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Uma passada de olhos nas principais notícias sobre violência estampadas nas capas dos principais portais de notícias do país em qualquer dia deste ano revela um cenário desolador. As principais chamadas sobre o tema em uma terça-feira do final do mês de abril — a pouco mais de cinco meses da realização do primeiro turno das eleições 2026 — contemplam destaques como:
- "PF mira servidores da Receita por fraude de R$ 86 bilhões em importações"
- "Operação da polícia que deixou 122 mortos no Rio completa seis meses sem avanços"
- "Imagens de câmera em farda mostram que PMs monitoraram e mataram empresário no RJ"
- "PCC cobra Rota por testemunha protegida e segura parcela de R$ 500 mil em propina de R$ 5 milhões"
- "Membro do PCC que delatou elo com PM-SP revelou plano para matar Moro".
Dia sim, outro também, o brasileiro tem sido obrigado a se acostumar com o horror quando o assunto é violência e segurança pública. É tanta notícia ruim que fica difícil de acompanhar, fácil de desanimar e não ver alguma luz no final do túnel.
Afinal, levantamento sigiloso da Diretoria de Inteligência Penitenciária (Dipen) da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) do Ministério da Justiça e Segurança Pública, do final de 2024, revela um panorama detalhado e assustador da criminalidade do Brasil. Foi mapeada a existência de pelo menos 88 grupos criminosos que podem ser consideradas facções criminosas nos moldes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), as maiores do país.
Chama a atenção que todas as 27 unidades da federação, incluindo o Distrito Federal, possuem a atuação de alguma facção criminosa, conforme mostra o mapa das facções da Gazeta da Povo. Facções criminosas e milícias aumentaram sua presença e alcançaram a vizinhança de nada menos que 19% da população, aponta a pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Luz no fim do túnel?
Apesar desse panorama, alguns exemplos estaduais e iniciativas dos órgãos de controle e segurança pública têm sido bem-sucedidos no combate às facções criminosas e à violência de forma geral. Em meio a tanto horror, foram aplicados recentemente alguns golpes duros e importantes no crime organizado brasileiro, que podem apontar um caminho para sair desse atoleiro.
As respostas com êxito até agora incluem valorização da carreira de policial, integração das forças de segurança com a Polícia Federal e os Ministérios Públicos estaduais e federal e, principalmente, medidas concretas de asfixia financeira das organizações e facções criminosas.
Investigações do Gaeco do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Federal, como as operações Carbono Oculto e Soldi Sporchi, revelaram que facções criminosas como o PCC utilizam o setor de combustíveis para lavar dinheiro e maximizar os lucros com adulterações e fraudes fiscais.
Diversas distribuidoras e centenas de postos foram lacrados ou estão na mira de polícia e MP. As investigações revelaram que o capital oriundo do tráfico de drogas financiava a compra de grandes volumes de combustível, que eram vendidos abaixo do preço de custo graças a esquemas de sonegação de ICMS e adulteração com o uso de metanol.
Com a intensificação das megaoperações entre agosto de 2025 e o início de 2026, o cenário mudou. Em São Paulo, as fatias de mercado que estavam pulverizadas em distribuidoras de fachada começaram a retornar para as grandes empresas tradicionais do setor. No estado paulista, cinco das dez primeiras colocadas praticamente desapareceram após as megaoperações policiais contra empresas suspeitas de fraudes no setor no ano passado.
Na Carbono Oculto foram cumpridos mandados prisão e busca e apreensão contra cerca de 350 alvos, incluindo gestoras de fundos de investimentos, o que revelou a extensão da infiltração do crime organizado no mercado financeiro. Conforme o Ministério Público, o PCC está associado a uma rede de organizações criminosas de modo a assegurar a efetividade das atividades econômicas ilícitas, por meio da sua inserção na economia formal, como é o setor de combustível e o sistema financeiro.
Apenas na Carbono Oculto, mais de R$ 1 bilhão dos suspeitos de integrar o esquema foram bloqueados pela Justiça — o valor total envolvido na lavagem de dinheiro e sonegação fiscal do PCC no caso pode passar dos R$ 50 bilhões. Em janeiro, o Banco Central anunciou a liquidação da Reag Investimentos. A instituição foi um dos principais alvos desta operação.
