de 1990, o letramento, que em parte nela se inspira, se consolidou no Brasil em dois ciclos de governos de partidos políticos adversários eleitorais nas décadas de 1990 e 2000. E com apoio das ONGs financiadas por bancos e por grandes empresas de vários setores da economia brasileira, além de contar com a simpatia absoluta dos formadores de opinião nos meios de comunicação.

Infelizmente, há uma imagem no Brasil errada de que a técnica “oprime” o aluno, quando, na verdade – e isso não sou eu que estou dizendo, mas as evidências científicas –, alfabetizar é uma técnica que, bem aplicada, tem sucesso, mesmo entre as crianças com mais dificuldades.

A alfabetização bem feita, o quanto antes, se associa a sucesso na trajetória escolar. Crianças que passam com sucesso pela alfabetização têm maior probabilidade de fazer uma trajetória escolar bem-sucedida. E essas duas características estão associadas a perfis futuros mais favoráveis de conclusão dos estudos de educação básica, de acesso à formação superior, de empregabilidade.

Diferentemente, insucesso na alfabetização posterga ou atrapalha o desenvolvimento do aprendizado de leitura. Aumenta o risco de repetência e de evasão. E se associa a risco futuro de baixa empregabilidade, envolvimento em crimes, dependência de serviços de assistência social. Por isso, uma alfabetização eficaz e tempestiva tem alto potencial para diminuir as chances de que o aluno seja senão “oprimido” ao menos manipulado, como parece ser a preocupação de todos.

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