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A eleição presidencial deste ano, marcada pela polarização e pela imprevisibilidade, tende a ser decidida pelo comportamento de uma parcela do eleitorado que não se identifica de forma automática com nenhum dos dois candidatos à frente nas pesquisas para disputar o segundo turno: o eleitor independente. Dentre os fatores que podem levar esse tipo peculiar para um ou outro lado, estão a economia, a crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal e o caso do Master, assim como escândalos de corrupção.
Num cenário de empate técnico, com alternância de liderança numérica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) concentram a maior parte das intenções de voto e tentam se consolidar entre uma parcela decisiva do eleitorado classificado como independente.
Não se trata especificamente dos eleitores indecisos, que ainda não definiram o voto, nem de todos os classificados como não polarizados, categoria definida por diferentes metodologias dos institutos de pesquisa.
Para cenários de segundo turno, na Quaest, realizada de 3 a 6 de setembro, Lula e Flávio Bolsonaro apareciam com 41% cada, enquanto 13% declaravam voto branco ou nulo e 5% estavam indecisos. Na pesquisa Meio/Ideia, realizada de 4 a 7 de setembro, Lula e Flávio também empatavam, com 46% cada, enquanto 3,5% declaravam voto branco ou nulo e 4,5% não souberam responder. Já no Datafolha, realizado de 15 a 17 de setembro, Lula tinha 46% e Flávio 44%, com 8% de votos brancos ou nulos e 1% de indecisos.
É dentro desse universo menor, que não se identifica nem com Flávio, nem com Lula, que se observa um grupo mais específico, dos eleitores independentes, sem vínculo partidário e, portanto, com maior possibilidade de mudar de posição conforme aquilo que consideram mais importante para a própria vida.
“Este grupo, que representa uma parcela de 3% a 4% efetivamente em disputa, pode mudar de posição conforme suas preocupações e expectativas”, diz Cila Schulman, CEO do Instituto de Pesquisa Ideia. “São eleitores apartidários, majoritariamente da classe C e mulheres, concentrados nas franjas das grandes cidades — São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife.”
Disputados pelas duas campanhas majoritárias, tais eleitores, segundo ela, votaram em Bolsonaro em 2018 na esteira da pauta da Operação Lava Jato, frustraram-se na pandemia e migraram para Lula em 2022 pela promessa simbólica de “picanha e cerveja”. “Atualmente, estão desapontados com o governo”, diz.
Economia, STF e corrupção pesam na escolha
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo afirmam que esses eleitores independentes atribuem pesos diferentes aos principais temas da eleição. A economia é o fator de maior impacto. A crise do STF e a corrupção entram no cálculo do voto, mas não com a mesma força.
Para Leonardo Barreto, sócio da Think Policy, o cenário de instabilidade institucional é periférico para essa camada. “As denúncias e pautas de corrupção geram manchetes, mas só ‘fazem preço’ na eleição porque as pessoas já estão insatisfeitas com sua situação econômica”, afirma.
O cientista político considera os indicadores de percepção econômica do governo “todos muito ruins” e diz que Lula não conseguiu transformar em ganho eleitoral medidas anunciadas ao longo do ano, como as iniciativas de crédito e consumo.
Tais medidas, segundo levantamento da Gazeta do Povo, somaram R$ 187,2 bilhões somente em 2026, consolidados no chamado “pacote de bondades” ou “kit reeleição”. Desse total, R$ 176,7 bilhões, ou 94,4%, ficam fora do limite de crescimento das despesas previsto pelo arcabouço fiscal.
O cenário de endividamento também pesa sobre o eleitorado, sobretudo entre os eleitores da classe C, público tradicional do petismo. Segundo a Serasa, 83,98 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em agosto, no levantamento mais recente. O resultado praticamente se manteve estável em relação aos 83,93 milhões registrados em julho, com 348,3 milhões de dívidas em aberto, que somavam R$ 586,4 bilhões.
“As pessoas estão endividadas, sem capacidade de pagamento, sem capacidade de financiamento”, corrobora Leandro Gabiatti, da Dominium. “A inflação dos alimentos é outro ponto importante, o poder de consumo, que, apesar de ter uma inflação relativamente controlada próxima da meta, a inflação dos alimentos está bastante acima da inflação geral.”
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Para Cila Schulman, Lula está “patinando” nas pesquisas porque a melhora da condição de vida não se materializa na percepção de parte do eleitorado. “No cenário de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro ganhou terreno após o Auxílio Emergencial de R$ 600”, diz. “Agora, Lula permanece estagnado desde maio, sem que as medidas anunciadas produzam o mesmo efeito eleitoral.”
O Datafolha divulgado em 17 de setembro mostrou que 50% desaprovam o trabalho de Lula e 48% o aprovam. Na avaliação do governo, 42% consideram a gestão ruim ou péssima, 34% ótima ou boa e 23% regular.
