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| Foto: Brunno Covello/Gazeta do Povo

Entrevista

Sem pressionar, pais devem dar perspectivas

Brady Norvall, consultor educacional norte-americano

O consultor educacional norte-americano Brady Norvall trabalha com pais que querem ver os filhos ingressarem nas melhores universidades dos Estados Unidos. Ele esteve em São Paulo (SP), em março, para participar do Global Access Through Education, evento sobre experiências de estudo no exterior. Para ele, o excesso de direcionamento dos pais é o pior obstáculo ao escolher o curso. Confira trechos da entrevista concedida à Gazeta do Povo.

Quando os pais pretendem enviar os filhos para o exterior, uma dúvida comum é o curso no qual investir. Que critérios você sugere às famílias?

Essa é uma das razões pelas quais eu amo as universidades norte-americanas. Você não tem de entrar na universidade com uma decisão já tomada sobre que carreira seguir. Pode escolher com mais fundamento depois de estar lá dentro. Sobre o critério, eu gostaria de citar aquele que não é adequado, que seria o uso da experiência profissional dos pais como parâmetro. Isso é sempre ruim ao aluno porque todas as profissões mudam com o tempo.

Outro erro é tomar o desempenho de um aluno na educação básica como determinante para a definição de uma carreira. A vida profissional exige habilidades distintas do mero conhecimento escolar. Uma criança pode ir bem em Língua Portuguesa, mas não se realizar como jornalista ou escritor.

Então você acha que pais não devem influenciar na escolha?

Os pais devem ampliar as perspectivas e não serem lembretes constantes da concorrência que existe no mundo. Eles precisam lembrar-se sempre de que são as pessoas mais importantes na vida de seus filhos. Ainda que os adolescentes raramente admitam isso, tudo que seus pais dizem os influencia enormemente e esse poder é mais bem usado quando os ajuda a ver possibilidades, a prever o que eles podem encontrar em um caminho ou outro. É muito difícil para um adolescente decidir a profissão que terá pelo resto da vida e é danoso para o filho quando os pais decidem o futuro dele com base apenas nas aptidões que ele demonstrou até o momento.

Você é um defensor convicto de que as universidades norte-americanas são melhores do que as europeias no acolhimento de estrangeiros. Por quê?

Não diria que elas são melhores em tudo, mas elas oferecem melhor suporte para que os estudantes contem com o que precisam para estudar. Na prática, os universitários jamais precisam sair do câmpus. Eles têm alimentação, serviços de saúde, entretenimento, residência, enfim, os câmpus são pensados para que o estudante não precise se deslocar muito para encontrar os serviços de que precisa. As universidades europeias são ótimas, mas qualquer problema extra-acadêmico não será resolvido com tanta facilidade quanto nas universidades norte-americanas, pois os serviços de apoio não são tão comuns.

O jornalista viajou a convite da STB.

  • Brady Norvall, consultor educacional norte-americano

Ver os filhos estudando em alguma das melhores instituições de ensino do mundo pode parecer um projeto para poucos, mas as possibilidades aumentam quando os pais traçam estratégias com antecedência. Quem sonha em ver os pequenos em Harvard, Stanford e similares deve ter em mente que a conquista de uma vaga nessas universidades não depende da aprovação em uma prova, mas é fruto de anos de dedicação que devem resultar em fluência no inglês, notas excelentes e vasta experiência em atividades extraclasse.

Especialistas em aconselhamento de carreira são unânimes em dizer que o primeiro passo para viabilizar o ingresso de um candidato nas grandes instituições de ensino norte-americanas é o domínio da língua inglesa, que deve ser obtido o quanto antes. Segundo Renata Santana, gerente de universidades da agência de intercâmbios Student Travel Bureau (STB), a experiência mostra que aqueles que estudam em cursos específicos de idiomas, além do inglês ensinado nas escolas regulares, adquirem proficiência com mais rapidez.

Casos de sucesso também fortalecem a tese de que um tempo de vivência internacional, na infância ou na adolescência, costuma dar vantagens ao candidato. "Há programas de férias no exterior desde os 10 anos de idade e, em muitos deles, os estudantes fazem atividades dentro de câmpus universitários", diz Renata. Para ela, além de testar o domínio do idioma, a experiência prévia funciona como treino das próprias emoções. Esse investimento ajudaria a evitar possíveis desistências por parte de quem consegue a vaga, mas é incapaz de conviver com as novas responsabilidades do cotidiano.

Embora exista uma espécie de vestibular nacional nos Estados Unidos – o Scholastic Assessment Test (SAT) –, a nota obtida nessa prova não chega a ser o elemento decisivo para que um candidato seja aceito em uma grande universidade. Diferentemente do que ocorre no Brasil, toda a vida escolar do estudante é levada em consideração, especialmente os anos no ensino médio.

Vanessa Benassi, responsável por aconselhamento educacional do Colégio Internacional de Curitiba, lembra que o rigor na exigência de notas altas varia conforme o renome da instituição. "Para entrar em Harvard, por exemplo, você precisa de notas excepcionais durante todo o ensino médio, mas há outras em que um desempenho apenas bom garante vaga, embora dificulte bastante a obtenção de qualquer tipo de bolsa." Vanessa explica que alunos com desempenho de excelência têm grandes chances de obter auxílio financeiro por parte da própria universidade. Quem não consegue bolsa tem de arcar com os custos do estudo, que variam de US$ 25 mil a US$ 65 mil por ano.

Planejamento

Voluntariado, esportes e habilidades artísticas contam pontos

As grandes universidades norte-americanas valorizam candidatos com formação humanística integral. Portanto, boas notas e inglês fluente podem ser fundamentais, mas quem toca instrumentos musicais, é bom atleta e tem envolvimento com ações de caridade dispõe de um diferencial decisivo. "Esse é um ponto bastante diferente em relação àquilo que temos por aqui porque atividades extracurriculares não são tão valorizadas no ensino superior brasileiro. Lá, essas características sinalizam que o candidato é proativo", diz Vanessa Benassi. Ela explica que as instituições querem formar líderes, não apenas bons profissionais. Por isso, desde o ensino médio, os alunos são estimulados a se envolverem com diversas atividades. Aos pais brasileiros, Vanessa recomenda que o estudante nunca se limite a ter apenas a escola como atividade regular. "As famílias devem providenciar que seus filhos pratiquem esportes, façam aulas de música e frequentem ações de voluntariado." A princípio, as universidades não exigem comprovantes dessas atividades, mas as experiências devem ser detalhadas nas applications.

Sacrifício que faz diferença

Quando os filhos de Tim e Elaine Kenny (foto) chegaram à idade de ingressar no ensino superior, a família ficou dividida. Elaine preferia que ficassem no Brasil, perto dos pais, mas Tim, que é norte-americano, defendia que fazer faculdade nos Estados Unidos seria uma vivência única. Hoje, Phillipe, 20 anos, estuda Sustentabilidade na Universidade de Ohio e Jéssica, 18 anos, está na Universidade Brown, onde ainda não decidiu o curso. Phillipe se candidatou em 14 universidades e Jéssica, em 12. Quando a saudade aperta, a tecnologia é o remédio. "A gente conversa por Skype pelo menos duas vezes por semana", conta Tim.

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