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Desvantagem petista

Lula sai atrás de Flávio e chega ao segundo turno sem apoios expressivos

Lula sai em desvantagem na disputa do segundo turno com Flávio.
Lula sai em desvantagem na disputa do segundo turno com Flávio. (Foto: André Coelho/EFE)

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputará o segundo turno das eleições, em 25 de outubro, em desvantagem de mais de 2,4 milhões de votos. Com 99,6% das urnas apuradas, Lula estava 2,11 pontos percentuais atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL) na votação deste domingo (4). Faltando apenas 0,5% das urnas para apurar, Lula tinha 45,06% dos votos válidos, contra 47,12% de Flávio.

O cenário é desafiador para a reeleição do presidente, que disputou sozinho pelo espectro da esquerda, considerando o "arsenal" de ferramentas de apelo popular utilizado na reta final da campanha.

Enquanto isso, o candidato do PL tem a possibilidade de absorver a maior parte dos votos que ficaram com as candidaturas que não avançaram ao segundo turno. Ele terá de lutar por votos votos que, no primeiro turno, foram conferidos a candidatos da direita.

Na votação deste primeiro turno, Augusto Cury (Avante) tinha – com 99,6% das urnas apuradas – 2,89% dos votos válidos (3.439.445 votos), Renan Santos (Missão), 2,25% (2.671.162); Ronaldo Caiado (PSD), 2,19% (2.600.226 votos) e Romeu Zema (Novo), 0,27% (325.868 votos). Os demais candidatos tinham 0,1% ou menos.

A diferença no primeiro turno é um dos principais indicadores da disputa do segundo turno. Segundo analistas, Lula precisaria ter pelo menos 5 pontos de vantagem sobre Flávio no primeiro turno para se manter competitivo. Bruno Soller, da Real Time Big Data, avaliou que, abaixo disso, o favoritismo seria de Flávio. Outros analistas avaliam que a vantagem mínima deveria ser de 3 pontos.

Segundo turno exigirá alianças

Para o segundo turno, a campanha de Lula terá de lidar ainda com o desgaste provocado pela associação entre Lula e o STF, mobilizar sua base para reduzir os efeitos da abstenção e disputar o apoio de partidos.

Sem garantia de vitória, o apoio no Congresso, especialmente do Centrão, será um desafio. Outro problema para a campanha é a redução dos palanques estaduais disponíveis, como é o caso de São Paulo, com a reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Na avaliação de analistas, a maior dificuldade do presidente será transformar indicadores econômicos favoráveis em uma percepção mais concreta de melhora na vida cotidiana.

Uma das apostas da campanha será o reajuste do Bolsa Família, de cerca de R$ 90 no valor médio do benefício, viabilizado na reta final do primeiro turno após uma liminar do ministro Gilmar Mendes, do STF. O novo valor começará a ser pago duas semanas antes do segundo turno.

Campanha recorreu à máquina de bondades

A campanha de Lula chegou ao dia da eleição depois de duas semanas de forte movimentação, marcadas por mudanças de estratégia, novas medidas do governo e uma sequência de polêmicas.

Na véspera da eleição, os principais levantamentos estavam dentro de uma faixa relativamente estreita. O Datafolha registrou 45% a 42% dos votos válidos para Lula e Flávio, enquanto a Quaest, usando o modelo de eleitor provável, apontou 46% a 45%.

O empate técnico nas pesquisas aconteceu mesmo após a enxurrada de medidas do governo na reta final. Lula reajustou o Bolsa Família, lançou uma nova versão do Desenrola e editou medidas contra as apostas esportivas (bets), enquanto a campanha ampliou os ataques a Flávio Bolsonaro e passou a explorar temas como o combate às apostas, a defesa da democracia e a atuação do STF.

A disputa também ganhou forte componente religioso após a circulação de conteúdos falsos associando Flávio à retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. O episódio levou a decisões conflitantes dos ministros André Mendonça e Flávio Dino e colocou o TSE e o STF no centro da guerra de narrativas da campanha.

A dez dias da eleição, Lula enfrentou repercussão negativa após uma fala sobre o exame de próstata e o “toque” em mulheres, que foi explorada pela campanha adversária e depois explicada pelo presidente. Janja também ampliou sua participação nos atos e nas redes sociais, com ataques a adversários e atuação em temas como mulheres e apostas.

