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Indicado em dezembro de 2025 pelo pai e ex-presidente Jair Bolsonaro como candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro chega às vésperas do primeiro turno como o principal nome da oposição na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A consolidação da candidatura ao longo dos últimos dez meses, no entanto, passou por uma série de etapas e crises: disputas dentro da própria direita, o desgaste provocado pelo caso do Banco Master, dificuldades na composição de palanques estaduais e até um conflito público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).
Pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (28) mostrou Flávio e Lula empatados com 42% das intenções de votos em eventual disputa de segundo turno. Diante do crescimento da candidatura ao longo das últimas semanas, integrantes do PL passaram, inclusive, a defender o voto útil em Flávio como forma de tentar liquidar a disputa no próximo domingo (4), na votação em primeiro turno.
Outras candidaturas de centro e centro-direita, como a do escritor Augusto Cury (Avante), a do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), a de Renan Santos (Missão) e a do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), somam, juntas, 12% das intenções de voto na pesquisa estimulada de primeiro turno da Quaest.
“Eu quero fazer um apelo aqui aos brasileiros que não me têm como primeira opção para presidente da República, que preferem votar em outro candidato. [...] Considere votar em Flávio Bolsonaro já no primeiro turno para a gente resolver essa parada logo no primeiro turno”, disse Flávio durante uma transmissão pelas redes sociais.
Apesar do otimismo entre os membros do PL, a escolha pelo nome de Flávio, anunciada em 5 de dezembro, inicialmente gerou dúvidas e críticas entre lideranças partidárias que defendiam a possibilidade de outros nomes da direita, entre eles o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). O senador, porém, tratou a decisão como definitiva e passou a trabalhar para transformar a indicação do pai em uma campanha presidencial.
Na época, Flávio usou justamente o sobrenome como um dos argumentos para defender sua candidatura. Ao ser questionado sobre a preferência de setores da direita por Tarcísio, afirmou: “Eu também atendo a todos os requisitos [para concorrer ao Planalto], com a vantagem de que tenho sobrenome Bolsonaro”, disse na ocasião.
A resistência inicial não ficou restrita a outros partidos. A própria confirmação da candidatura pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, ocorreu em meio às dúvidas sobre a capacidade de o nome indicado por Jair Bolsonaro reunir a direita em torno de uma única candidatura. “Como presidente do PL, informo que o senador Flávio Bolsonaro é o nome indicado por Jair Bolsonaro para representar o partido na disputa presidencial”, afirmou o dirigente em comunicado à imprensa.
A resistência inicial foi gradualmente substituída pelo fechamento de fileiras dentro do PL. Em 15 de dezembro, dez dias após o anúncio da candidatura, o líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), afirmou que a decisão estava consolidada e que não havia espaço para recuo. Segundo ele, o partido já havia “abraçado” a candidatura como um fato político e apenas Jair Bolsonaro ou o próprio Flávio poderiam eventualmente rever a decisão.
A mesma sinalização foi dada pelo líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto (PL-PB), em entrevista à Gazeta do Povo, publicada em 17 de dezembro. “Sem dúvida nenhuma, Jair Bolsonaro é o grande puxador de votos. Ele é um fenômeno eleitoral. Se fosse candidato, venceria as eleições. Eu preferia o presidente Bolsonaro como candidato, mas, diante da perseguição política que ele sofre, vamos concentrar todas as forças em Flávio Bolsonaro”, disse.
A partir daí, a estratégia do PL passou a ser menos discutir o nome do candidato e mais organizar a estrutura para sustentá-lo na disputa. Flávio intensificou conversas com dirigentes partidários e lideranças da centro-direita, enquanto a legenda começou a trabalhar na formação de alianças e palanques estaduais.
Em janeiro, o próprio senador passou a defender uma “unidade com todo mundo” dentro da direita e da centro-direita, movimento que veio acompanhado do apoio público de Tarcísio de Freitas à sua candidatura. “Não tem nada de pressão. Até porque, agora, a gente vai trabalhar muito em prol do Flávio Bolsonaro. Não vai ter problema nenhum quanto a isso”, disse o governador paulista no final de janeiro.
