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A percepção de perda do poder de compra dos brasileiros atingiu o pior nível desde outubro de 2025, segundo pesquisa de intenção de voto* para o Palácio do Planalto realizada pela Quaest para a Genial Investimentos. Em abril, 71% dos entrevistados consideram que a situação piorou comparativamente a um ano atrás.
A sensação é maior (72%) entre quem ganha até dois salários mínimos, uma das principais bases eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). E é nesse grupo que a percepção de perda do poder de compra mais cresceu em relação à pesquisa anterior: a alta foi de 13 pontos percentuais na comparação com o levantamento de março.
Segundo a pesquisa, o público dessa faixa de renda é o que mais aprova o governo Lula (57% de aprovação, contra 37% de desaprovação). Nas demais faixas, com renda superior, a desaprovação à administração petista supera a aprovação.
Também é no grupo com renda de até dois salários mínimos que o candidato à reeleição tem maior intenção de voto. Conforme a pesquisa Quaest, 49% dos brasileiros desse grupo pretendem votar em Lula e 23%, em Flávio Bolsonaro (PL), com o restante do eleitorado dividido entre outros candidatos, indecisos, brancos e nulos.
Nas demais faixas de renda, Flávio supera Lula: 36% a 31% no grupo que ganha de dois a cinco salários mensais e 39% a 30% no de mais de cinco pisos salariais.
Uma das principais causas na perda do poder aquisitivo dessa faixa de renda foi a alta nos preços de alimentos e bebidas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos 12 meses encerrados em março de 2026 houve uma alta de 2,16%, revertendo sete meses de desaceleração nesta categoria.
A elevação nos preços concentrou-se nos últimos três meses, com aumento de 2,07%, ficando atrás apenas de educação (5,25%) e transportes (3%). Os produtos que mais subiram foram tomate (45,4%), feijão carioca (28,1%) e batata (14%).
Inflação de alimentos e a erosão da renda na base de Lula
A percepção de alta de preços dos alimentos nos mercados atingiu 72% em abril — o maior nível desde julho de 2025, segundo a pesquisa Quaest/Genial Investimentos. Ela cresceu com mais força entre aqueles que ganham até dois salários-mínimos, passando de 56% em dezembro para 72%.
Segundo Maria Andréia Lameiras, técnica de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a inflação em março, que foi a maior desde fevereiro de 2025, afetou desproporcionalmente as classes baixas e médias-baixas.
Enquanto a classe alta registrou o menor aumento de preços, as famílias com renda mensal domiciliar entre R$ 2,3 mil e R$ 5,7 mil enfrentaram inflação de 0,9% (classe baixa) e 0,91% (classe média-baixa) — ambas acima do IPCA geral. A diferença reflete o peso desproporcional dos alimentos na cesta de consumo das famílias de menor renda.
O levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) sinaliza que a confiança dos consumidores se deteriora em meio a taxas historicamente baixas de desemprego: em fevereiro, a taxa foi de 5,8%, a menor para o mês desde o início das pesquisas feitas pelo IBGE, em 2012.
A contradição é política: apesar do mercado de trabalho robusto, a inflação de alimentos corrói o poder de compra das classes baixas e médias-baixas — a base eleitoral tradicional do governo Lula.
"Além de reduzir o salário real das pessoas de baixa renda, que gastam 22% da renda em alimentos, há uma percepção mais geral de que a alimentação tem impactado bastante o orçamento mensal da família", diz o pesquisador Luz Guilherme Schymura, do FGV Ibre.
Geopolítica e a deterioração das expectativas econômicas
Pressões adicionais nos preços devem continuar nos próximos meses devido ao aumento no preço do petróleo e de seus derivados, provocado pela escalada de tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã — conflito que afeta os mercados globais.
Desde 28 de fevereiro, quando a escalada de tensões se intensificou, o preço do litro do diesel nas bombas aumentou 23%, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Quando o diesel fica mais caro, toda a cadeia de transporte de alimentos sofre, refletindo-se diretamente na cesta básica do consumidor — especialmente daqueles que ganham até dois salários-mínimos.
Essa deterioração da cadeia de suprimentos reflete-se diretamente na percepção do consumidor. Metade dos entrevistados (50%) considera que a economia brasileira piorou nos últimos 12 meses — o pior nível desde dezembro de 2025, quando 38% compartilhavam essa avaliação. A deterioração de 12 pontos percentuais em quatro meses reflete a intensificação das pressões inflacionárias, especialmente a partir do final de fevereiro.
As expectativas para os próximos 12 meses também se deterioraram. O percentual dos que acreditam em melhora caiu de 48% em janeiro para 40% em abril, enquanto aqueles que avaliam que a economia vai ficar do mesmo jeito cresceram de 19% para 23%, sinalizando um ceticismo crescente sobre a recuperação econômica. A deterioração das expectativas é percebida tanto nas projeções de especialistas quanto no mercado financeiro.
A XP Investimentos reviu para cima sua projeção de inflação para alimentos e bebidas consumidos no domicílio em 2026, passando de 4,2% para 5,3%. Um El Niño forte no segundo semestre poderia adicionar cerca de 0,2 ponto percentual à projeção de inflação, segundo o economista Alexandre Maluf, da XP.
A inflação esperada seguiu trajetória similar. No fim de 2025, o mercado esperava 4%. A projeção caiu para 3,9% antes da escalada de tensões no Oriente Médio, mas agora já está em 4,8% — acima do teto da meta de 4,5% fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
No mercado financeiro, o ponto médio das expectativas no boletim Focus do Banco Central para a taxa Selic ao fim de 2026 estava em 12,25% ao ano em 31 de dezembro de 2025. A projeção caiu para 12% em 23 de fevereiro, sinalizando otimismo temporário. Mas, semanas depois, em 20 de março, devido às pressões inflacionárias geradas pela escalada de tensões no Oriente Médio, a expectativa subiu para 12,5% ao ano — refletindo a reversão do sentimento.
*Metodologia da pesquisa citada: A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 9 e 13 de abril. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-09285/2026.








