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Magistério

Divididos entre o ensino público e o particular

Professores que lecionam em escolas das duas redes precisam de habilidade para conseguirem se adaptar a condições de trabalho diferentes

  • PorJônatas Dias Lima
  • 14/11/2011 21:10
O professor Alcides Martinelli dá aulas de História no Colégio Expoente e no Centro Estadual Maria Deon de Lira, em Curitiba. Acompa­nha­mento distinto dos alunos é determinante para o rumo diferente de suas aulas | Marco André Lima/ Gazeta do Povo
O professor Alcides Martinelli dá aulas de História no Colégio Expoente e no Centro Estadual Maria Deon de Lira, em Curitiba. Acompa­nha­mento distinto dos alunos é determinante para o rumo diferente de suas aulas| Foto: Marco André Lima/ Gazeta do Povo

Em média, salário na rede pública é maior

Por contar com escolas de perfis bastante distintos, a variação nos salários pagos pela iniciativa privada é grande, mas a média fica abaixo do que é oferecido aos profissionais da rede pública. Uma pesquisa do Sindicato dos Professores no Estado do Paraná (Sinpropar), realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeco­nômicos (Dieese), mostra que havia 6.381 professores de educação básica lecionando em escolas particulares no Paraná em 2010. Na educação infantil e no ensino fundamental, o salário médio na época da pesquisa era de R$ 939,20. No ensino médio, o valor subia para R$ 1.245,45.

Para comparar, em Curitiba, a média salarial dos professores de ensino fundamental da rede municipal estava em R$ 1.538,65 em 2010. Já os profissionais da rede estadual que atuam no ensino médio ganhavam em torno de R$ 2.017,92.

Vantagens

Segundo a coordenadora dos cursos de pós-graduação em Educação da FAE Centro Universitário, professora Cléa Mara Reis Félix, há vantagens e problemas diferentes nas duas redes e eles podem variar dependendo do município. "Na prefeitura de Curitiba, uma professora não vê vantagem em migrar para a rede privada já que a remuneração é maior e a estrutura e capacitação oferecidas também são boas", diz.

A professora Juciane Gonçalves, que atua nas duas redes, destaca os aumentos salariais por titulação como outro aspecto positivo do setor público que faz falta na escola particular. "Posso receber aumento de salário quando concluo uma especialização ou um mestrado", conta.

Se, com exceção das escolas de ponta, as instituições particulares não são tão atrativas a profissionais que buscam altos salários, os benefícios são citados como chamativos para quem opta por manter-se nos dois setores. É o que destaca o professor Alcides Martinelli. "Contar com um bom plano de saúde e fundo de garantia fazem diferença", diz. (JDL)

O professor de História Alcides Martinelli, 49 anos, 25 desses de magistério, trabalha em duas escolas de Curitiba e ele próprio é um dos pouquíssimos elementos em comum entre elas. Todos os dias, Martinelli divide sua rotina entre as turmas do 6.º ao 9.º ano do Colégio Expoente, nos bairros Água Verde e Boa Vista, e os alunos do Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos (CEEBJA) Maria Deon de Lira, no Boqueirão. Ele se esforça para ensinar o mesmo conteúdo a todos, mas as diferenças nas condições de trabalho são incontáveis. Adaptar-se para conviver entre dois mundos tão distintos – das redes privada e pública de ensino – exige habilidade e motivação.

Na instituição particular, que atende famílias de classe média/alta, Martinelli acompanha o mesmo grupo de alunos há quatro anos. Ele conta com satisfação a experiência de ser o principal responsável por tudo o que os jovens sabem sobre História, desde a metade do ensino fundamental até a entrada no ensino médio. "Dá para fazer um trabalho excelente. A qualquer momento, eu posso retomar o que ensinei há uns dois anos e fazer a ligação com um tema atual", diz.

A participação dos alunos é intensa. Como a escola é o centro das atenções na vida dos 115 estudantes que têm aulas com o professor, a preocupação maior é aprender, tirar boas notas e sonhar com uma vaga na universidade.

Complicadores

Reproduzir o bom rendimento dessas aulas nas noites em que está no CEEBJA é um desafio diário cheio de complicadores. Em turmas cuja variação de idade vai dos 18 aos 50 anos, é uma raridade encontrar alguém que compareça às aulas movido pela vontade de aprender. Nem mesmo a necessidade de obter um certificado de conclusão – a principal justificativa de matrículas no sistema – evita um grande número de faltas capaz de prejudicar qualquer plano de aulas. As desistências, também comuns, são um motivo a mais para desanimar.

Envolvimento dos alunos é determinante

Situação semelhante à de Alcides Martinelli é enfrentada pelo professor de Matemática Sergio Luiz Alves da Silva, de 58 anos. Docente aposentado pela rede privada de ensino, ele prestou concurso público em 2007 e desde então dá aulas no Colégio Estadual Getúlio Vargas, no bairro Cachoeira, em Curitiba.

Segundo Silva, ao contrário do que o senso comum pode supor, não é a diferença de estrutura que mais dificulta o trabalho. "Materialmente, eles [estudantes] têm tudo o que é necessário, como computadores e uma tevê em cada sala. O difícil é motivar os alunos", diz. Para o professor, problemas familiares e a criminalidade local deixam os estudantes sem perspectiva. "Não há participação dos pais em nada. Tenho alunos que vão para a escola apenas para se alimentar", conta.

Comparação

Para a comparação, Silva usa como referência seus outros ambientes de trabalho. Duas faculdades particulares, além de aulas extras no Colégio Estadual do Paraná (CEP). Nas turmas de ensino superior, ele lida com homens e mulheres interessados principalmente em progredir na carreira profissional. Mas é a experiência no CEP que lhe mostrou ser possível obter na rede pública um desempenho em sala de aula equivalente ao que se tem em escolas particulares. O fato de o colégio fazer uma triagem para aceitar matrículas, por meio da análise do currículo, é, segundo o professor, o principal motivo para a formação de turmas dedicadas.

"Eles [alunos] te dão uma atenção impressionante. Dá pra ver a vontade de aprender e a gente sente o nosso trabalho ser reconhecido", afirma. Mesmo ganhando menos como professor de educação básica do que como docente na faculdade, essa satisfação é citada como a razão mais forte para Silva manter sua rotina. "Não se ganha muito dinheiro no Estado. É a consciência de que o nosso trabalho é relevante que estimula a gente a continuar ensinando", conclui.

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Interatividade:

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