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Durante quase três décadas na política paulistana, Milton Leite (União Brasil) construiu uma estrutura de poder que chegou a sete mandatos como vereador. Elegeu sucessores, ganhou espaço dentro do partido e se tornou um interlocutor de diferentes prefeitos e governadores.
A prisão do ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo na reta final do primeiro turno — que ocorre no próximo dia 4 de outubro — coloca agora essa estrutura à prova. O impacto, porém, não se distribui da mesma maneira entre todos que estiveram próximos a Leite.
Enquanto os filhos chegam às vésperas da votação pressionados pela ligação direta com o pai, a disputa pelo espaço deixado por ele começa a movimentar a Câmara Municipal e o União Brasil paulista. Ao mesmo tempo, o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), e o governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), procuram delimitar o caráter das relações que mantiveram com o ex-vereador.
Leite foi preso no último dia 18, após se apresentar à polícia, no âmbito da operação Vectura Corrupta. A investigação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo apura a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público, além de suspeitas de corrupção de agentes públicos e financiamento de campanhas eleitorais.
A decisão judicial cita Leite como responsável pela operação de empresas que, de acordo com a investigação, estariam sob influência da facção, incluindo a Transwolff. Ele nega envolvimento com o PCC e também nega ser proprietário da empresa.
Nesta quarta-feira (23), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido liminar apresentado pela defesa para que ele fosse colocado em liberdade. O pedido de anulação da decisão que decretou a prisão ainda deverá ser analisado no julgamento definitivo do habeas corpus.
Ao se entregar, Leite afirmou que terá oportunidade de provar a própria versão. “Terei oportunidade de provar tudo. Me apresentei conforme prometido”, disse a jornalistas. Questionado se se arrependia de algo, respondeu: “Só se arrepende quem comete crime”.
Filhos trocam de cadeira e entram na reta final sob pressão
A prisão ocorre no momento em que dois dos principais sucessores políticos de Milton Leite tentam trocar de posições no Legislativo. Alexandre Leite (União Brasil) exerce o quarto mandato consecutivo como deputado federal, cargo que ocupa desde 2011, e concorre a uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Milton Leite Filho, por sua vez, está no quinto mandato como deputado estadual e disputa uma vaga na Câmara dos Deputados. Até esta quarta-feira, de acordo com dados disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os dois haviam recebido quase R$ 3,7 milhões do União Brasil para as campanhas.
Alexandre recebeu R$ 385 mil da direção estadual e outros R$ 483,3 mil da nacional. Para Milton Leite Filho foram repassados R$ 2,1 milhões pela direção nacional e R$ 687,3 mil pelo diretório paulista.
A estrutura familiar alcança o comando partidário. A página oficial do União Brasil lista Alexandre Leite como presidente do diretório paulista e Milton Leite como tesoureiro. No diretório nacional, o ex-vereador ocupa uma das vice-presidências da legenda.
Para Érico Oyama, consultor de Estados e Municípios da BMJ Consultores Associados, a ligação familiar torna os dois candidatos mais suscetíveis ao desgaste reputacional provocado pela investigação. Por outro lado, o formato das eleições proporcionais reduz a possibilidade de uma campanha centrada em ataques diretos de adversários.
"Diferentemente das disputas majoritárias, nas eleições para deputado há centenas de candidatos buscando grupos específicos de eleitores e defendendo pautas próprias", diz Oyama. "Isso faz com que a consequência mais provável para os filhos esteja na decisão individual do eleitor que associe as candidaturas à situação do pai", complementa ele.
Os integrantes do grupo político reagiram publicamente defendendo Leite. Em nota conjunta, Alexandre e Milton Leite Filho disseram ter “tranquilidade e confiança” de que os fatos serão esclarecidos com respeito ao devido processo legal e ao direito de defesa.
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Milton Leite fez sucessores na Câmara Municipal
A estrutura política montada por Milton Leite não se limita aos filhos. Antes de deixar a Câmara Municipal, ele ajudou a eleger três nomes próximos ao grupo: Silvão Leite, Silvinho Leite e Pastora Sandra Alves, todos do União Brasil.
Silvão, ex-chefe de gabinete de Milton, e Silvinho, que trabalhou no grupo político da família e ao lado de Alexandre Leite, chegaram à Câmara em 2024 com bases concentradas na periferia. Pastora Sandra Alves também foi eleita naquele ano com apoio de Leite e agora disputa uma vaga de deputada federal pelo União Brasil.
Os três se manifestaram publicamente após a prisão. Silvão afirmou considerar “estranho” que o caso tenha vindo à tona na reta final da campanha e falou em “armações”. Silvinho disse que permanecerá ao lado de Leite, enquanto Pastora Sandra publicou mensagem de solidariedade e afirmou estar orando pelo ex-vereador.
Força de Milton Leite foi construída com órbita na capital
Apesar das posições partidárias que lhe deram projeção estadual, a base do poder de Milton Leite foi construída na cidade de São Paulo. Ele permaneceu na Câmara Municipal entre 1997 e 2024 e se tornou o presidente mais longevo da Casa desde a redemocratização.