Atacar financeiramente as facções criminosas é peça-chave para a segurança pública
"O sufocamento financeiro das organizações criminosas é a mais importante ferramenta”, afirma o advogado Evandro Capano à Gazeta do Povo, ao comentar as recentes megaoperações contra o crime organizado. "Neste cenário, o aprimoramento dos instrumentos de auditoria e de saneamento do mercado financeiro é a pedra de toque”, avalia o professor de Direito Penal e especialista em políticas de segurança pública.
Capano salienta que o Conselho Monetário Nacional (CMN) editou a resolução 5.621/25 no ano passado, o que proibiu contas de pagamento — as chamadas "contas bolsão". Ele acredita que este foi um passo na direção de saneamento e descontaminação do mercado financeiro, já que se tratava do principal recurso para esconder o dono e a origem do dinheiro depositado.
Nas "contas bolsão", as fintechs e empresas do mercado financeiro em geral podiam depositar efetivamente o recurso de vários ou todos clientes em uma única conta. O que era de quem era conhecido apenas pela gestora dos recursos.
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Estados mais tranquilos
Afora grandes operações e medidas de correção estruturais como nos exemplos acima, dentro da realidade violenta brasileira, alguns lugares são menos inseguros do que outros e podem ter boas iniciativas para passar adiante, principalmente no que diz respeito ao dia-a-dia e sensação de insegurança nas ruas dos grandes centros urbanos.
Santa Catarina desponta no ranking nacional da segurança pública. O estado registra 9 homicídios para cada 100 mil habitantes, enquanto São Paulo, em segundo lugar no ranking, registra 11,2 por 100 mil habitantes — os números são do Atlas da Violência 2025, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública — a edição de 2026 ainda não veio a público.
Os dados do atlas são baseados em informações oficiais do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ambos mantidos pelo Ministério da Saúde. Nos últimos cinco anos até 2024, Santa Catarina alcançou um índice de resolução dos crimes de homicídio de 77,17% em média, uma taxa comparável a países de primeiro mundo. No Brasil, a média foi de 39% em 2022, segundo os dados mais recentes do Instituto Sou da Paz.
Outro estado que possui bons números para mostrar, na contramão da maioria do restante do país, é Goiás. O estado registra queda consistente ano após ano nos índices de criminalidade, com média de 11,27 homicídios por 100 mil habitantes em 2025, abaixo da média nacional.
O estado destacou-se pela alta taxa de resolução de crimes (92%) e redução em roubos de veículos (22%), comércios (34%) e residências (15%) no período. Contudo, desafios persistem, como a violência doméstica.
A violência no estado registrou queda de até 97,6% entre os anos de 2018 e 2024, conforme balanço da Secretaria de Segurança Pública de Goiás. No caso do roubo de cargas, o número caiu de 248 casos no primeiro semestre de 2018 para 6 no mesmo período do ano retrasado. Mais da metade dos municípios goianos, 128 no total, não registrou nenhum assassinato em 2024.
Em ambos os exemplos, valorização da carreira de policial e investimento na polícia como um todo são algo em comum. O governo de Goiás, por exemplo, afirma que investiu, entre 2019 e 2024, R$ 17 bilhões na área da segurança.
O salário inicial para um soldado da Polícia Militar de Goiás era de R$ 7.452,68 em 2025. Na média, as remunerações dos PMs do estado chegam à casa dos R$ 13 mil por mês. Na Polícia Civil, os salários iniciais partem de R$ 6.865,56 por mês.
O especialista Evandro Capano ressalta ainda que nos últimos anos a legislação brasileira vem sendo aparelhada cada vez mais para tentar dar conta do combate às organizações criminosas. "Neste cenário, a lei 15.358/26 inaugurou no Brasil o conceito de 'domínio social estruturado', ou seja, a classificação que antes era interna, agora, foi positivada em lei”, afirma ele sobre a recente aprovação no Congresso Nacional do PL Antifacção, como ficou conhecida a nova lei.











