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Imagem ilustrativa.| Foto: Unsplash

O mundo dos adultos é competitivo. Todos são avaliados e comparados, o tempo inteiro, a respeito de suas aptidões e seu desempenho. Será que a escola precisa ser assim? A meritocracia ajuda a formar adultos mais preparados para as demandas futuras? Ou medir estudantes e estimular a competitividade apenas reforça desigualdades sociais, na medida em que favorece os que já são mais favorecidos? Aliás, o que é exatamente meritocracia?

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“Meritocracia é a celebração do esforço, do empenho focado na superação de si e do outro, o desejo de romper limites, de ser melhor”, responde Dennys Xavier, professor de filosofia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e coordenador acadêmico do Instituto Mises Brasil. “Hoje, criminalizamos os que se destacam e estimulamos a mediocridade. Somos seres competitivos, aventureiros, conquistadores. Dizer que não devemos ser assim contraria a nossa natureza”.

Para o professor, essa é uma lição que se aprende, sim, na escola. “O problema não está na meritocracia em si, mas num sistema de aprendizagem/avaliação de competências unificante, ultrapassado e, a bem da verdade, altamente frustrante”, ele afirma. “Agora, é evidente que se a criança tem alguma disfunção cognitiva ancorada em condição médica crônica, isso pode, muitas vezes, impedi-la de competir e, então, o sistema deve abraça-la para oferecer condições dignas de existência, com estímulos pensados para cada situação específica”.

Prêmios para os melhores

Para a educadora e consultora em educação Andrea Ramal, a estratégia tem vantagens evidentes. “A meritocracia dentro da sala de aula pode estimular os alunos a melhorar seu desempenho. Estimula a atitude de superação, torna o processo de aprendizagem mais desafiador (como num game, em que os jogadores desejam atingir níveis mais valorizados) e forma para o mundo do trabalho, que também (em geral) é meritocrático”.

Muitos colégios particulares brasileiros adotam, há anos, práticas de meritocracia. As unidades do grupo Pensi, do Rio de Janeiro, realizam cerimônias anuais de premiação dos melhores alunos, com entrega de certificados. Pelo resto do ano seguinte, os estudantes de destaque são homenageados em quadros pendurados nas paredes da recepção. A ideia é valorizar os mais bem-sucedidos, sem estigmatizar os demais estudantes.

“Não acreditamos em talento, acreditamos em esforço continuado”, afirma Pedro Rocha, coordenador geral do ensino médio e do pré-vestibular do grupo Pensi. “Acreditamos na meritocracia entre os alunos, mas para que ela seja factível, damos suporte para que todos estejam no mesmo degrau”.

Andrea Ramal lembra que valorizar os melhores pode apresentar algumas desvantagens. “Se a escola ou a família não souberem trabalhar esse método de forma positiva, pode funcionar ao avesso. Se a família cobrar demais um estudante que nunca é premiado, mesmo se esforçando, ou a escola menosprezar esses alunos com baixo desempenho, em vez de apoiá-los e ajudá-los a alcançar um desempenho melhor, pode ocasionar frustração, desânimo, desmotivação para o estudo e desinteresse por outras competições”.

Para lidar com esse problema, o Pensi criou um mecanismo para valorizar o esforço de todos. Ao fim de cada ciclo, os alunos que tinham notas baixas e alcançaram um melhor desempenho são premiados. “Reconhecemos o estudante que se esforçou para melhorar suas notas”, diz Pedro Rocha. Quanto aos melhores alunos, afirma o coordenador, “eles são estimulados a buscar sempre mais, a não tratar a premiação como algo corriqueiro”.

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Distribuição de bolsas

A meritocracia também pode servir como ferramenta para a inserção social. Para garantir o acesso de alunos dedicados e de outras classes sociais, o grupo realiza uma prova que seleciona aqueles estudantes que terão direito a bolsas.

Essa medida também é adotada pelo Colégio Rio Branco, de São Paulo. Para alunos que desejam entrar no sexto ano do ensino fundamental e no primeiro ano do ensino médio, a prova classifica estudantes habilitados para receber bolsas de até 100%. A última edição, com 40 perguntas de múltipla escolha, foi realizada no fim de agosto, visando o ano letivo de 2020. Para continuar recebendo a bolsa no ano seguinte, o aluno precisa manter boas notas.

O programa de bolsas estimula as crianças que têm bom desempenho graças a sua dedicação, seu esforço, sua disciplina”, explica a diretora-geral do Colégio Rio Branco, Esther Carvalho. A instituição também realiza uma premiação anual, oferecida a todos os alunos do ensino fundamental que obtiveram média global acima de 9. Para o ensino médio, são premiados todos os que ultrapassaram a média de 8,5.

“O conceito não é competir com ninguém, mas se superar”, diz a diretora-geral. “Além do rendimento acadêmico, premiamos também quem se destacou em outras áreas, como monitoria, artes, responsabilidade socioambiental e esportes. É uma forma de valorizar os talentos em diferentes setores de atuação”. Até mesmo os alunos que mais retiram livros na biblioteca são premiados. “Queremos ampliar o conceito da meritocracia, sem deixar de valorizar o desempenho acadêmico”.

Bônus para professores

E entre os professores e funcionários das escolas, que já são adultos, a meritocracia é uma estratégia válida? “Existe o lado positivo, que seria possibilitar reter os bons professores na escola e na profissão”, diz Andrea Ramal. “Hoje, temos muitos docentes abandonando a área, pela baixa remuneração e condições de trabalho ruins. Se os melhores fossem premiados, seria uma forma de mantê-los e não perder talentos”.