A operação de Flávio e do PL para montar palanques pelo país
Com a candidatura consolidada dentro do PL, Flávio passou a enfrentar outro desafio: transformar o apoio do partido em uma rede de alianças capaz de levar sua campanha aos estados. O senador Rogério Marinho (PL-RN), escolhido como coordenador político da pré-campanha, ficou à frente das negociações.
A estratégia era ampliar a presença de Flávio para além do PL e construir palanques com partidos de centro-direita, especialmente Republicanos, União Brasil e PP. A tarefa, porém, esbarrou na resistência dessas legendas em fechar uma aliança nacional com o candidato.
Em julho, em meio às convenções partidárias, Marinho já admitia que a definição da chapa dependeria do resultado dessas conversas e que a campanha poderia chegar à convenção do PL sem um candidato a vice. A ausência de uma aliança nacional também teve efeito direto sobre a escolha do vice.
A campanha inicialmente procurava uma mulher de outro partido, que pudesse, ao mesmo tempo, ampliar a presença feminina na chapa e representar uma nova sigla na candidatura presidencial. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), que foi ministra do governo Jair Bolsonaro, chegou a ser convidada, mas as negociações não avançaram diante da neutralidade anunciada pela federação formada pelo PP com o União Brasil.
“Eu sempre falei da minha preferência sobre ter uma vice mulher”, disse Flávio em meio às negociações. Segundo o senador, porém, “quem não veio foram os caciques dos partidos”.
Com o impasse, a campanha passou a avaliar uma chapa exclusivamente do PL. A definição ocorreu no limite do calendário: em 5 de agosto, último dia para as convenções partidárias, Flávio anunciou o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice. O nome surpreendeu até aliados que acompanhavam as negociações.
“Alguém que já foi promotor de Justiça, chefe de Ministério Público do seu estado. Alguém que enfrentou e defendeu os nossos aposentados na CPMI do INSS. Alguém que pediu a prisão do Lulinha porque este tinha culpa no cartório. E alguém que representa o Nordeste de fato”, afirmou Flávio no dia do anúncio.
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Da relação com Daniel Vorcaro à briga pública com Michelle Bolsonaro
A construção da candidatura também foi atingida por uma crise que ganhou dimensão nacional a partir de maio, quando vieram a público mensagens e áudios de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. As conversas estavam relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro.
Em um dos áudios divulgados, Flávio cobra recursos de Vorcaro para despesas da produção e o chama de “irmão”. O episódio ganhou peso político porque Vorcaro estava no centro da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga um suposto esquema de fraudes envolvendo o Banco Master. O banco havia sido liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, e Vorcaro chegou a ser preso preventivamente no curso das investigações.
Flávio afirmou que não recebeu dinheiro pessoalmente de Vorcaro e sustentou que os contatos tinham relação com o financiamento do filme. Em maio, disse estar disposto a tornar públicos os contratos de investimento da produção, mas, até o momento, esses documentos não foram apresentados.
“Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda”, declarou. A partir da divulgação das conversas, porém, o caso passou a ser explorado politicamente pelos adversários e também reacendeu divergências dentro do próprio grupo bolsonarista.
Em setembro, com a retirada de parte do sigilo das investigações do caso Master, documentos tornados públicos voltaram a registrar Flávio como investigado no episódio. No mesmo mês, a PF deflagrou a Operação Make Up, que apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares para outras finalidades, entre elas a produção de “Dark Horse”. O caso envolve o deputado Mário Frias (PL-SP), entre outros investigados, e ainda está em investigação. O deputado negou quaisquer irregularidades.
Antes mesmo de a crise do Banco Master ser completamente absorvida pela campanha, Flávio enfrentou outro problema dentro do próprio núcleo familiar. Em junho, Michelle Bolsonaro tornou pública uma divergência com o enteado que vinha sendo gestada em torno da disputa eleitoral no Ceará.
A ex-primeira-dama havia defendido que o PL apoiasse Eduardo Girão (Novo) para o governo estadual, enquanto Flávio e o deputado André Fernandes (PL-CE) apoiavam uma aproximação com Ciro Gomes (PSDB). Em vídeos publicados nas redes sociais, Michelle afirmou que havia sido desrespeitada e maltratada por Flávio durante uma conversa sobre o assunto e disse que ele teria afirmado que seria melhor ela ficar fora das decisões partidárias.
