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A imagem mostra o presidente Jair Bolsonaro.
O presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Marcos Corrêa | PR| Foto:

Educação sexual, eis um tema que só de ouvir falar gera espanto em muita gente. No Brasil, há muito tempo se discute qual é a melhor forma de tratar o tópico dentro das escolas. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) já deixou clara sua opinião sobre o assunto, quando afirmou, durante o período de eleições, que “quem ensina sexo para a criança é o papai e a mamãe”. Pesquisa realizada no começo deste ano, pelo Datafolha, revela que 54% dos brasileiros são favoráveis à educação sexual nas escolas. Ainda não há diretrizes concretas, no entanto, sobre como o governo irá lidar com a questão.

Especialistas no assunto concordam, de modo geral, que o tema deve, sim, começar a ser abordado em casa, da maneira como parecer conveniente aos pais e de acordo com valores que a família tem. Eles, a princípio, conhecem o estilo, maturidade, interesse e também a sensibilidade dos filhos em relação ao assunto.

Mas, embora envolva valores morais, é legítimo que a escola aborde o conteúdo, de forma coadjuvante. A instituição, no entanto, deve estar atenta ao seu papel, que é, sobretudo, o de abordar o tópico do ponto de vista biológico/científico, tomando os devidos cuidados e precauções para não ditar normas em termos de comportamento sexual (colocar ideologia de gênero, por exemplo). Às vezes, “uma palavra dita precocemente pode ser nociva”.

“A escola pode ser coadjuvante na educação sexual, já que os alunos passam grande parte do tempo nesse ambiente e, principalmente, quando pais são omissos para tratar do assunto, não se sentem confortáveis ou não há abertura”, defende Lélia de Melo, psicóloga clínica, especialista em Educação Especial, Neuropsicologia e Desenvolvimento Pessoal e Familiar.

“Tenho o exemplo de uma amiga cuja filha está no oitavo ano de uma determinada escola. A professora disse, em sala, que não teria problema se a garota, com 13 anos, quisesse ter relações sexuais, já que tinha os hormônios preparados e não precisaria ter preocupação com gravidez, pois, no outro dia, poderia tomar a pílula do dia seguinte”, conta Lélia. “Os pais foram até a instituição e a professora acabou advertida. A escola não pode atravessar os valores da família, fazer apologia da sua opinião. Isso é invasão de privacidade, intromissão”.

Em mais de 30 anos estudando o tema, Mary Neide Figueiró, psicóloga e doutora em educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), escreveu quatro livros sobre o assunto. Ela também tem um canal no YouTube, chamado “Educação Sexual para Ser Feliz”, onde responde perguntas enviadas por internautas.“Não é papel da escola e dos professores dizer ‘isso é certo ou errado, pode começar a fazer sexo com x anos, é correto transar ou não antes de se casar’. Os professores jamais podem dar diretrizes nesse sentido”, defende ela. “O papel do professor é criar espaço para os alunos conhecerem, do ponto de vista científico, o que é gravidez, como evitar doenças, ajudar os alunos a ter acesso ao conhecimento científico”.

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“Escola e família devem dar as mãos”

Já que escola e família podem tratar do assunto, é importante que haja uma parceria bem fundamentada entre eles. Precisa ter coerência, como diz Lélia, pois “ambos estão educando o mesmo sujeito: o filho e o aluno”. Para a educadora, pais e escola “têm que conversar mais, não só sobre temas acadêmicos, mas formativos e morais, sobre a finalidade de boa educação, de formar cidadãos conscientes, bem preparados”.

Nesse sentido, uma saída rápida e prática, ela propõe, seriam programas de encontros na escola, espécies de palestras de esclarecimento e orientação para que a instituição saiba o que os pais pensam sobre o assunto e o contrário também. “A equipe educadora deve estudar, com seriedade, os temas da vida, e não repassar qualquer coisa, nem falar sobre ideologia, por exemplo. Não pode ser achismo. E é importante, sobretudo, a postura de escuta de ambos. Tudo isso é viável e, educacionalmente, se sai ganhando”, sugere.

Ginecologista e obstetra há mais de 20 anos, Luciana Bedrossian, que atende diariamente mães e filhas que têm dúvidas sobre o assunto, além de dar palestras em escolas, afirma que “as instituições de ensino podem ajudar muito”, mas é realista: “Isso funciona se tiverem estrutura e professores bem formados, e o ideal é difícil de se conseguir”.

“Se a criança não tem abertura em casa, é importante que tenha abertura na escola, com professores disponíveis que possam orientar da forma correta e que estejam atentos às crianças, às necessidades de ter empatia com cada uma”, indica ela. “Dessa forma, ambos se fortalecem e, assim, ela pode passar o que deve aos alunos e ainda ajudar os pais. Além disso, a criança, no meio desses dois, fica muito mais segura, e o efeito da educação se atinge com mais primor”.

Qual a idade certa?

