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O desfecho da sessão histórica desta terça-feira (15) no Supremo Tribunal Federal (STF), que analisava se o ministro Alexandre de Moraes poderia ser investigado por sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, traz preocupações adicionais para a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta reta final rumo ao primeiro turno. A votação ocorre em 4 de outubro.
Uma eventual confirmação de investigação contra Moraes era o cenário preferencial da campanha petista, porque permitiria que Lula se apresentasse como defensor da apuração e se afastasse gradualmente do ministro. Mas a sessão foi interrompida sem a conclusão da questão de ordem sobre o julgamento e muito menos com a análise de mérito sobre as acusações contra Moraes.
A interrupção mantém o impasse na Corte e prolonga a necessidade de afastamento do mandatário de Alexandre de Moraes, estratégia antecipada pela Gazeta do Povo. Depois da sessão, petistas enxergaram a necessidade de intensificar essa estratégia, especialmente após Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aproveitar o horário eleitoral para fazer um pronunciamento sobre o caso e voltar a associar Lula a Moraes.
Na propaganda política obrigatória desta terça-feira, o candidato do PL afirmou que os dois fazem parte de um “sistema apodrecido”. A associação havia sido explicitada por Flávio no ato de 7 de setembro, na Avenida Paulista, quando afirmou que "quem vota em Lula também vota em Alexandre de Moraes".
O problema é que o pedido de vista que interrompeu a sessão foi justamente de Flávio Dino, indicado por Lula ao STF depois de ter ocupado o Ministério da Justiça na atual gestão federal. Dino foi celebrado pelo petista pela chegada do que classificou como “um comunista no STF”. Antes de ingressar na política, Dino era juiz federal; em 2006, deixou a magistratura para disputar uma vaga de deputado federal pelo PCdoB.
Um dos argumentos de Lula em relação a Moraes era associá-lo ao governo de Michel Temer, que o indicou ao STF. Agora, com Dino, esse argumento perde força. “É um distanciamento impossível”, avalia o estrategista eleitoral Roberto Reis.
Por outro lado, a campanha de Lula avalia que o enfraquecimento de Moraes na sessão pode ser explorado para tentar transferir a crise para dentro do próprio Supremo. Para isso, a ideia é que Lula passe a citar nominalmente os ministros ao cobrar investigações.
Até então, Lula vinha usando uma fórmula genérica — defender que tudo fosse investigado “doa a quem doer” — sem mencionar Moraes diretamente. Antes da sessão, a orientação registrada no núcleo da campanha era evitar citações nominais aos ministros.
Para Reis, no entanto, o episódio coloca Lula ainda mais no centro que envolve a crise da Corte e pode reforçar, entre parte dos eleitores, a percepção de uma atuação política de membros do STF na blindagem a Moraes.
“O que aconteceu hoje [ontem, no Supremo] tem uma característica muito ruim para quem queria diminuir a temperatura: houve uma sessão extraordinária, troca pública de acusações entre ministros, impedimento, suspeição e discussão sobre a própria forma de conduzir o caso”, analisa Reis. “Efeito contrário do esperado”, acrescenta ele.
Campanha de Lula em segundo plano
Cientista político e diretor da Dominium Consultoria, Leandro Gabiatti avalia que o episódio no STF desvia a atenção das campanhas. “A campanha de Lula tem estado em segundo plano", diz.
"E isso acontece num momento em que há um desgaste principalmente pela economia em relação ao governo dele. Essa dificuldade se reflete no melhor desempenho de Flávio e na piora do desempenho de Lula”, opina ele.
Mesmo assim, Gabiatti não acredita que o Supremo tenha se transformado em uma variável determinante para a maioria dos eleitores. “Uma grande maioria na Quaest aponta que a questão do Supremo não está influenciando o seu voto”, diz. “O que estão dizendo é: 'todo mundo está envolvido, nivela todo mundo por igual. Então, Supremo, Master não altera meu voto'.”