A última semana ainda foi marcada pela ausência de Lula no debate da Globo, pelo cancelamento do encontro após decisões judiciais que alteraram suas regras e pela intensificação da agenda presencial nos maiores colégios eleitorais.

Nos últimos dias, Lula passou a pedir explicitamente a mobilização de eleitores para reduzir a abstenção e encerrou a campanha na Avenida Paulista, em São Paulo, defendendo uma vitória ainda no primeiro turno.

Rejeição e avaliação do governo foram determinantes

A alta rejeição e a baixa aprovação do governo foram determinantes para o resultado. Em setembro, a avaliação do governo chegou a um dos piores patamares de toda a gestão.

Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de setembro, 50% desaprovavam o governo e 43% aprovavam, diferença de sete pontos percentuais. Segundo a Quaest, era um patamar inédito para um presidente que disputa a reeleição.

Pesquisa Datafolha realizada entre 8 e 10 de setembro, cerca de três semanas antes da votação, mostrou que 46% dos eleitores diziam não votar de jeito nenhum em Lula. O mesmo percentual rejeitava Flávio Bolsonaro.

Na reta final da campanha, a avaliação do governo chegou a apresentar melhora. Pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro mostrou a aprovação de Lula subindo de 44% para 46%, enquanto a desaprovação recuou de 50% para 49%. Ainda assim, a percepção negativa permanecia numericamente superior à positiva.

Governo apostou em expansão de gastos na economia

Ao longo do governo, Lula investiu na estratégia de expansão dos gastos públicos, com medidas de impacto direto sobre renda e consumo para estimular a atividade econômica. Isso incluiu, além da incorporação do aumento real do salário mínimo acima da inflação no início do governo, benefícios, crédito subsidiado e desonerações.

Em junho, a Gazeta do Povo estimou em R$ 187,2 bilhões o conjunto dessas medidas, em um pacote de bondades direcionado a diversos segmentos.

Não conseguiu, no entanto, transformar os indicadores econômicos do governo em percepção positiva entre os eleitores. A avaliação sobre o custo de vida, a inflação dos alimentos e a inadimplência das famílias esgarçou a popularidade do presidente ao longo de 2026.

Ao mesmo tempo, a deterioração fiscal e os juros elevados ampliaram as críticas ao uso eleitoral da máquina pública, enquanto a preocupação com a trajetória das contas públicas se intensificava.

O desgaste da política já aparecia antes mesmo do início oficial da campanha. Em abril, a Quaest registrava 52% de desaprovação e 43% de aprovação do governo.

Liderança ficou ameaçada com crise do STF

A liderança de Lula já vinha sendo ameaçada ao longo da campanha. Flávio Bolsonaro havia aparecido numericamente à frente de Lula em abril, quando a Futura/Apex apontou 48% para o senador contra 42,6% para o presidente em um eventual segundo turno.

A vantagem, porém, não se sustentou. Em meio às revelações do caso Banco Master e às informações sobre as relações entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o senador perdeu terreno e, no fim de julho, aparecia com 41,1%, contra 47,5% de Lula, segundo a Vox Brasil.

A recuperação ocorreu em agosto, paralelamente ao agravamento da crise envolvendo o STF e às revelações sobre as relações de Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes. O embate ganhou projeção a partir da divulgação de mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O episódio foi incorporado à campanha de Flávio Bolsonaro. No ato de 7 de setembro na Avenida Paulista, o candidato do PL transformou as críticas a Moraes em um dos principais temas de seu discurso, pediu a saída do ministro do Supremo e tentou associá-lo diretamente a Lula. “Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”, afirmou Flávio.

Eleitor vincula Lula a Moraes

A disputa em torno do caso colocou Moraes e o ministro André Mendonça, até então relator das investigações sobre o Banco Master, em lados opostos de uma crise interna no STF.

Mendonça tornou público um relatório da Polícia Federal que continha mensagens atribuídas a Moraes e Vorcaro, enquanto Moraes pediu a abertura de investigação contra Mendonça por suspeitas de abuso de autoridade e outras possíveis irregularidades. O presidente do Supremo, Edson Fachin, posteriormente determinou o fim do sigilo de parte dos autos.

