
Ouça este conteúdo
"Eu sou direita raiz, sou direita conservadora. Aquela que faz gestão, que governa, que respeita seus adversários, que não abre mão dos seus ideais." A declaração do pré-candidato ao governo de Santa Catarina, João Rodrigues (PSD-SC), revela muito mais do que a estratégia eleitoral do PSD no estado mais conservador do Brasil. Enquanto a sigla comandada nacionalmente por Gilberto Kassab flerta com a direita em Santa Catarina, no Nordeste, o partido consolida a aliança com Lula (PT) em busca dos votos petistas para vencer as eleições estaduais em outubro.
Com histórico conservador, o ex-prefeito de Chapecó (SC) faz um movimento semelhante do outro lado do tabuleiro ideológico da política brasileira. Considerado um dos principais adversários nas urnas de Jorginho Mello (PL-SC), que disputará a reeleição, Rodrigues procura colar no atual governador o rótulo de "extremista" sem perder o canal de diálogo com eleitorado de direita.
O desafio é capturar os votos dos eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro, apesar do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já ter manifestado apoio público à reeleição do antigo aliado.
Conhecido como um partido "camaleão", o PSD é aliado do PT em cinco estados do Nordeste, sendo que em dois deles a sigla de Kassab irá disputar a reeleição em outubro. Em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri (PSD-SE) terá na chapa pelo segundo mandato o apoio do senador petista Rogério Carvalho, que disputa a reeleição no Congresso. O acordo foi firmado com a participação direta de Lula.
Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD-PE) disputa o apoio petista com o pré-candidato João Campos (PSB-PE), que tem o aval do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP). Os votos da militância do PT são decisivos no estado-natal de Lula, o que leva os principais nomes do pleito a buscarem o apoio do partido e a bênção do presidente da República.
No Rio de Janeiro, o ex-prefeito carioca foi ainda mais longe. Apesar da ligação histórica com Lula, o pré-candidato ao governo fluminense Eduardo Paes (PSD-RJ) chegou a cortejar o PL no ensaio de uma frente partidária para as eleições deste ano. O partido de Bolsonaro recusou o aceno de Paes e definiu a pré-candidatura do deputado estadual Douglas Ruas (PL-RJ).
PSD navega entre os estados sem clareza ideológica nas eleições
Na avaliação da cientista política pernambucana Priscila Lapa, o PSD não tem uma agenda identitária clara e aglutina lideranças das mais variadas posições ideológicas. "O partido se move por questões de cunho pragmático, na expectativa de ampliar sua capacidade de ocupar os espaços de poder, seja com a ampliação de cadeiras no Legislativo, seja na composição com governos", analisa.
A capilaridade política do PSD ocorre pelo alinhamento com a direita nos estados mais conservadores e com a esquerda onde o PT é mais forte. No entanto, Lapa ressalta que esse paradoxo não é uma novidade na política nacional. Ao contrário, é uma marca histórica do Centrão.
"O PSD não destoa da média dos partidos brasileiros. Partidos mais programáticos são a exceção e são vistos, muitas vezes, como radicais, justamente porque têm uma posição ideológica melhor demarcada. Na maior parte das vezes há uma frouxidão programática, com flexibilidade para abarcar lideranças que possam potencializar as chances de crescimento e expansão do partido", pontua.
O analista político Daniel Pinheiro, pesquisador em Educação e Cultura Política da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), corrobora que os partidos do Centrão tendem a mudar de posições ideológicas a depender do momento político. Para ele, a clareza programática se tornou uma característica de partidos menores, com dificuldades para sobreviver por causa da cláusula de barreira. “Sem pressão do eleitor sobre isso, a ideia de partidos ligados a ideologias se enfraquece”, acrescenta.
Ele também lembra que o PSD é o partido com mais prefeituras no país, cerca de 890 após as eleições municipais de 2024, o que revela uma estratégia conectada com o perfil local de cada eleitorado.
Dessa forma, o planejamento eleitoral também favorece as alianças estaduais e a construção de bancadas significativas no Congresso Nacional. “Eleger deputados estaduais e federais em ciclos como o atual é parte essencial desse cálculo”, aponta.
Segundo o site oficial do partido, o PSD conta atualmente com 13 senadores e 49 deputados federais, além de dezenas de deputados estaduais por todo o país. A legenda também governa seis estados: Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Sergipe e Rondônia. Além disso, três capitais são comandados por prefeitos do PSD: Rio de Janeiro, Curitiba e São Luís.
Eleitor vota na pessoa e contradição partidária não pesa na decisão
A pergunta que paira sobre o PSD é se o eleitor percebe tamanha ambiguidade e o quanto isso interfere no voto. Além das articulações eleitorais, o PSD mantém dois ministérios no governo Lula: as pastas de Minas e Energia e da Agricultura e Pecuária.
Apesar disso, Kassab - que permaneceu como um dos principais secretários do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) até março deste ano - critica o governo Lula publicamente e lançou Ronaldo Caiado (PSD-GO) como pré-candidato à Presidência da República. O ex-governador goiano é um antigo opositor de Lula e do PT.
Para Priscila Lapa, as contradições podem ser notadas em disputas acirradas, mas raramente definem o voto. "O voto personalista ainda é predominante. A escolha pela performance individual, pela identificação afetiva, ainda predomina. Não há uma conexão dos partidos com as demandas genuínas das pessoas. Tanto que os partidos estão entre as instituições em que os brasileiros menos confiam”, comenta a cientista política.
Para o pesquisador Daniel Pinheiro, o desgaste eleitoral por causa das contradições é praticamente inexistente ou momentâneo. A raiz do problema, segundo ele, está na relação distante do brasileiro com a política partidária. "Há poucos espaços públicos de discussão de problemas reais que possam ser resolvidos por linhas ideológicas", opina.
VEJA TAMBÉM:
Kassab transformou a contradição em estratégia
No centro da engrenagem do PSD está o cacique Gilberto Kassab, que definiu o partido como "nem de esquerda, nem de direita e nem de centro" na fundação da sigla em 2011. "Ele se tornou uma grande liderança política pela capacidade de abarcar outras lideranças menos comprometidas com pautas mais ideológicas, o que permite uma maior flexibilidade na composição das alianças", analisa a cientista política Priscila Lapa.
Na avaliação do analista Daniel Pinheiro, Kassab trouxe ao PSD a capacidade de transitar pelos diversos espaços da sociedade brasileira e fazer alianças consideradas "quase impossíveis" no meio político. Ele observa que, enquanto outros partidos aproveitaram o movimento conservador e cresceram à direita, o PSD aproveitou o centro e fincou bandeiras nos dois lados.
Para Pinheiro, a estratégia do PSD reflete uma lógica de dominação das legendas de centro. “Partidos mais ao centro sobrevivem com uma característica muito mais de articulação e de movimento flexível do que partidos que tentaram navegar só numa maré.”
VEJA TAMBÉM:














