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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem adotado, neste ano eleitoral, uma agenda de benefícios sociais, ampliação do crédito e desonerações tributárias semelhante ao conjunto de medidas que classificou como um "pacote de bondades” eleitoreiro do então presidente Jair Bolsonaro (PL) durante a campanha de 2022.
À época, Lula e a cúpula do PT acusavam o adversário de usar a máquina pública para influenciar o eleitorado e criticavam o impacto fiscal das iniciativas anunciadas às vésperas da eleição.
Na campanha presidencial daquele ano, Lula e seus aliados atacaram principalmente a chamada PEC dos Benefícios, apelidada de “PEC Kamikaze”, que autorizou gastos extraordinários fora do teto e permitiu medidas como o aumento do Auxílio Brasil, a criação do benefício para caminhoneiros e do auxílio para taxistas.
"Eles estão tentando comprar o povo", afirmou Lula à época ao criticar as medidas. O então candidato do PT também associava as medidas a uma tentativa de driblar as restrições eleitorais.
Dirigentes petistas também argumentavam que o pacote representava uma manobra de última hora com elevado impacto fiscal e potencial para desequilibrar a disputa presidencial.
Quatro anos depois, o governo Lula reúne uma agenda de medidas de forte apelo popular e impacto fiscal em pleno ano eleitoral. A principal delas é a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem tem renda mensal de até R$ 5 mil, aprovada pelo Congresso em 2025 e em vigor a partir de 2026.
A medida, que se tornou uma das vitrines do governo neste ano eleitoral, é uma entre várias outras compõem o chamado “pacote de bondades” criticado por Lula em 2022.
Gás do Povo expande benefício para 15 milhões de famílias
Na área social, o governo substituiu o antigo Auxílio Gás pelo Gás do Povo, programa que prevê atendimento a cerca de 15 milhões de famílias em todos os municípios do país. A primeira etapa de execução do programa envolveu quase R$ 1 bilhão em recursos federais previstos pelo Ministério de Minas e Energia.
Ao lançar o programa, em setembro de 2025, Lula afirmou que a iniciativa busca combater a “pobreza energética”. “Todo mundo tem direito a comer e, para isso, precisa ter gás para cozinhar", disse o petista.
Luz do Povo reduz tarifa, mas transfere custos ao sistema
Outra aposta foi a criação do Luz do Povo, programa voltado à redução da conta de energia para famílias de baixa renda. O benefício é financiado pela Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), fundo abastecido por encargos cobrados nas contas de luz.
A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) tem alertado que o crescimento dos benefícios financiados pela CDE pressiona os encargos embutidos nas tarifas de energia. Já a Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace) ressaltou que a política tem mérito social, mas advertiu que o financiamento por meio da CDE tende a transferir parte dos custos para os demais consumidores e para a indústria.
Crédito subsidiado para motoristas, caminhoneiros e empreendedores
O governo também lançou uma ofensiva de crédito subsidiado. Entre as iniciativas estão financiamentos para motoristas de aplicativo adquirirem veículos, linhas especiais para caminhoneiros e o chamado Fies Empreendedor, que prevê empréstimos de até R$ 180 mil para recém-formados abrirem negócios próprios.
Segundo o Ministério da Fazenda, a iniciativa busca ampliar o acesso ao crédito em condições mais favoráveis e estimular o empreendedorismo entre ex-estudantes financiados pelo programa.
No entanto, estudos publicados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que o próprio Fies acumulou elevados índices de inadimplência ao longo de sua história. O órgão aponta a ausência de garantias, a baixa renda dos beneficiários e dificuldades de inserção no mercado de trabalho como fatores que comprometem a sustentabilidade financeira do programa.
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Minha Casa, Minha Vida mirando faixas de renda mais altas
Em abril, Lula decidiu incluir a Faixa 4 no Minha Casa, Minha Vida, estendendo o alcance do programa de habitação a famílias com renda mensal de até R$ 13 mil.
Segundo o Ministério das Cidades, a medida busca ampliar o acesso ao crédito habitacional para famílias que enfrentam dificuldades para financiar imóveis diante dos juros elevados.
Apesar disso, dados da Fundação João Pinheiro indicam que a maior parte do déficit habitacional brasileiro está concentrada entre famílias de menor renda, público que historicamente constituiu o foco do programa.
Desenrola turbinado até para adimplentes
Outra frente foi a expansão do Desenrola. Após a primeira fase, voltada à renegociação de dívidas de inadimplentes, a gestão Lula lançou novas modalidades do programa, incluindo linhas para pequenos empreendedores e uma versão destinada a consumidores adimplentes, permitindo a substituição de empréstimos mais caros por operações com juros menores.
O Ministério da Fazenda sustenta que a medida reduz o custo do endividamento e amplia o acesso ao crédito para trabalhadores informais e consumidores que mantêm as contas em dia.
No entanto, a segunda edição do Desenrola recebeu ressalvas do BTG Pactual, cujos analistas classificaram o desenho do programa como mais intervencionista que a versão anterior, por impor novas obrigações às instituições financeiras e ampliar significativamente o alcance da política de crédito.
A nova modalidade também recebeu críticas do setor bancário. Em entrevista ao portal UOL, o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, que apontou que a repactuação ampla de contratos de adimplentes poderia "estimular a inadimplência" e gerar impactos sobre a lógica econômica das operações de crédito.
Ampliação do MEI e verba dobrada para propaganda da gestão Lula
O governo também encaminhou ao Congresso uma proposta para reformular o limite de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI). O texto prevê elevar o teto anual dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, com reajustes automáticos pela inflação nos anos seguintes. A medida ainda precisa passar pelo Congresso.
Somam-se a essas iniciativas a aceleração das entregas de obras do Novo PAC e a ampliação das despesas com propaganda institucional do governo — que alcançaram R$ 520 milhões empenhados no primeiro semestre, mais que o dobro do registrado no mesmo período do último ano eleitoral de Bolsonaro.




