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Inflação

Eleitor de Lula sente mais a perda do poder de compra

Percepção de perda do poder de compra cresceu mais entre quem ganha até dois salários mínimos, uma das principais bases eleitorais de Lula.
Percepção de perda do poder de compra cresceu mais entre quem ganha até dois salários mínimos, uma das principais bases eleitorais de Lula. (Foto: André Borges/EFE)

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A percepção de perda do poder de compra dos brasileiros atingiu o pior nível desde outubro de 2025, segundo pesquisa de intenção de voto* para o Palácio do Planalto realizada pela Quaest para a Genial Investimentos. Em abril, 71% dos entrevistados consideram que a situação piorou comparativamente a um ano atrás.

A sensação é maior (72%) entre quem ganha até dois salários mínimos, uma das principais bases eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). E é nesse grupo que a percepção de perda do poder de compra mais cresceu em relação à pesquisa anterior: a alta foi de 13 pontos percentuais na comparação com o levantamento de março.

Segundo a pesquisa, o público dessa faixa de renda é o que mais aprova o governo Lula (57% de aprovação, contra 37% de desaprovação). Nas demais faixas, com renda superior, a desaprovação à administração petista supera a aprovação.

Também é no grupo com renda de até dois salários mínimos que o candidato à reeleição tem maior intenção de voto. Conforme a pesquisa Quaest, 49% dos brasileiros desse grupo pretendem votar em Lula e 23%, em Flávio Bolsonaro (PL), com o restante do eleitorado dividido entre outros candidatos, indecisos, brancos e nulos.

Nas demais faixas de renda, Flávio supera Lula: 36% a 31% no grupo que ganha de dois a cinco salários mensais e 39% a 30% no de mais de cinco pisos salariais.

Uma das principais causas na perda do poder aquisitivo dessa faixa de renda foi a alta nos preços de alimentos e bebidas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos 12 meses encerrados em março de 2026 houve uma alta de 2,16%, revertendo sete meses de desaceleração nesta categoria.

A elevação nos preços concentrou-se nos últimos três meses, com aumento de 2,07%, ficando atrás apenas de educação (5,25%) e transportes (3%). Os produtos que mais subiram foram tomate (45,4%), feijão carioca (28,1%) e batata (14%).

Inflação de alimentos e a erosão da renda na base de Lula

A percepção de alta de preços dos alimentos nos mercados atingiu 72% em abril — o maior nível desde julho de 2025, segundo a pesquisa Quaest/Genial Investimentos. Ela cresceu com mais força entre aqueles que ganham até dois salários-mínimos, passando de 56% em dezembro para 72%.

Segundo Maria Andréia Lameiras, técnica de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a inflação em março, que foi a maior desde fevereiro de 2025, afetou desproporcionalmente as classes baixas e médias-baixas.

Enquanto a classe alta registrou o menor aumento de preços, as famílias com renda mensal domiciliar entre R$ 2,3 mil e R$ 5,7 mil enfrentaram inflação de 0,9% (classe baixa) e 0,91% (classe média-baixa) — ambas acima do IPCA geral. A diferença reflete o peso desproporcional dos alimentos na cesta de consumo das famílias de menor renda.

O levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) sinaliza que a confiança dos consumidores se deteriora em meio a taxas historicamente baixas de desemprego: em fevereiro, a taxa foi de 5,8%, a menor para o mês desde o início das pesquisas feitas pelo IBGE, em 2012.

A contradição é política: apesar do mercado de trabalho robusto, a inflação de alimentos corrói o poder de compra das classes baixas e médias-baixas — a base eleitoral tradicional do governo Lula.

"Além de reduzir o salário real das pessoas de baixa renda, que gastam 22% da renda em alimentos, há uma percepção mais geral de que a alimentação tem impactado bastante o orçamento mensal da família", diz o pesquisador Luz Guilherme Schymura, do FGV Ibre.

Geopolítica e a deterioração das expectativas econômicas

Pressões adicionais nos preços devem continuar nos próximos meses devido ao aumento no preço do petróleo e de seus derivados, provocado pela escalada de tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã — conflito que afeta os mercados globais.

Desde 28 de fevereiro, quando a escalada de tensões se intensificou, o preço do litro do diesel nas bombas aumentou 23%, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Quando o diesel fica mais caro, toda a cadeia de transporte de alimentos sofre, refletindo-se diretamente na cesta básica do consumidor — especialmente daqueles que ganham até dois salários-mínimos.

Essa deterioração da cadeia de suprimentos reflete-se diretamente na percepção do consumidor. Metade dos entrevistados (50%) considera que a economia brasileira piorou nos últimos 12 meses — o pior nível desde dezembro de 2025, quando 38% compartilhavam essa avaliação. A deterioração de 12 pontos percentuais em quatro meses reflete a intensificação das pressões inflacionárias, especialmente a partir do final de fevereiro.

As expectativas para os próximos 12 meses também se deterioraram. O percentual dos que acreditam em melhora caiu de 48% em janeiro para 40% em abril, enquanto aqueles que avaliam que a economia vai ficar do mesmo jeito cresceram de 19% para 23%, sinalizando um ceticismo crescente sobre a recuperação econômica. A deterioração das expectativas é percebida tanto nas projeções de especialistas quanto no mercado financeiro.

A XP Investimentos reviu para cima sua projeção de inflação para alimentos e bebidas consumidos no domicílio em 2026, passando de 4,2% para 5,3%. Um El Niño forte no segundo semestre poderia adicionar cerca de 0,2 ponto percentual à projeção de inflação, segundo o economista Alexandre Maluf, da XP.

A inflação esperada seguiu trajetória similar. No fim de 2025, o mercado esperava 4%. A projeção caiu para 3,9% antes da escalada de tensões no Oriente Médio, mas agora já está em 4,8% — acima do teto da meta de 4,5% fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

No mercado financeiro, o ponto médio das expectativas no boletim Focus do Banco Central para a taxa Selic ao fim de 2026 estava em 12,25% ao ano em 31 de dezembro de 2025. A projeção caiu para 12% em 23 de fevereiro, sinalizando otimismo temporário. Mas, semanas depois, em 20 de março, devido às pressões inflacionárias geradas pela escalada de tensões no Oriente Médio, a expectativa subiu para 12,5% ao ano — refletindo a reversão do sentimento.

*Metodologia da pesquisa citada: A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 9 e 13 de abril. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-09285/2026.

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