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Análise

Presidente quer reduzir investimentos em faculdades de filosofia e sociologia. Faz sentido?

  • PorTiago Cordeiro, especial para a Gazeta do Povo
  • 26/04/2019 18:53
A imagem mostra o presidente da República Jair Bolsonaro em reunião com o ministro da Educação Abraham Weintraub.
O presidente da República, Jair Bolsonaro durante Reunião com Abraham Weintraub, Ministro de Estado da Educação. Foto: Marcos Corrêa | PR.| Foto:

Na manhã desta sexta-feira, Jair Bolsonaro postou em sua conta no Twitter a seguinte informação: “o Ministro da Educação Abraham Weintraub estuda descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia (humanas). Alunos já matriculados não serão afetados. O objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina.”

O presidente prosseguiu: “A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta.”

Segundo dados do Censo da Educação Superior, o governo brasileiro fornece mais vagas em cursos de graduação em filosofia e sociologia do que a iniciativa privada. No caso de cursos como veterinária, medicina e engenharia existem mais vagas nas instituições particulares (confira os detalhes no quadro). O público atingido é muito diferente: no Brasil, atualmente, nas instituições públicas e privadas, estão matriculados em filosofia e sociologia 9.976 alunos, contra 93.964 matrículas em veterinária, 149.655 em medicina 1.225.243 nas engenharias.

Ideia não é inédita no Brasil

A proposta de reduzir o investimento em cursos de ciências humanas não chega a ser inédita, mas nunca foi colocada em prática no Brasil. Existiu uma ideia legislativa semelhante, apresentada em 2018, que pretendia eliminar todos os cursos de ciências humanas das universidades públicas. Mas ela não alcançou o número suficiente de assinaturas dentro do prazo. A proposta, no caso, previa que esses cursos fossem fornecidos exclusivamente por instituições particulares.

Já o Japão tentou, a partir de 2015, reduzir os cursos de graduação em ciências humanas. O resultado foi limitado. Até mesmo a Federação das Indústrias do Japão criticou a proposta: “estudantes universitários devem adquirir um entendimento especializado no seu campo de conhecimento e, de forma igualmente importante, cultivar um entendimento da diversidade social e cultural através de aprendizados e experiências de diferentes tipos”.

A reforma perdeu força após o então ministro da Educação, Hakubun Shimomura, renunciar ao cargo no final de 2015. Ainda assim, em 2017, pelo menos 17 universidades aboliram os processos seletivos de alunos para os cursos de ciências humanas e sociais.

Pensamento sistêmico

“É legítimo um governo eleger prioridades quando se concedem bolsas ou empréstimos subsidiados para diferentes áreas”, diz Claudia Costin, professora convidada da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard e diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (CEIPE) da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ). Mas essa escolha, diz ela, pode ter consequências graves para a formação dos profissionais que o mercado de trabalho vai exigir no futuro.

“Estamos vivendo a quarta revolução industrial. O que vai acontecer a médio prazo é que a inteligência artificial vai substituir também trabalho intelectual” diz ela. “O que diferencia nós, humanos, é justamente nossa capacidade de pensar, de ter pensamento abstrato mais profundo, pensamento sistêmico. A filosofia nunca foi tão urgente quanto nos tempos de hoje”.

Já a sociologia, diz a professora, é importante para entender a nova sociedade que está emergindo. “Gostaria de lembrar que, nos tempos de Josef Stalin, era proibido estudar sociologia na União Soviética”, afirma. “Filosofia e sociologia são duas disciplinas que vão fornecer a capacidade de pensamento sistêmico, tão importante no século 21.

Aparelhamento e instituições ineficientes

Por sua vez, Amilcar Baiardi, professor aposentado da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), lembra que a crítica do presidente se manifesta num contexto mais amplo, o de questionamento da falta de eficiência das instituições públicas de ensino superior. “O sistema formado pelas instituições federais de ensino superior está superdimensionado. Existe uma grande evasão de alunos e muita ociosidade de professores”, diz ele, que é engenheiro agrônomo com pós-doutorado em história das ciências.

“Esses dois cursos foram citados como exemplos, mas na realidade há uma preocupação muito mais ampla, na linha de buscar mais eficiência do sistema. E a busca por eficiência passa pela redução do impacto de cursos que não preparam as pessoas para a vida”. Para o professor, os cursos de ciências humanas perderam a relevância na medida em que não tratam da criação de um cenário de desenvolvimento e de competitividade.

“As ciências humanas são responsáveis pela competitividade sistêmica, aquela que decorre de uma mentalidade geral, um inconsciente coletivo nacional que ajuda o país a ser competitivo”, ele afirma. “Mas, ao contrário, as ciências humanas no Brasil estão afastadas das questões de inovação e focadas demais em pesquisas de gênero, de luta de classe e de etnia, sem apresentar soluções para tais problemas”.

Outros professores de humanas também se pronunciaram a favor da decisão do presidente da República, apontando "aparelhamento ideológico". "Conheço de primeira mão esse universo. Há décadas os cursos nas Humanas são aparelhados ideologicamente (pelos partidos de esquerda, do PT ao PSTU, do PcdoB ao PSOL). A cada ano o nível abaixa. Alunos são formados sem ler um livro sequer", escreveu o professor Ricardo da Costa, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e do doutorado a distância na Universidade de Alicante, em uma rede social.

"Quanto ao assédio moral (de estudantes e de professores), não preciso dizer nada: há centenas de depoimentos e gravações. Ademais, muitos dos centros de Humanas nas federais estão em estado precaríssimo! Como todo administrador público é responsável pela proteção e conservação do patrimônio, os reitores deveriam ser chamados a cumprir a Lei. Por isso, afirmo sem pestanejar: a decisão governamental de, nesse momento, diminuir o apoio financeiro às Humanas é certíssima", acrescentou.

Leia também: Perseguidos, professores de direita contam suas histórias

Já para Renato Janine Ribeiro, que foi ministro da educação do governo do PT entre 2015 e 2017, o MEC deveria começar por fechar cursos ruins. "Agora, há uma legislação que torna muito difícil fechar um curso de graduação de má qualidade", aponta, por outro lado. De qualquer forma, para ele é um equívoco reduzir recursos dos cursos de humanas.

“O presidente se equivoca porque o retorno para a sociedade não é dado apenas por cursos de uma determinada linha em detrimento de outra. O retorno está em bons cursos, em veterinária, engenharia e medicina, mas também em filosofia e sociologia", diz Janine. "Além disso, o retorno para a sociedade não é imediato. Ele vem quando você estabelece um conhecimento da sociedade. Para cuidar de uma pessoa doente, tem que ser médico. E para governar uma sociedade, existe uma ciência, a sociologia."

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