No levantamento, 67% disseram que a crise no STF não influencia no voto para presidente; 22% afirmaram que o episódio reforça a escolha já feita e 7% consideram mudar de candidato. Entre os independentes, 66% disseram que a crise não altera o voto, 19% que reforça a escolha e 9% consideram mudar.
A pesquisa Quaest divulgada em 14 de setembro entrevistou 2.004 eleitores entre 10 e 13 de setembro, presencialmente, em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com 95% de confiança, e o levantamento está registrado no TSE sob o protocolo BR-03607/2026.
Já Roberto Reis entende que o impasse gerado pela sessão pode funcionar como um gatilho para uma parcela dos eleitores. “A decisão central sobre a investigação de Alexandre de Moraes não teve uma conclusão simples e imediata. Talvez o eleitor queira resolver isso na urna.”
Ofensiva digital
A menos de três semanas para o primeiro turno, a campanha de Lula ampliou a atuação nas redes sociais combinando o conteúdo dos perfis oficiais do candidato com uma rede de militantes, influenciadores e comunicadores mobilizados pelo PT. A mudança ocorre depois de meses de preocupação dentro do partido com a dificuldade de competir com a mobilização digital da direita.
A iniciativa "Pode espalhar" treina apoiadores para atuar como porta-vozes de Lula nas redes, com sugestões de conteúdo, orientações e materiais para compartilhamento. Ampliada em junho para estruturar uma rede nacional de militantes, a plataforma oferece conteúdos para diferentes redes sociais, incluindo vídeos verticais para stories e reels do Instagram e para o TikTok, além de grupos e comunidades no WhatsApp e no Telegram. Também disponibiliza a ferramenta de inteligência artificial "LuIA" para auxiliar os apoiadores na busca por conteúdos.
No domingo (13), Lula participou de uma transmissão ao vivo com militantes, influenciadores e comunicadores, depois de uma série de atos do PT pelo país. Durante a transmissão, pediu que os apoiadores disseminassem a “verdade” na reta final e combatessem o que chamou de desinformação. Lula também explorou temas econômicos, como inflação e poder de compra, atacou Flávio Bolsonaro e falou sobre a investigação do caso Master.
O esforço inclui ainda uma frente de reação a conteúdos considerados desfavoráveis. Em agosto, a campanha de Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o que classificou como uma ação coordenada de disseminação de conteúdos falsos sobre o preço dos alimentos.
A representação citou publicações semelhantes feitas por influenciadores ligados ao PL. A disputa passou a envolver também acusações recíprocas entre as campanhas sobre uso de perfis falsos e inteligência artificial.
Dados recentes divulgados pela campanha do PT indicam aumento do engajamento. Segundo levantamento do núcleo de comunicação de Lula, os perfis do presidente e do PT lideraram as interações na última semana. No Instagram, Lula registrou 5,7 milhões de interações, contra 5 milhões de Flávio Bolsonaro, enquanto o PT teve 3,2 milhões, ante menos de 1 milhão do PL. No domingo (13), a live de Lula durante a mobilização petista teve 270 mil visualizações.
A disputa, porém, ocorre em um ambiente no qual os eleitores de Lula ainda aparecem menos expostos a influenciadores e grupos de mensagens do que os eleitores de Flávio. Pesquisa Datafolha realizada no início do mês mostrou que, entre usuários de redes sociais que viram conteúdo eleitoral, 55% dos eleitores de Lula disseram ter visto publicações de influenciadores e 43%, em grupos de WhatsApp ou Telegram. Entre os eleitores de Flávio, os índices foram de 68% e 55%, respectivamente.
Foram 2.002 entrevistados pelo Datafolha Instituto de Pesquisas, de 1º a 3 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo grupo Folha da Manhã, do Jornal Folha de São Paulo, Globo Comunicação e Participações S.A.,TV Rede Globo, GloboPlay Eletromídia. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE nº BR-03669/2026.