Ainda no jardim de infância, antes mesmo de qualquer ensino direto sobre o corpo humano e a reprodução, há um componente que pode ser adotado pelas escolas: o ensino sobre afetividade. Se trata de ensinar a refletir sobre as próprias emoções, reconhecer traumas e carências, aprender a lidar com elas, e também em relação ao outro, aos benefícios da solidariedade, da empatia, do respeito. Os resultados desse ensino a longo prazo são muito positivos, como explica Luciana. “Para quem pensa que é ‘bobeira’, ou não tem nada a ver com a sexualidade, tem, sim! Quando é ensinada sobre a afetividade, a criança está aprendendo a respeitar que cada um tem um papel importante, que não é ‘eu quero, do jeito que eu quero e o outro me serve’”, afirma.

“Quando a criança assume seus erros na infância, é muito mais fácil, depois, abordar esse assunto. É igual aprender a dançar, a andar de bicicleta. Precisa de treinamento, e os treinamentos das virtudes precisam acontecer desde que a criança é pequena. Fortaleza, ser forte perante as dificuldades da vida, cumprir as tarefas, ser autônomo. Tudo isso parece bobeira, mas tem tudo a ver com a sexualidade”, exemplifica a doutora.

"Professora, de onde vem os bebês?"

À medida que o aluno se desenvolve, surgem as dúvidas e questionamentos como “de onde vem os bebês?” ou “o que é namorar?”. Nesse momento, a escola não deve esquecer de abordar o conteúdo especialmente do ponto de vista biológico e científico.“O biológico, a reprodução humana e o corpo são componentes curriculares importantes, e toda escola deve transmitir”, comenta Lélia.

“Partes do corpo humano, por exemplo, geralmente começam a ser ensinadas a partir do 5º ano do ensino fundamental. O tema volta a ser abordado de maneira mais detalhada pelos professores quando os alunos têm 13 anos”, continua.

“Precisamos ajudá-los a compreender de onde vem os bebês, é uma verdade pura, simples, natural. O adulto é que tem uma visão ‘preconceituosa’. Existem formas acessíveis, gradativas e verdadeiras de explicar, sem ludibriá-los ou ficar dando voltas para que não entendam”, explica Mary Neide, e brinca: “Mas sempre dizendo: ‘isso é coisa de gente grande’, porque, de uma relação sexual, pode nascer um bebê”.

Para Luciana, que já atendeu muitas adolescentes que iniciaram a vida sexual precocemente, “é importante que se pincele, aos poucos, questões sobre sexualidade. Não dá para jogar tudo para quem não tem maturidade para entender” diz ela, e salienta:

“Às vezes, uma informação a mais pode ser nociva. O correto seria expor quando eles demonstram interesse pelo assunto. Ir comentando e orientando à medida que questionam. Às vezes, a criança pergunta alguma coisa simples, mas a gente é que pensa lá na frente. Temos que responder exatamente sobre aquilo que é questionado”.

Para Lélia, outra boa metodologia a ser adotada é o ensino personalizado, ou seja, aulas sobre o assunto separadas para meninos e meninas. Durante a abordagem desse tema, é comum que alguns tenham vergonha ou façam piadas. “Desse jeito, é mais fácil, prático e íntimo. Dá para entrar em uma certa intimidade, os alunos têm mais conforto para tratar o tema com o professor, se sentem mais à vontade, questionam e aprendem mais. De forma heterogênea, certamente alguém vai ter mais pudor e não vai perguntar”, afirma ela.

Denúncia de abuso sexual

Em março deste ano, o caso de uma menina de 9 anos que mora em Ponta Grossa, no Paraná, chamou a atenção. Após uma aula sobre educação e violência sexual, mediada pela Polícia Militar do estado, através do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), a garota levou até a escola fotografias do avô, de 67 anos, para denunciá-lo por abuso sexual. A delegada que investigou o caso disse, na época, ao portal G1, que “existe muita criança que só entende o que é o abuso sexual a partir de uma explicação na sala de aula, com orientação sexual responsável, assim como faz o Proerd”.

“Educação sexual também é importante para ajudar a criança na prevenção ao abuso sexual. Ela precisa entender que deve proteger seu corpo e não pode deixar outra pessoa tocá-lo”, afirma Mary Neide.

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Cultura de banalização do sexo

De acordo com o que ouve de adolescentes em sua clínica, Luciana chegou à conclusão de que “o sexo se tornou algo banalizado, é como tirar a camisa, tomar um sorvete. Apenas uma atividade a mais na vida”. Para ela, “a escola deveria mudar essa visão, valorizar a vida e não tratá-la dentro de uma perspectiva negativa, pois a banalização do sexo pode gerar consequências físicas e emocionais entre os adolescentes”.

“Essa banalização faz com que as pessoas sejam descartáveis e, sempre que a gente atropela a biologia, há sofrimento. Um adolescente, quase sempre, não está preparado para vínculos estáveis, não está maduro. Há bastante curiosidade sobre o sexo e muitos querem provar porque é ‘moda’, ser virgem não é legal. Dessa forma, ele tende a ter várias relações sexuais, e isso não deveria se dar de forma animal”, continua.

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