A crise ganhou dimensão maior porque Michelle não era apenas uma integrante da família Bolsonaro. À frente do PL Mulher, ela havia construído uma estrutura própria de mobilização feminina dentro do partido e era considerada uma das principais figuras políticas dentro da legenda. O rompimento público ocorreu justamente quando Flávio tentava ampliar sua candidatura e reduzir a resistência entre mulheres.
Depois da crise, Michelle deixou a presidência do PL Mulher e chegou a colocar em dúvida sua disposição de disputar o Senado pelo Distrito Federal. À época, o presidente do PL chegou a afirmar que a briga “estava atrapalhando muito a campanha” e relacionou a necessidade de pacificação interna à tentativa de Flávio de atrair outras siglas.
A reconciliação veio em julho, depois de semanas de desgaste. Flávio publicou um pedido de desculpas e Michelle respondeu que aceitava as palavras do enteado. A negociação foi articulada por Valdemar Costa Neto e contou com a participação de aliados de Michelle, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP).
Crise no STF ajudou em guinada na campanha de Flávio
Dentro do PL, a avaliação é de que, apesar das crises que ameaçaram a candidatura, Flávio chega para o primeiro turno fortalecido pelo desgaste do presidente Lula e pela crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF). Até então, o senador vinha dividindo o discurso entre segurança pública, economia, relação com os Estados Unidos e a defesa do legado de Jair Bolsonaro.
Com o aumento das divergências entre ministros da Corte e a repercussão das suspeitas envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o STF voltou ao centro da estratégia eleitoral. A campanha passou a explorar o episódio para associar Lula ao Supremo e apresentar Flávio como candidato capaz de promover uma mudança na relação entre os Poderes.
A própria campanha avaliava que a crise poderia ajudar a desgastar o adversário na reta final. Em 15 de setembro, no mesmo dia em que o STF discutia a abertura de investigação sobre Moraes, o candidato interrompeu a programação eleitoral tradicional e gravou um vídeo em formato de pronunciamento à nação para falar sobre a crise.
“O atual governo criou um desequilíbrio institucional. Decidiu governar ao lado de uma parte do Supremo Tribunal Federal, que descumpriu a lei. Não é à toa que isso tudo está acontecendo”, declarou Flávio.
A aposta da campanha em explorar o escândalo do Judiciário ganhou relevância em um momento em que o tema deixou de ficar restrito à militância bolsonarista. Pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro mostrou que 47% dos eleitores diziam que a crise envolvendo o STF e o Banco Master teria alguma influência sobre a escolha do voto para presidente — 36% afirmaram que teria muita influência e 11%, pouca. Entre os eleitores de Flávio, 45% apontaram que a crise teria grande influência, contra 26% entre os eleitores de Lula.
Para o analista político Victor Missiato, professor de história do Mackenzie Tamboré, a centralidade do STF na disputa presidencial é resultado também da relação construída entre o tribunal e o governo federal nos últimos anos. Segundo ele, as controvérsias envolvendo ministros podem ser incorporadas ao discurso eleitoral de Flávio especialmente em segmentos específicos do eleitorado.
“A aproximação construída nos últimos anos entre o governo Lula e o STF, inclusive em momentos de tensão entre Executivo e Legislativo, tornou o tribunal parte importante da dinâmica política nacional. Nesse contexto, quanto maior a repercussão de controvérsias envolvendo os ministros, maior tende a ser o potencial de exploração desse tema pela campanha de Flávio, especialmente entre parcelas da classe média das grandes cidades do Sudeste”, afirma Missiato.
Para o analista, a disputa também passa pela construção da imagem dos candidatos. “Lula carrega o desgaste natural de uma trajetória política extensa, enquanto Flávio ainda procura consolidar uma identidade própria diante da força simbólica da figura de Jair Bolsonaro. A eleição, portanto, não envolve apenas partidos, propostas ou pesquisas: envolve também a construção de imagens políticas capazes de produzir identificação”, afirma.
Metodologia das pesquisas apresentadas:
A pesquisa Quaest ouviu 2.004 eleitores de 24 a 27 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Editora Globo e pela Globo Comunicação e Participações S.A. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BR-06520/2026.
O Datafolha ouviu 2.001 eleitores brasileiros. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança, de 95%. O levantamento está registrado no sistema do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o código BR-04029/2026.