A percepção negativa sobre a atuação de Moraes, no entanto, acabou recaindo diretamente sobre Lula. Em 29 de agosto, a Vox Brasil voltou a registrar Flávio numericamente à frente, com 45,1% contra 44,5% de Lula, em empate técnico. O levantamento ouviu 2.100 eleitores entre 25 e 27 de agosto.

Além da avaliação entre os eleitores de que o Judiciário sempre esteve ao lado do governo nos embates com o Legislativo, o vínculo entre Lula e Moraes ficou flagrante após o magistrado intermediar o encontro do petista com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Lula e Alcolumbre estavam estremecidos desde que o Senado rejeitou o nome indicado pelo governo, Jorge Messias, para o STF.

O restabelecimento da relação permitiu ao governo aprovar no Congresso medidas de interesse eleitoral, como a extinção do imposto sobre as compras internacionais, a chamada “taxa das blusinhas”, em setembro, que Alcolumbre resistia em pautar.

Mesmo assim, Flávio prosseguiu avançando nas pesquisas seguintes. A BTG/Nexus, divulgada em 8 de setembro, mostrou Flávio com 46% contra 45% de Lula no segundo turno. Já a Quaest, divulgada em 14 de setembro, registrou Flávio com 42% contra 40% de Lula, a primeira vantagem numérica do senador sobre o presidente na série do instituto desde abril, novamente em empate técnico.

Corrupção e Lulinha permearam campanha

A campanha também conviveu com as denúncias envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente. A Polícia Federal abriu três inquéritos para apurar suspeitas de tráfico de influência e corrupção, a partir de elementos encontrados nas investigações sobre fraudes em benefícios do INSS.

Entre os pontos apurados estão a relação de Lulinha com a lobista Roberta Luchsinger, sua proximidade com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e viagens pagas por pessoas ligadas ao esquema.

A defesa nega irregularidades e questiona as provas e as conclusões da PF. O caso recolocou as acusações de corrupção no centro da campanha de Lula, que afirmou que o filho deveria se defender e que não haveria interferência do governo nas investigações.

Nas duas últimas semanas, a PF passou a investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, em três inquéritos, incluindo suspeitas de tráfico de influência.

Em agosto, Lula afirmou que nunca tinha visto nem conhecido Roberta, mas fotos publicadas pela própria lobista passaram a mostrar os dois juntos em diferentes ocasiões. Na reta final, novas mensagens ainda apontaram que Roberta dizia frequentar o Planalto e viajar em avião da FAB com Lulinha.

Metodologia das pesquisas citadas:

Quaest — 14 de setembro: 2.004 eleitores entrevistados presencialmente entre 10 e 13 de setembro, em todo o país; margem de erro de 2 pontos percentuais; confiança de 95%; contratada pela TV Globo e pelo jornal O Globo; registro TSE BR-03607/2026.

Datafolha — 8 a 10 de setembro: 2.002 eleitores em todo o país; margem de erro de 2 pontos; confiança de 95%; contratada pela Folha de S.Paulo e pelo Grupo Globo; registro TSE BR-01833/2026.

BTG/Nexus — 4 a 7 de setembro: 2.002 eleitores; margem de erro de 2 pontos; levantamento por telefone; registro no TSE e contratação pelo BTG.

Vox Brasil — 25 a 27 de agosto: 2.100 eleitores em todo o país; margem de erro de 2,15 pontos percentuais; confiança de 95%.

Futura/Apex — 7 a 11 de abril: 2.000 entrevistados em todo o país, por entrevistas telefônicas assistidas por computador; margem de erro de 2,2 pontos; confiança de 95%; registro TSE BR-08282/2026; pesquisa realizada com recursos próprios do instituto.

Datafolha — 2 e 3 de outubro: 4.006 eleitores em 122 municípios; margem de erro de 2 pontos; confiança de 95%; registro TSE BR-01708/2026.

Quaest — 2 e 3 de outubro: 3.702 eleitores; margem de erro de 2 pontos; confiança de 95%; contratada pela TV Globo e pelo jornal O Globo; registro TSE BR-02197/2026. O levantamento utilizou modelo de eleitor provável.

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