
A infância já não é mais a mesma, dizem os pais de hoje. As brincadeiras de criança deixaram as ruas e tabuleiros e passaram a ser feitas diante das telas. A tevê ocupa, em média, quase cinco horas diárias dos pequenos, o que suscita questionamentos sobre sua influência na educação infantil.
Mas seria a tevê um grande mal para eles, substituindo a educação pelo entretenimento e semeando a violência? Segundo especialistas, isso depende da relação que a criança estabelece com o aparelho, responsabilidade exclusiva de pais e educadores.
"As crianças sempre assistiram tevê. A diferença é que agora existe programação e publicidade direcionadas a elas, inclusive para bebês. Por isso pais e educadores devem saber como lidar com isso", afirma a jornalista Bia Rosenberg, autora do livro A TV que seu filho vê, que traz pesquisas sobre o impacto do veículo na educação das crianças. "A tevê encontrou um nicho consumidor e ocupa muito tempo da vida dele. Nesse sentido é super importante na sua educação e, inclusive, na construção do seu imaginário", diz ela.
Apesar das críticas à programação, pela influência na violência e no consumo, especialistas ressaltam o lado positivo da tevê na infância. "Qualquer atividade que a criança realize, que a ajude na integração com o mundo e estimule o crescimento pessoal, é positiva", pondera o professor Claúdio Márcio Magalhães, do Centro Universitário Una, em Belo Horizonte, que pesquisa a recepção da tevê entre as crianças há mais de cinco anos.
Ele explica que os adultos "demonizam" os desenhos animados por pensar a tevê do ponto de vista adulto e não infantil. "Muitos acham que desenhos só servem para vender e são saudosistas de algo que não viveram. Quer algo com mais violência gratuita do que o Tom e Jerry, que tanto assistíamos? Nem por isso crescemos e nos tornamos uma geração de homicidas", cita Magalhães.
Referências da vida real
O pesquisador afirma que até os atuais e muito populares desenhos japoneses, com batalhas e confrontos mortais, podem ser educativos. "Existe história, os personagens não são bons ou maus, eles são ora uma coisa, ora outra, como na vida real. Além disso, trabalham com elementos que levam a criança a identificar a diversidade e a si mesma, quando ela se reconhece em personagens que gostam mais", afirma.
Se a exposição à tevê não é um problema, é unânime entre os pesquisadores consultados que o excesso dela é prejudicial. Para o psicólogo escolar Bruno Mazetto, que acompanha e orienta crianças em instituições de ensino de Londrina, toda criança precisa de referências e é de competência dos pais educá-la, sem repassar esta responsabilidade para a televisão. "Se você abandona a criança na frente do aparelho, como uma espécie de babá eletrônica, é esperado que ela assuma o que vê como algo mais real, pois ela se relaciona mais com o equipamento do que com indivíduos. A tevê não hipnotiza as crianças, somos nós que construímos ou incentivamos este tipo de relação", alerta.