Para Roberto Reis, estrategista eleitoral, a aprovação de Lula compromete sua reeleição. “Nunca nenhum presidente no Brasil foi reeleito abaixo de 35% de ótimo e bom”, diz. “Lula seria o primeiro que se reeleger com essa aprovação.”
Para especialista, eleitor de Flávio é mais sensível à corrupção que o de Lula
Na avaliação de Cila Schulman, a crise institucional do STF mobiliza e engaja principalmente os eleitores partidários da oposição. “Ela dá gás à campanha de Flávio Bolsonaro por dois fatores: crises institucionais tendem a desgastar quem está no poder, o incumbente, e a personificação do ministro Alexandre de Moraes é associada, na opinião pública, à figura de Lula”, diz.
“Assim, esse cenário consegue converter eleitores que declaravam voto branco ou nulo a votar em Flávio.” Para o eleitor de centro ou indeciso, contudo, o tema não move o voto, porque prevalece a percepção de que “todos são corruptos” e de que nenhuma instituição tem razão isoladamente.
Mas, para a pequena parcela de independentes, o tema não tem peso e fica atrás das preocupações cotidianas. “São pessoas sobrecarregadas, com múltiplos trabalhos informais/autônomos, como Uber, Shopee e salão de beleza”, diz a pesquisadora do Instituto Ideia. “Estão na correria, não têm tempo nem conseguem acompanhar a complexidade do caso.”
A corrupção, por sua vez, atinge as duas candidaturas de maneira distinta. “As denúncias de corrupção podem ter um impacto maior no Flávio do que têm no Lula”, afirma Cila. Segundo ela, o eleitor de Lula tende a relativizar os casos quando percebe um benefício social ou econômico.
“O eleitor do Lula desculpa o Lula pelos casos de corrupção. Já o eleitor do Flávio, quase 50%, diz que poderia não votar nele por causa disso.”
A diferença, segundo Cila, está na própria origem do eleitorado bolsonarista. Jair Bolsonaro foi eleito em 2018 com a bandeira do combate à corrupção, o que torna esse eleitor mais sensível a denúncias contra seu grupo político. “O eleitor do Lula já está, digamos, acostumado com os casos de corrupção do PT desde o mensalão. É meio uma troca por contrapartida.”
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O reajuste do Bolsa Família, anunciado nesta semana pelo presidente Lula, é uma das apostas do governo para alcançar o eleitorado independente, mas enfrenta ressalvas. O benefício terá reajuste de 15,04%, passando de R$ 600 para R$ 691, enquanto o valor médio estimado sobe de R$ 675 para R$ 777. Os novos valores começam a ser pagos em 19 de outubro, às vésperas do segundo turno da eleição.
Para Leonardo Barreto, Lula também está recorrendo às últimas “cartas na manga” para tentar reverter a rejeição. Já Roberto Reis acredita que medidas desse tipo no atual momento têm efeito limitado.
“Qualquer bondade econômica tem que ser nos 18 primeiros meses do mandato. Não funciona lançar agora, em cima da hora. Não faz diferença nenhuma na cabeça do eleitor; pelo contrário, parece ser aproveitador”, afirma.
Uma das poucas agendas capazes de dialogar diretamente com a rotina desse eleitorado é, segundo ela, a eventual redução da jornada de trabalho, com o fim da escala 6x1.
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva encontrou 67% dos brasileiros dizendo que a escala 6x1 prejudica a saúde mental e 62% apontando prejuízo à saúde física. O levantamento ouviu 1.030 pessoas, de 2 a 8 de junho, em todas as regiões do país.
Os números de Cila são maiores e ela acredita que o tema deve ser enfatizado na campanha na reta final do primeiro turno. “Eu tenho 74% dos brasileiros que apoiam o fim da escala 6x1”, afirma. “Creio que pode ser ainda um caminho para o presidente Lula falar com o eleitor dele.”
No segundo turno, no entanto, a pesquisadora lembra que Lula tem um mercado de voto muito reduzido para atrair. "A mobilidade de votos está concentrada na direita, enquanto Lula já reúne praticamente todo o eleitorado identificado com a esquerda e com avaliação positiva de seu governo", afirma.
"Na prática, é uma campanha de campanha de oposição, em que mais da metade da população considera que o Lula não merece um novo mandato. Mas será definida no detalhe”
Metodologia:
Quaest — Pesquisa realizada de 3 a 6 de setembro de 2026, com 2.004 eleitores, em âmbito nacional. As entrevistas foram presenciais. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado no TSE.
Meio/Ideia — Pesquisa realizada de 4 a 7 de setembro de 2026, com 1.500 eleitores, por telefone, em âmbito nacional. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. Levantamento realizado com recursos próprios e registrado no TSE sob o protocolo BR-07935/2026.
Datafolha — Pesquisa realizada de 15 a 17 de setembro de 2026, com 2.002 eleitores, em 125 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela Folha de S.Paulo e TV Globo e registrado no TSE sob o protocolo BR-04029/2026.




