A ciência evolui a cada dia. Basta abrirmos os jornais que nos deparamos sempre com uma novidade em seus diversos campos. E a educação faz parte disso. Quando surge uma dificuldade de aprendizagem, a questão vai muito além das salas de aula. São médicos de diversas áreas, psicólogos, pedagogos e fonoaudiólogos formando uma rede na busca pelo restabelecimento de um padrão "normal" de resposta frente à atuação do professor.
A criança que apresenta algum comportamento diferenciado, como por exemplo uma dificuldade de concentração ou de captura do conhecimento, é rapidamente detectada, inicialmente pela professora e em seguida pelos demais profissionais aos quais é encaminhada. Daí para o contemporâneo diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é muito rápido. Fica então a pergunta: antes disso, quando não havia ainda esse diagnóstico, como eram trabalhadas estas crianças?
Vou contar uma história muito simples. No meu tempo de criança, quando eu trazia para casa uma nota baixa, morria de medo que meus pais brigassem comigo ou me deixassem de castigo. Montava então uma estratégia para mostrar a prova, procurando o melhor momento para isso. O professor sempre tinha razão, ele era o verdadeiro mestre imbatível, senhor da sala de aula. Era terrível levar uma bronca do professor, sentia vergonha diante dos colegas.
Pois bem, hoje em dia algo está muito diferente. Começando pelas notas. As crianças não têm mais o mesmo "receio" de mostrar as notas e por uma razão muito simples: o professor perdeu sua autoridade e seu inabalável conhecimento. Os pais, salvo as exceções, acabam por questionar a nota junto ao professor. As crianças, por sua vez, consideram o professor alguém que está ali para cuidar delas, mas sem contrariá-las. Com isso, "crianças problema" são rapidamente percebidas e encaminhadas para outras áreas do conhecimento, principalmente ao médico.
Como é possível perceber, uma bola de neve vai se formando e indo em direção à criança. O diagnóstico precipitado, o uso de medicamentos exagero no uso do estimulante ritalina e de fluoxetina. É a "medicalização" da educação. Um rótulo é colocado na criança, o que pode comprometer ainda mais seu percurso acadêmico do que a hipótese de hiperatividade. O problema está justamente numa generalização daquilo que é singular em cada criança. Seu jeito de lidar com os problemas, com os amigos, com a vida em geral, são condutas que precisam de respeito e muito cuidado. É claro que a boa ciência está aí para melhorar a vida de todos, mas temos de cuidar dos nossos pequenos, pois, como vimos, o problema é muito maior do que simplesmente detectar doença da moda.
Diria que, já ouvindo de outros autores sobre o tema, temos, além dos problemas de aprendizagem, algo muito maior e mais complexo, que seriam os problemas de "ensinagem". É importante refletir sobre esse tema, pois num mundo apressado, da célebre frase "tempo é dinheiro", dois sintomas claros surgem em nossas crianças: hiperatividade apressadas e estressadas e déficit de atenção, dizendo a nós que o tempo de criança não pode ser equiparado a dinheiro e sucesso. E isso não necessariamente vai corresponder a distúrbios neurológicos.
* Wagner Rengel é psicanalista e proprietário da Escola Gaia de Educação Infantil. É formado em Psicologia e Pós-graduado em Filosofia