De acordo com Oyama, permanecer na política municipal também foi uma escolha. Mesmo com capital eleitoral para disputar cargos de deputado estadual ou federal, Leite preferiu concentrar esforços na capital e trabalhar pela eleição de nomes próximos.
A longevidade lhe deu interlocução com diferentes grupos e poder sobre a agenda da Câmara. "Ninguém se mantém na presidência por tantos anos sem ter uma boa interlocução com vários espectros políticos", aponta Oyama.
Relação com o prefeito teve aproximações e rupturas
A influência construída na prefeitura de São Paulo não significa que Milton Leite e Ricardo Nunes sempre tenham integrado o mesmo grupo político. A relação entre os dois teve momentos de forte aproximação institucional, mas também de conflitos públicos.
Em julho de 2024, durante a campanha pela reeleição de Nunes, Leite chegou a declarar que a relação com o prefeito estava “péssima” e disse que repensava o apoio ao emedebista. Dias depois, as negociações entre União Brasil e MDB envolveram espaços na administração municipal e a sucessão ao comando da Câmara.
Para Oyama, episódios como a privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) mostram como a relação funcionava. O consultor lembra que Leite não foi um defensor de primeira ordem do projeto, mas contribuiu para que as discussões de interesse da gestão estadual avançassem na capital.
“Houve um alinhamento e um bom relacionamento institucional, mas o Ricardo Nunes e o Milton Leite nunca foram aliados de primeira ordem”, afirma Oyama.
Depois da prisão, Nunes adotou discurso semelhante. Disse que "cada um" deve responder pelos próprios atos e ressaltou que caberá a Leite apresentar a defesa e ao Ministério Público comprovar as acusações. O prefeito também afirmou que ter aliados na Câmara não significa assumir responsabilidade pela conduta individual deles.
A prefeitura paulistana, por sua vez, afirma que tomou medidas contra empresas suspeitas antes da atual operação. Em nota, disse que interveio na Transwolff em abril de 2024 por determinação judicial e, por iniciativa própria, também na UPBus. Os contratos foram posteriormente encerrados.
Após a operação Vectura Corrupta, Ricardo Nunes criou um grupo de trabalho para analisar os elementos da investigação. A prefeitura de São Paulo também afastou dirigentes da A2 Transportes citados por suposto envolvimento com pessoas ligadas a empresas investigadas.
A mesma tentativa de delimitação ocorreu no governo estadual. Tarcísio de Freitas participou do lançamento das candidaturas de Alexandre Leite e Milton Leite Filho.
A Federação União Progressista formalizou apoio à reeleição do governador em São Paulo. Após a operação, porém, Tarcísio definiu a relação com Milton Leite como "institucional" e disse que o relacionamento era voltado a projetos.
Prisão abre espaço para aliados de Nunes na Câmara
O efeito dentro da estrutura montada por Milton Leite começa a se tornar mais concreto. A prisão enfraqueceu a articulação feita pelo ex-vereador para manter influência sobre a presidência da Câmara Municipal.
Leite havia participado de um acordo para que o grupo continuasse com espaço no comando da Casa, mas a nova configuração abriu caminho para nomes ligados a Ricardo Nunes. Entre eles está o vereador João Jorge (MDB), que passou a aparecer nas articulações para assumir a presidência em 2027. A eleição da mesa diretora está prevista para dezembro.
O movimento coincide com a avaliação feita por Oyama de que o principal efeito político da prisão tende a aparecer no médio prazo justamente dentro da Câmara.
Mesmo após deixar o mandato, Milton Leite conseguiu preservar parte da influência sobre vereadores e aliados. Sem o cacique na articulação, esses grupos podem perder espaço para uma base mais diretamente ligada ao prefeito, que terá dois anos de mandato depois da eleição da próxima Mesa.
Também há mudanças dentro da Federação União Progressista. De acordo com a CNN Brasil, Leite deixará o comando político compartilhado da federação em São Paulo e a substituição deverá ser discutida depois das eleições 2026. A situação do diretório estadual do União, presidido por Alexandre Leite, também entrou nas discussões internas.
Caso mostra limite nacional da força de um cacique regional
Oyama avalia que a influência de Milton Leite sempre esteve muito mais concentrada na capital paulista do que em Brasília. Embora ocupe uma das vice-presidências nacionais do União Brasil, o comando da legenda está nas mãos de Antonio Rueda, enquanto os parlamentares do partido construíram bases eleitorais próprias.
A prisão expõe, assim, o limite da força de lideranças regionais dentro de grandes partidos: elas podem organizar sucessões, influenciar diretórios e negociar com diferentes governos sem que esse poder se reproduza na mesma proporção nacionalmente.
A extensão eleitoral do desgaste será conhecida nas urnas. A disputa pelo espaço político que Milton Leite acumulou durante quase três décadas em São Paulo, porém, já começou.










