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Escalada de crise no Supremo

Qual o peso do STF na eleição de domingo?

STF Eleição
Embates entre ministros do STF e do TSE voltaram a ganhar força na reta final do primeiro turno da eleição. (Foto: André Borges - EFE)

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A crise do Supremo Tribunal Federal (STF) voltou a escalar a quatro dias do primeiro turno das eleições, acendendo o alerta sobre a possibilidade de afetar votos decisivos em um cenário de disputa apertada. A mais prejudicada pode ser a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A temperatura da Corte havia arrefecido após o pedido de vista do ministro Flávio Dino, em 15 de setembro, que suspendeu a análise de uma questão de ordem relacionada às petições do caso do Banco Master envolvendo supostos diálogos de Daniel Vorcaro, ex-dono do banco, com o ministro Alexandre de Moraes.

Mas a disputa em torno da retirada de publicações sobre Nossa Senhora Aparecida, iniciada na sexta-feira (25), desencadeou um novo ciclo de embates entre os ministros. Naquele dia, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a remoção de conteúdos que associavam Flávio Bolsonaro (PL) à suposta intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.

Em decisão monocrática, Flávio Dino derrubou no domingo (27) a determinação e liberou a circulação das publicações, sob o argumento de proteção à liberdade de expressão e religiosa.

Na segunda-feira (28), Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino e restabeleceu a ordem de Mendonça para que os conteúdos fossem retirados do ar. Fux determinou ainda que as plataformas cumprissem a ordem em 24 horas e que o caso fosse submetido ao plenário do STF.

Decisões monocráticas do STF voltam aos holofotes

A sucessão de decisões individuais, em sentidos opostos e em intervalo de poucos dias, recolocou no centro do debate a atuação do Supremo às vésperas da eleição. O episódio levou o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, a manifestar preocupação com uma possível sobreposição entre as decisões do Supremo e da Justiça Eleitoral.

Em ofício encaminhado ao presidente do STF, Edson Fachin, Nunes Marques classificou a situação como uma “indevida sobreposição de competência” e pediu medidas para evitar interferências do Supremo em decisões da Justiça Eleitoral.

"As divergências entre os ministros são muito grandes e continuam sendo expostas à sociedade", diz Leandro Gabiati, da Dominium. "As decisões monocráticas mostram que eles não estão se entendendo e que temos, de fato, problemas dentro do processo decisório do STF, com potencial para impactar o processo eleitoral."

Campanha de Lula está em alerta

A preocupação com os efeitos eleitorais da crise no Supremo ganha relevância para a campanha do presidente Lula. Na pesquisa Datafolha realizada de 15 a 17 de setembro, período que incluiu a sessão do Supremo sobre o caso do Banco Master, 38% dos eleitores apontaram Lula como o candidato prejudicado pela crise envolvendo o STF e o banco, contra 31% que citaram Flávio Bolsonaro.

Entre os eleitores de Flávio, a diferença foi ainda maior: 39% disseram que Lula era o prejudicado, ante 28% que apontaram o próprio candidato. Ao mesmo tempo, 47% dos eleitores disseram que a crise teria alguma influência na definição do voto para presidente, sendo que o percentual foi de 43% entre os eleitores não alinhados nem ao petismo nem ao bolsonarismo.

Os dados não permitem atribuir à crise uma mudança na intenção de voto, mas mostram que, naquele momento, o episódio era percebido como potencialmente mais prejudicial a Lula do que a Flávio.

Gabiati admite que, apesar da falta de dados sobre um impacto negativo direto sobre a campanha de Lula, o mandatário está mais exposto a um desgaste que pode se traduzir em consequência eleitoral.

“O Lula hoje é o presidente da República, estamos num sistema presidencialista", enfatiza. “Tudo que acontece de bom e tudo que acontece de ruim, ainda que o presidente não tenha responsabilidade direta, ele acaba de alguma forma absorvendo o ônus de determinada situação”, explica.

Flávio pode ser beneficiado

Já Murilo Hidalgo, presidente do Instituto Paraná Pesquisas, faz uma leitura mais direta. Para ele, “qualquer crise no STF nesse momento beneficia um pouco o Flávio Bolsonaro” e favorece de maneira mais acentuada candidatos ao Senado que fazem oposição à Corte.

Na avaliação de Hidalgo, isso ocorre porque a percepção de instabilidade institucional pode atingir o presidente da República e porque, na sua leitura, o STF é percebido pela população como mais próximo de Lula.

Adriano Cerqueira, do Ibmec, lembra ainda que os Bolsonaros são identificados por grande parte do eleitorado como as principais "vítimas políticas" do STF.

"O eleitor sabe que Lula contou com forte apoio do STF durante seu governo atual, desde questões fiscais e, recentemente, eleitorais, como a liminar do Gilmar [Mendes] que permitiu o reajuste do Bolsa Família às vésperas da eleição."

A decisão de Gilmar Mendes, de 18 de setembro, reconheceu a validade do reajuste de 15,04% do Bolsa Família e considerou que a medida não afronta as regras eleitorais.

Crise do STF perdeu peso, diz analista

Para Alexandre Manoel, da Global Analytics, o eventual desgaste de Lula decorre da associação com o STF. Embora a dimensão institucional continue relevante, na avaliação dele o Supremo tem perdido peso como fator eleitoral imediato.

Para ele, houve o desgaste de Lula por associação, mas a campanha "mudou de eixo". "Ao deslocar a discussão para temas de impacto mais direto na vida das pessoas — como a proibição das bets, as canetas emagrecedoras e o reajuste do Bolsa Família —, Lula retomou a iniciativa e obrigou os adversários a reagirem à pauta escolhida por ele", afirma.

"As pesquisas mais recentes apontam uma recuperação gradual do presidente, ainda dentro de um quadro de disputa apertada. É cedo para atribuir esse movimento a uma medida específica, mas a mudança de agenda parece ter reduzido o espaço da crise do STF na eleição", explica Manoel.

Na mesma linha, Gabiati afirma que o eleitor pondera outros assuntos, como segurança, economia, poder de compra, inflação, consumo e endividamento. "Lula tem utilizado todas as ferramentas à disposição para tentar garantir a reeleição", observa.

"Ele havia perdido a iniciativa política, mas recuperou espaço com uma série de decisões e políticas públicas, movimento que já se refletiu nas pesquisas mais recentes", pontua Gabiati.

Mesmo assim, Manoel argumenta que a questão central é se Lula conseguirá manter o protagonismo que recuperou ao mudar a pauta da campanha.

No segundo turno, a tendência apontada pelos analistas é de uma disputa ainda mais acirrada, com parte dos votos dos demais candidatos de direita migrando para Flávio. Na visão de Gabiati, ao transformar os números das pesquisas em votos, a diferença entre Lula e Flávio pode ser inferior a 1 milhão de votos. Em 2022, a diferença foi de 2,14 milhões de votos.

"Agora, estamos falando de uma margem que pode representar menos de 1% do eleitorado", diz. "Com uma diferença dessas, uma variação na abstenção pode fazer diferença para um candidato ou para outro”, afirma o cientista político.

Metodologia das pesquisas citadas

Datafolha — 15 a 17 de setembro de 2026: 2.001 entrevistas presenciais, em 125 municípios, com eleitores de 16 anos ou mais de todas as regiões do país. Margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. Registro no TSE: BR-04029/2026.

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