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No dia 15 de janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) empossou Wellington César Lima e Silva no Ministério da Justiça e Segurança Pública, após a saída de Ricardo Lewandowski. A troca na pasta por um nome mais diretamente vinculado ao campo da segurança ocorre depois de um 2025 marcado por episódios de grande repercussão nesse âmbito, como a Operação Contenção no Rio de Janeiro.
Em suas primeiras falas, Lima e Silva já sinalizou uma “direitização” do discurso da pasta sob seu comando, com ênfase pouco usual para o governo no combate às organizações criminosas: “Nós vamos mostrar que o Estado brasileiro vai derrotar o crime organizado”, afirmou.
A tendência acompanha dados de opinião pública que passaram a registrar a violência como principal preocupação do eleitor brasileiro. O governo Lula tem buscado uma guinada do discurso nessa área, após pesquisas registrarem a segurança pública como seu calcanhar de Aquiles com a população em geral.
O movimento não se resume ao governo federal. Em 2025 e no início de 2026, políticos e gestores do campo da esquerda e da centro-esquerda e partidos como PT, PSB e PSD, além de governos estaduais do Nordeste, passaram a tratar o combate ao crime organizado como prioridade de políticas públicas.
A reação pública positiva à Operação Contenção, deflagrada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, foi um divisor de águas. O governador Cláudio Castro capitalizou politicamente com a ação, o que serviu como um sinal para políticos de todos os campos ideológicos.
Para o especialista em segurança pública Davidson Abreu, oficial da Polícia Militar de São Paulo e autor do livro "Tolerância Zero" (Avis Rara, 2021), a operação no Rio mostrou à esquerda “o que a direita sabe: que as pessoas honestas querem se livrar dos grilhões do crime organizado nas favelas e periferia, enquanto a esquerda se beneficia desse controle”.
“A esquerda faz acertos com os presidentes das associações de melhoramento dessas áreas, que são controladas pelas organizações criminosas. Em época de eleições, os votos são direcionados para a esquerda. A compra de votos nesses locais é algo tão corriqueiro como a venda de drogas”, diz.
Um levantamento da AtlasIntel divulgado em 31 de outubro de 2025 revelou que a operação teve 55% de aprovação no país e 62% na cidade do Rio – o que indicou que, mesmo no centro e na esquerda, a defesa de uma abordagem mais “tolerância zero” com o crime organizado é vista positivamente. Em novembro de 2025, pesquisa do instituto Real Time Big Data mostrou que 74% dos entrevistados no estado do Rio discordavam da declaração de Lula de que a operação teria sido “desastrosa”.
O desenho mais claro de como a população enxerga o assunto mostrou à esquerda o custo político de sustentar críticas genéricas à polícia e a ações de endurecimento penal. Isso tem tido efeitos no começo do ano eleitoral de 2026.
Na visão do jurista Fabricio Rebelo, coordenador do Centro de Pesquisa em Direito e Segurança (CEPEDES), a preocupação repentina da esquerda com a segurança pública é “puramente eleitoral, para buscar explorar essa que se tornou uma das maiores preocupações do brasileiro”. “O histórico da postura esquerdista no país tem sido marcante no enfoque do criminoso como vítima da sociedade, em relação ao qual as iniciativas de maior efetividade de punições enfrentam forte resistência nesse segmento ideológico”, ressalta.
Ele considera “cada vez mais nítido” o “distanciamento entre a esquerda e a realidade da população”. “Ao contrário do que seus ideólogos da segurança pública apregoam, buscando demonizar a polícia e vitimizar os criminosos, o que a população real espera é justamente um combate mais rígido a estes indivíduos, cujas atividades muitas vezes fazem as populações mais desfavorecidas de refém. Quando se evidencia haver apoio popular ao efetivo combate ao crime, aqueles ideólogos, cuja preocupação prioritária é sempre o capital eleitoral, se veem obrigados a adaptar seus discursos”, comenta.
"Direitização" na segurança também se vê em governos de esquerda e centro-esquerda do Nordeste
Não só no governo federal, mas também em outras esferas, políticos de fora do campo da direita têm abordado com mais ênfase o combate ao crime.
Em Pernambuco, a segurança pública virou vitrine política para dois políticos de centro-esquerda, a governadora Raquel Lyra (PSD) e o prefeito do Recife, João Campos (PSB), que são adversários políticos. Eles passaram a exibir ações para sinalizar prioridade ao tema.
Em 19 de janeiro, em agendas paralelas no mesmo dia, Raquel anunciou um aumento de efetivo da Polícia Militar de Pernambuco, enquanto Campos participou da aula inaugural de guardas municipais que passarão a portar arma letal, ambos buscando associar suas gestões ao reforço da presença do Estado na área da segurança.
Na Bahia, o tema também passou a ser abordado com mais vigor pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT), que tem buscado se afastar do discurso tradicionalmente crítico a ações policiais do seu partido. Em entrevista recente à Veja, Jerônimo afirmou querer “polícia forte”, defendeu operações contra facções e disse: “Temos que fazer uma ação intensiva para que o crime organizado não tenha trégua”.
No Piauí, a segurança pública também foi transformada em ativo político pela esquerda com a projeção do então secretário estadual Chico Lucas, que passou a circular como referência nacional do setor dentro do PT antes de ser alçado ao governo federal.
Em 19 de janeiro, ele foi o principal convidado de uma reunião do Setorial Nacional de Segurança Pública do PT, que reuniu dirigentes partidários, militantes e quadros do Ministério da Justiça, em um encontro virtual no qual apresentou diretrizes da política adotada no estado e respondeu a questionamentos da militância sobre combate ao crime e integração das forças.
Poucos dias depois, Chico Lucas foi anunciado pelo ministro Wellington César Lima e Silva como novo secretário nacional de Segurança Pública, em reconhecimento do desempenho do Piauí na área. O estado fechou 2025 com o menor número de homicídios da última década e passou a ser apontado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública como o mais seguro do Nordeste. O resultado foi atribuído pelo governo local ao Pacto pela Ordem, política baseada em integração entre forças, uso de inteligência e aumento das prisões – propostas típicas da direita na área.
Embora a esquerda e o governo federal estejam revendo a linha discursiva, o presidente Lula continua engajado em aprovar a PEC da Segurança Pública, que propõe centralizar na União o combate ao crime, tirando a autonomia dos estados, com o objetivo alegado de facilitar o desmantelamento das grandes facções que atuam nacionalmente. A oposição é contra o projeto, que, na prática, poderia limitar a capacidade das unidades federativas de lidar com a violência com programas próprios.
Para Davidson Abreu, a tentativa de mudança de rota esbarra em um custo político que dificilmente poderá ser sustentado por políticos esquerdistas sem que as incoerências fiquem expostas. “Até mesmo a alteração de uma lei penal gera um desgaste político muito grande, principalmente no campo da esquerda, no qual eles mesmos direcionaram a militância para o lado do vitimismo criminal. Portanto, vai ser muito difícil a esquerda perder essa imagem”, diz.



