
Das mesas esfumaçadas para as telas da tevê e do computador. De simples apostadores a ídolos. Uma febre mundial aquecida pela tecnologia transformou a clássica imagem do pôquer. O duelo das cartas ultrapassou os cassinos, ganhou transmissões ao vivo, invadiu a internet e rejuvenesceu o famoso carteado. Em 2008, o dinamarquês Peter Eastgate, de 22 anos, tornou-se o mais novo campeão mundial do estilo Texas Holdem. Pé-de-meia precoce garantido com o prêmio US$ 9 milhões no World Series of Poker (WSOP).
O recém-milionário faz parte da uma nova linhagem. Uma evolução com contribuição paranaense. Esta semana, o curitibano Alexandre Gomes, de 27 anos, comemorou um ano de uma façanha inédita. Em 30 de junho de 2008 ele tornou-se o primeiro brasileiro a conquistar o Bracelete de Ouro, prêmio dado ao vencedor de uma das etapas do WSOP.
Ele bateu 2.317 competidores na edição 48. Além da joia cravejada de brilhantes, o ex-advogado que gostava de jogar truco em torneios amadores recebeu US$ 770.540,00, equivalente a R$ 1,540 milhão (30% ele garante terem sido retidos como impostos nos Estados Unidos).
Na sexta-feira foram dadas as cartas a milhares de participantes no evento principal do WSOP em Las Vegas. A mesa final será realizada apenas em novembro. Estar entre os finalistas é o plano de Allingomes junção do All in, ato de apostar todas as fichas, com o sobrenome do jogador.
Com esse apelido ele se inscreveu na internet há cinco anos. Era uma alternativa a quem não tinha onde jogar e não queria gastar muito dinheiro. Esse encontro virtual dos jogadores foi a alavanca para tornar o estilo Texas Holdem no limit (sem limite pode-se apostar todas as ficham em uma jogada) em uma febre e também numa indústria.
As páginas de jogos funcionam 24 horas. O ápice ocorre aos domingos, quando 200 mil usuários turbinam o faturamento anual calculado em bilhões de dólares dos sites especializados em apostas.
Alexandre Gomes fazia parte dessa estatística. Nas madrugadas após o trabalho multiplicava o investimento que começou com US$ 100 no site Poker Stars. Ele decidiu estudar em blogs e livros para melhorar a sua performance com as cartas. Conseguiu.
Não foram apenas seus adversários nas mesas virtuais que viram o "nick" Allingomes escalar o ranking dos vencedores. De olho no potencial do curitibano, o Poker Star resolveu patrociná-lo. Algo como um atleta ser bancado por uma grande empresa de material esportivo. Adeus à advocacia. O pôquer virava profissão para o curitibano.
A televisão foi o passo seguinte. Transformou jogadores em celebridades, ampliou o público e potencializou de vez a nova versão do tradicional jogo. Quando a ESPN passou a transmitir as rodadas do Texas Holdem, lances como dupla e trinca até o cobiçado royal straight-flush ganharam status esportivo. Hoje o pôquer está entre os esportes (como defendem ser seus praticantes) mais vistos nos canais a cabo nos Estados Unidos. Atrás apenas do futebol americano, beisebol, às vezes à frente da NBA.
Conotação ainda diferente da brasileira. No país segue a polêmica sobre a legalidade do pôquer. Os jogos de azar são proibidos no país, mas os praticantes ignoram o rótulo de contravenção penal, encampam a definição de jogo de habilidade e encorpam os torneios virtuais e campeonatos, cada vez mais concorridos.
O país já possui um campeonato brasileiro de pôquer, o Brasilian Series of Poker (BSOP), disputado em 11 etapas, uma delas na capital paranaense.
"Curitiba é considerada a capital do pôquer, porque tem muitos participantes, bons resultados nas competições e porque o Alexander Gomes é daqui", defende o presidente da Associação Paranaense de Poker (Apoker), Rodrigo Poli.
A etapa curitibana realizada no fim de maio bateu recorde de participantes.
"Esperávamos 350, mas foram quase 500 (478 inscritos). No Sul, pelo fato de as pessoas terem mais acesso e vontade de buscar informações, está se disseminando mais rápido. O pôquer cresceu muito", diz o diretor de torneios da BSOP, Elton CZ. "Um dos fatores é a mídia. O povo está entendendo a diferença entre o pôquer esportivo e o jogo de azar. O pôquer surge como um esporte, o cara entra para ser campeão. Entra para receber os benefícios, entre eles o financeiro, os troféus, o prestígio de ser reconhecido", prossegue, com a convicção de quem não está blefando.








