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Neutralidade

Centrão troca disputa pela Presidência por bilhões em cadeiras no Congresso

Partidos do Centrão evitam a disputa pela Presidência e miram bilhões em cadeiras no Congresso nas eleições de 2026.
O senador e presidente do Progressistas, Ciro Nogueira, é um dos caciques do Centrão que optou pela neutralidade para não comprometer alianças estaduais. (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

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As campanhas das eleições de 2026 mal começaram e já alcançaram um recorde desde a redemocratização: o número de partidos que escolheram não apoiar candidatos de outras legendas à Presidência. Os representantes do Centrão, estrategicamente posicionados, esperam para ver quem vai levar a melhor nas urnas e como podem se beneficiar junto ao vencedor.

Ao todo, são sete os partidos que optaram pela "neutralidade": MDB, PP, União Brasil, Republicanos, Podemos, PSDB e Cidadania. Para entender por que isso é uma ruptura, e não uma repetição de padrão, é preciso olhar para trás.

Do bloco de reação na Constituinte ao ineditismo de 2026

O termo Centrão nasceu na Assembleia Nacional Constituinte, entre 1987 e 1988, como bloco de reação: partidos de centro-direita se uniram para dar sustentação ao então presidente José Sarney e barrar propostas consideradas progressistas na nova Constituição.

Desde então, o bloco — que não corresponde a partidos fixos — nunca havia declarado neutralidade como neste ano. As legendas que o compõem sempre escolheram um lado e, quando o apoio não era generalizado no primeiro turno, as siglas não alinhadas sempre aderiam ao vencedor logo após o pleito. 

"A lógica do Centrão é seguir mandando no Parlamento, quem quer que ganhe as eleições", diz Eduardo Grin, professor e cientista político da FGV.

Foi assim entre 2002 e 2014, quando predominou o alinhamento com os primeiros mandatos do PT, com Lula na Presidência; a partir de 2010, com o PMDB (hoje MDB) como principal aliado, já que Michel Temer era vice de Dilma Rousseff (PT).

Da mesma forma, ocorreu no pós-impeachment: o Centrão apoiou o governo Temer, a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) em 2018 e, com a derrota do tucano, migrou para Jair Bolsonaro (PL).

Em 2022, a fragmentação foi maior. Com a filiação de Jair Bolsonaro ao PL, a sigla passou a ser a situação. PP e Republicanos se somaram ao núcleo da campanha para a reeleição do presidente, enquanto MDB, PSD e União Brasil migraram para o governo Lula (PT) logo após o resultado, integrando ministérios.

Esse histórico faz com que a neutralidade coletiva assumida nas eleições de 2026 seja inédita na trajetória do Centrão. Chama atenção, inclusive, a mudança de posição do PP, que integrou a oposição ao governo Lula desde 2022 e hoje opta por não se vincular a nenhum candidato.

Centrão desloca força política para a disputa parlamentar

Por trás da neutralidade está um cálculo sobretudo financeiro: sair de cima do muro poderia custar caro às campanhas. Essa foi a conta feita pelas lideranças do Centrão e que levou à realocação de suas forças políticas para a disputa parlamentar.

Somando os R$ 40,2 milhões que cada deputado tem em emendas individuais anuais aos recursos do fundo partidário e do fundo eleitoral, uma cadeira na Câmara pode dispor de cerca de R$ 182,5 milhões ao longo de quatro anos — mais do que a maioria das campanhas presidenciais.

O PL, por exemplo, que tem a maior bancada da Câmara, tem a pretensão de eleger 100 deputados em 2026. Se conseguir, o partido vai movimentar sozinho mais de R$ 18 bilhões em quatro anos entre emendas, fundo partidário e fundo eleitoral — só com as cadeiras de deputados.

Novo fundão eleitoral e emendas explicam a nova lógica

Com base nesses cálculos, as eleições de 2026 inauguraram no país uma modalidade em que o poder econômico conquistado pelos partidos no Legislativo fala mais alto que o poder político presidencial.

"Com mais deputados e senadores, o Centrão consegue pressionar qualquer que seja o governo eleito, inclusive garantindo mais recursos de emenda ou mudanças na legislação que os favoreçam", diz Eduardo Grin.

Rafael Cortez, analista político da Tendências, lembra que essa lógica foi reforçada quando o financiamento de campanha virou majoritariamente público. "Isso fez os partidos se orientarem para as eleições legislativas. Hoje, na era das emendas parlamentares, ter um bom desempenho no Legislativo se tornou ainda mais importante", diz Cortez.

Criado em 2017, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) surgiu depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) proibir doações de empresas a campanhas. Desde então, o valor do "fundão" teve um aumento expressivo: em 2018, R$ 1,7 bilhão; em 2020, R$ 2,03 bilhões; em 2022 e 2024, R$ 4,9 bilhões. Em setembro de 2025, a Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso Nacional aprovou novamente o valor em R$ 4,9 bilhões.

Soma-se ao fundo eleitoral, ainda, o fundo partidário, que alcançou R$ 1,4 bilhão de acordo com a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026. Esses recursos são voltados à manutenção dos partidos. Além disso, há as emendas parlamentares, de execução obrigatória desde 2015.

Segundo o livro "O Brasil pode dar certo", elaborado pelo Ranking dos Políticos com apoio da Atlas Network, em 2026 cada deputado federal dispõe de R$ 40,2 milhões em emendas individuais, e cada bancada estadual, de R$ 415 milhões. A conta ultrapassa R$ 32 bilhões.

Esse valor é equivalente a cerca de 12,5% do orçamento discricionário, os gastos não obrigatórios da União, estimado em R$ 256,4 bilhões em 2026. Em países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), segundo o mesmo levantamento, instrumentos equivalentes não passam de 1% dessas despesas.

Flávio Bolsonaro é quem mais perde com neutralidade do Centrão

Para Grin, na prática, a estratégia de neutralidade coletiva acaba beneficiando Lula (PT), ainda que esse não seja o objetivo declarado dos partidos. A leitura é a de que a ausência de aliados reforça a percepção de fragilidade em torno de Flávio Bolsonaro (PL), reduzindo inclusive o tempo de TV a que a candidatura teria direito caso tivesse aliados formais.

Na visão do cientista político, três fatores pesaram na decisão do Centrão. O primeiro foi o próprio desempenho de Flávio Bolsonaro nas sondagens recentes de intenções de voto, que, segundo Grin, "derreteu muito rapidamente".

Há, ainda, a cautela dos partidos em relação aos riscos jurídicos ligados à campanha do filho do ex-presidente. O  pedido de Flávio ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro é um exemplo do que é considerado nesse cálculo. "O Centrão tem um olfato muito apurado sobre coisas que podem lhe render custos e perdas", diz Grin.

O terceiro fator é estrutural: PP, União Brasil e Republicanos têm bancadas divididas regionalmente, com Norte e Nordeste mais próximos de Lula e Sul e Sudeste mais alinhados à família Bolsonaro.

Isso torna quase impossível fechar uma posição nacional unificada, o que leva as legendas a montarem palanques diferentes em cada estado, apoiando Lula em uns e Flávio Bolsonaro em outros, conforme o cálculo eleitoral local.

Na prática, o Centrão optou por priorizar as eleições legislativas justamente porque nelas, e não na disputa presidencial, está o retorno mais previsível.

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