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A cada dois anos, a abertura do sistema de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais (DivulgaCand) do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) transforma a prestação de contas dos candidatos em uma espécie de fechadura por onde é possível espiar a vida privada dos políticos brasileiros. Longe da frieza dos números que somam mansões, cotas societárias e aplicações de renda fixa, a safra de declarações do pleito de 2026 revela uma lista singular de itens.
De coleções históricas e calçados esportivos a máscaras mortuárias, o inventário do patrimônio declarado de nossos políticos apresenta diversos itens inusitados. A exigência legal de declarar o patrimônio visa garantir a transparência e fiscalizar a evolução de bens de quem disputa cargos públicos.
Na prática, no entanto, a natureza autodeclaratória do formulário abre espaço para que itens do cotidiano, acervos raros e peças de coleção — muitas das quais de difícil avaliação real do valor pecuniário — dividam espaço na mesma tabela em que figuram fundos multimercados milionários e grandes propriedades rurais.
Conforme consulta feita pela reportagem da Gazeta do Povo na tarde da última sexta-feira (28), o TSE havia recebido 20.791 pedidos de registro de candidaturas país afora — e, junto com eles, mais de 20 mil declarações de bens dos postulantes a cargos públicos nas eleições deste ano.
Não há, a princípio, checagem das declarações por parte da Justiça Eleitoral. Apesar disso, uma investigação pode ser solicitada pelo Ministério Público Eleitoral (MPE) ou partido político em caso de alguma suspeita, e a autoridade eleitoral pode determinar a apresentação da declaração de Imposto de Renda fornecida à Receita Federal.
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Máscara mortuária de Mário de Andrade é avaliada em R$ 150 mil
Um dos destaques mais curiosos da atual safra eleitoral de declaração de bens veio da declaração do candidato Mauro Rosa (PL), que disputa um assento na Câmara dos Deputados pelo estado do Rio de Janeiro. Em sua prestação de contas apresentada à Justiça Eleitoral, o político registrou formalmente a posse de uma máscara mortuária do escritor Mário de Andrade, avaliada por ele em R$ 150 mil.
O item — uma peça de gesso que molda as feições do modernista logo após a morte — divide espaço na lista do candidato com esculturas do renomado artista Alfredo Ceschiatti e peças de arte sacra, estimadas no mesmo levantamento em R$ 30 mil.
Paulo Horn (PSB), candidato a uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), possui uma coleção de moedas, selos e quadros que vale R$ 80 mil, conforme declaração de bens apresentada.
O que antes costumava ser omitido ou diluído na categoria genérica de "outros bens móveis”, como coleções variadas, passou a ser especificado por candidatos na declaração de bens. Benedito Corrêa (PSB), candidato a deputado estadual em São Paulo, declarou ao TSE possuir R$ 9 mil em 12 pares de tênis de corrida — mais R$ 10 mil em duas bicicletas esportivas.
Também candidato à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Sílvio Sanzone (PSD) declarou ao TSE uma coleção de trenzinhos em miniatura (ferromodelismo) no valor de R$ 150 mil. O candidato a deputado federal pelo estado paulista Professor Fernando Moreira (Solidariedade) declarou uma coleção de selos postais, também no valor de R$ 150 mil.
Carlos Lyrio, candidato do PT a deputado estadual no Espírito Santo, declarou um violão espanhol de R$ 20 mil, junto com quadros no valor de mais R$ 100 mil. Candidato ao mesmo cargo, Sargento Nunes (PL) declarou uma máquina retroescavadeira adquirida em leilão avaliada em R$ 84 mil.
Outro item inusitado que aparece nas declarações de patrimônio neste ano é uma espada — declarada pelo vice na chapa presidencial de Renan Santos (Missão), Coronel Medina (Missão). Medina afirma que a espada vale R$ 10 mil. No patrimônio apresentado à Justiça Eleitoral do candidato, há ainda uma medalha de ouro no valor de R$ 200 mil.
Também chama a atenção a declaração de bens de Fernando Gorgen (Podemos), candidato a deputado federal por Mato Grosso. Ele declara a posse de 50% do motel “Las Vegas”, no município de Querência, que vale R$ 75 mil.
Quem teve expressiva evolução no patrimônio
Algumas declarações chamam atenção pela evolução impressionante se comparadas com as de eleições passadas do mesmo candidato. É o caso de Leonardo Avalanche (PRTB), o vice de Pablo Marçal na corrida pela Presidência da República, que declara ter mais de R$ 491 milhões em criptomoedas ao TSE neste ano — em 2018, ele declarou um patrimônio total de R$ 379,8 mil, uma alta patrimonial de 84.700% em oito anos.
Relógios também chamam a atenção na lista de bens declarados ao TSE. O deputado estadual Adriano Coelho (MDB), do Pará, tenta a reeleição. Ele declarou possuir um relógio Patek Philippe de R$ 549 mil. Alexandre Baldy (PP), primeiro suplente da candidata ao Senado por Goiás e esposa do candidato à presidente Ronaldo Caiado (PSD), Gracinha Caiado (União), declarou R$ 1,3 milhão em relógios de grife.
No extremo oposto, candidatos como Samara Martins (UP), postulante à Presidência da República, apresentaram à Justiça Eleitoral patrimônios modestos: um veículo Fiat Uno Vivace no valor de R$ 29 mil e R$ 4 mil depositados em caderneta de poupança. Hertz Dias (PSTU) e Rui Costa Pimenta (PCO), também candidatos a presidente do país, formalizaram junto ao TSE não possuir bem algum registrado em seus nomes.
No total, mais de um terço dos candidatos registrados para as eleições de 2026 informou ao TSE que não possui bens. O número chegava a pelo menos 6.933 candidaturas no dia 20 de agosto, ou mais de 30% dos registros disponíveis na base eleitoral.