As secretarias estaduais da educação de São Paulo, Minas Gerais, Ceará e Pernambuco, além das secretarias municipais do Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu e de Sobral, pensam que sim. Ao longo da última década, todas elas desenvolveram sistemas de bonificações, de acordo com o desempenho profissional. Em todo o Brasil, mais de 30 mil escolas públicas já adotaram algum sistema de premiação. A estratégia mais adotada é premiar todos os profissionais de uma escola, quando ela alcança metas pré-estabelecidas.

Um estudo se debruçou sobre a rede estadual paulista, onde o sistema de bonificação foi instaurado em maio de 2008 e premia a todos os funcionários das escolas que alcançarem uma meta previamente estabelecida. Realizado por três pesquisadores, da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade de São Paulo, a pesquisa Impacto Sobre o Desempenho Escolar do Pagamento de Bônus aos Docentes do Ensino Fundamental do Estado de São Paulo concluiu: “Foram encontrados indícios de impacto positivo do programa de incentivo de professores apenas nas notas do quinto ano do ensino fundamental em 2009, de 6,3 pontos na escala Saeb em Matemática e de 2,6 pontos em Língua Portuguesa”. Nos anos seguintes, o estudo não identificou melhorias significativas.

O caso do Rio de Janeiro foi analisado pelo pesquisador Thiago de Lucena Coelho, na monografia Bônus por Desempenho de Professores: Análise da Experiência Carioca. “Encontramos um impacto significativo, mas de pequena magnitude, para as notas de português do nono ano”, ele afirma em seu trabalho. Por sua vez, a experiência de Pernambuco foi alvo de um estudo da economista do Banco Mundial Barbara Bruns. Ela identificou uma melhoria rápida no desempenho, logo nos primeiros dois anos de implementação do programa estadual, em 2008.

“Condições difíceis”

Para Andrea Ramal, a desvantagem da meritocracia entre professores traz um prejuízo. “Os processos baseados na meritocracia, na maioria das vezes, desconsideram as desigualdades”, aponta a professora. “Formalmente somos todos iguais, perante a lei, mas na prática, não é bem assim, nem todos deram a sorte de nascer em contextos favorecidos. Então guiar-se exclusivamente pelo mérito pode acabar sendo altamente injusto. A meritocracia pode acabar funcionando como desmotivadora quando professores percebem que, no final, os primeiros lugares, os premiados, são quase sempre os mesmos, a não ser que haja, ao mesmo tempo, condições oferecidas para que todos possam ficar de fato em condições de igualdade”.

Em artigo para a Gazeta do Povo, o professor de história, psicólogo e mestre em psicologia Fabricio Maoski argumenta que, em algumas áreas, como a educação e a saúde pública, não podem se organizar em torno do mérito dos profissionais. “A maioria dos professores dá aula em condições difíceis, com alunos em situação de risco e sem materiais pedagógicos básicos para dar uma boa aula. Eu concordo que alguns professores estão realmente na profissão errada e fazem um trabalho ruim – o que ocorre em todas as profissões –, mas generalizar como se todos os professores fossem profissionais de segunda categoria é injusto”, ele afirma.

Por outro lado, não faz sentido que os professores não respondam como profissionais. “Em muitos países alguns sindicatos de professores resistem à noção de diferenciar o pagamento entre duas pessoas por aquilo que eles argumentam que é o mesmo trabalho. Mas sabemos que nem todos os professores são iguais”, afirmou, em entrevista à Gazeta, Emiliana Vegas, chefe da Divisão de Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). “Ainda que tenham formalmente as mesmas funções, todos tivemos mestres extraordinários e outros de nível regular. Como em outras profissões, o ideal seria poder premiar os professores extraordinários”.

Em contrapartida, o cientista político Marcos Paulo Rossetti Candeloro, também em artigo para a Gazeta do Povo, lembra que, na medida em que os métodos tradicionais de avaliação passaram a ser questionados, e a reprovação deu lugar à progressão continuada, o desempenho educacional despencou. “Tamanha a preocupação pedagógica com a formação cidadã, que a alfabetização e desenvolvimento cognitivo ficaram em segundo plano: cerca de 62% da população brasileira é incapaz de interpretar corretamente textos simples ou projeções gráficas. Apenas 7,3% atingem níveis satisfatórios na execução de operações matemáticas.”

“Vitimismo e ressentimento”

Esses números indicam que a falta de meritocracia, ao invés de reduzir diferenças de classe, as aumenta, diz Candeloro: “O combate teórico às desigualdades sociais resultou, em sua prática do ensino público, em sua perpetuação e aprofundamento. Não obstante, tais práticas gestaram coletivamente comportamentos como comodismo, vitimismo e ressentimento classista. Ao invés de estímulos voltados à superação de adversidades sociais-meritocráticas, o discente é condicionado a reclamar direitos (progressão continuada, auxílios financeiros, cotas raciais etc.) legitimados, segundo a lógica da argumentação, pela culpa coletiva frente à marginalização de sua minoria ou classe”.

Aliás, quando o assunto é reprovação, uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas e Estudos em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) indica que os docentes em geral discordam da medida: 48,78% não concordam que a reprovação é necessária para manter os níveis de exigência próprios de cada turma e 48,96% acreditam que a reprovação afeta a autoestima do aluno. Por outro lado, a maioria é a favor do uso de provas como método de avaliação: 79,72% concordam que elas permitem que se saiba se o professor pode avançar na matéria ou se deve retomar determinados conceitos ou exercícios.

“Há poucas coisas que tragam maior satisfação a um indivíduo do que o reconhecimento de trabalho bem feito”, afirma o professor de filosofia Dennys Xavier. “Os sistemas que funcionam dizem: avancem, lutem, quebrem limites. Que os melhores sejam celebrados e que nos alimentem com seus frutos. Uma criança deve ser ensinada a se orgulhar de suas conquistas, pequenas ou grandes”.

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