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A candidatura de Michelle Bolsonaro (PL) ao Senado pelo Distrito Federal (DF) será também um teste de sua capacidade de transformar em votos o capital político construído nos últimos anos. Embora mantenha o apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), a ex-primeira-dama terá estratégia própria, agenda concentrada na capital do país e uma rede de aliados para ampliar presença nos compromissos dos quais não puder participar.
O desenho da campanha leva em consideração principalmente a rotina de Michelle ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso em regime domiciliar. Pessoas próximas à ex-primeira-dama ouvidas pela reportagem da Gazeta do Povo avaliam que a situação atual do marido limita a possibilidade de viagens frequentes pelo país e exige uma campanha mais concentrada em Brasília, com compromissos selecionados e maior uso das redes sociais.
As primeiras movimentações da campanha já evidenciaram essa dinâmica. Michelle não participou da convenção do PL no Distrito Federal que oficializou a candidatura dela ao Senado por causa de uma crise de enxaqueca. Na última quarta-feira (5), ela também ficou fora do anúncio de Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice na chapa de Flávio.
Segundo a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), Michelle permaneceu em casa para cuidar de Bolsonaro e preparar a alimentação do marido. “Michelle está fazendo comida para o marido. A gente tentou trazer ela agora, mas ela está neste exato momento fazendo comida para o esposo. Não tem cozinheira, cuidador. Tem um cuidador de cachorro. Está tudo bem entre Flávio e Michelle”, afirmou Damares.
A estratégia local será sustentada por aliados próximos, principalmente Damares e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP). As duas deverão ajudar a representar Michelle em agendas e mobilizações quando ela não puder comparecer. “Onde você não for, eu vou estar”, disse Damares à ex-primeira-dama, segundo relato de Celina sobre as conversas para organizar a campanha.
A concentração no Distrito Federal contraria, em parte, a expectativa inicial do PL nacional de utilizar Michelle como um dos principais cabos eleitorais de Flávio pelo país. A influência da ex-primeira-dama entre mulheres, evangélicos e o eleitorado conservador é considerada um ativo muito próprio e relevante pela campanha presidencial.
Integrantes do PL admitem que o apoio de Michelle ao enteado está mantido, mas a tendência é que a participação dela em agendas nacionais seja pontual, preservando como prioridade a própria disputa pelo Senado e os cuidados com Jair Bolsonaro. “Que a chapa Flávio-Alfredo possa ser vitoriosa”, escreveu Michelle nas redes sociais após o anúncio da chapa do PL à Presidência.
Damares e Celina formam núcleo político da campanha de Michelle
A proximidade de Michelle com Damares Alves e Celina Leão antecede a candidatura ao Senado. As três estreitaram a relação durante o governo Jair Bolsonaro e estiveram juntas em agendas políticas pelo país e nas eleições municipais de 2024. Agora, essa relação deverá se traduzir em uma atuação coordenada na disputa do Distrito Federal.
Celina terá ainda a vantagem de disputar a reeleição ao governo do Distrito Federal no mesmo campo político de Michelle. A expectativa no entorno da governadora é que as duas candidaturas se reforcem localmente, enquanto Damares, que já ocupa uma cadeira no Senado, ajude na mobilização de segmentos nos quais a ex-primeira-dama construiu influência, especialmente entre mulheres e evangélicos.
A influência da governadora sobre as articulações de Michelle ficou evidente também durante a recente crise com Flávio. Foi na residência oficial de Celina, em Brasília, que foram construídas as mensagens usadas pelos dois para encerrar publicamente o desentendimento. A estratégia foi discutida pela governadora com Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial, antes de Flávio divulgar o pedido de desculpas à madrasta.
Além das aliadas políticas, a rede montada para a primeira disputa eleitoral de Michelle passa pela sua própria família. O irmão dela, Diego Torres, foi escolhido como suplente na candidatura ao Senado e já assumiu uma função pública ao representá-la na convenção do PL-DF, quando leu a carta preparada pela ex-primeira-dama.
Nos bastidores da rotina familiar, outra irmã, Geovana Kathleen Ferreira Lima, tem ajudado nos cuidados com Jair Bolsonaro e com Laura, filha mais nova do casal. Foi ela, por exemplo, quem permaneceu com o ex-presidente enquanto Michelle precisou ir ao hospital para tratar a crise de enxaqueca no último fim de semana. A presença da irmã foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
“Quem vê de fora enxerga apenas a ex-primeira-dama. Mas ela é uma esposa. As pessoas falam que a direita não gosta de mulher. Vamos mostrar que o Distrito Federal terá três mulheres na chapa majoritária”, disse Celina, em referência a ela própria, Michelle Bolsonaro e à deputada federal Bia Kicis (PL), também pré-candidata ao Senado.
Reconciliação com Flávio preserva Michelle como ativo da campanha presidencial
A agenda própria de Michelle na disputa pelo Senado não significa um afastamento da campanha presidencial. Depois do desentendimento público com Flávio Bolsonaro, os dois reconstruíram a relação e passaram a fazer acenos de unidade. Para o PL, essa recomposição é importante principalmente pelo peso que a ex-primeira-dama mantém entre parcelas do eleitorado de direita.
A percepção aparece na pesquisa Genial/Quaest divulgada na última quarta-feira (5). Segundo o levantamento, 59% dos entrevistados avaliaram positivamente a reconciliação entre Michelle e Flávio. O índice chega a 88% entre os eleitores classificados como de direita não bolsonarista e a 90% entre aqueles que se identificam como bolsonaristas.
A pesquisa também mediu o possível impacto da ex-primeira-dama na corrida presidencial. Entre os eleitores de direita não bolsonarista, 70% avaliam que a participação de Michelle aumenta as chances de vitória de Flávio. O percentual sobe para 79% entre os bolsonaristas.
Para o cientista político Jairo Pimentel, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), os números ajudam a explicar por que a recomposição tem valor eleitoral para o candidato do PL. “Ela funciona, portanto, como um sinal de unidade e legitimidade, diminuindo resistências ao candidato e facilitando a transferência do capital político de Jair Bolsonaro”, afirmou Pimentel.
A avaliação do cientista político é que o movimento recente de Flávio nas pesquisas está mais relacionado à consolidação do eleitorado de direita do que à conquista de eleitores de centro. Segundo ele, o senador “reúne a família, recupera a direita que estava dispersa e se consolida como o herdeiro efetivo do bolsonarismo”.
Na pesquisa Genial/Quaest, Lula aparece com 44% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 39% de Flávio. A diferença entre os dois caiu de oito para cinco pontos percentuais desde julho, quando o presidente registrava 45% e o candidato do PL, 37%.
A pesquisa Genial/Quaest ouviu 2.004 eleitores entre os dias 31 de julho e 3 de agosto de 2026. O levantamento foi encomendado pela Genial Investimentos, tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06591/2026.








