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A Polícia Federal encontrou no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro uma troca de mensagens com o telefone que seria supostamente do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), na qual o parlamentar teria intermediado um empréstimo de ao menos R$ 22 milhões do Banco Master para uma empresa controlada por sua cunhada, Bianca Medeiros. A garantia era a própria empresa, avaliada em R$ 100 mil.
As conversas, recuperadas dentro das apurações da Compliance Zero e confirmadas pela reportagem, mostram Motta tratando com o ex-banqueiro para viabilizar o crédito à irmã de sua esposa em uma operação que foi aprovada em menos de uma semana e a uma empresa recém-adquirida. A empresa possuía capital social de R$ 100 mil no momento em que pegou R$ 22 milhões emprestados.
Chama atenção que, em 8 de março de 2024, a cunhada de Motta adquiriu a totalidade das cotas da ETC Participações. Sete dias depois, em 15 de março, a mesma empresa assinou contrato de empréstimo com o Master no valor milionário e usou as próprias cotas recém-adquiridas da ETC como garantia da operação. Assim, o empréstimo equivaleria a 220 vezes ao patrimônio registrado da companhia no momento da contratação.
A Gazeta do Povo procurou a empresa e a cunhada de Hugo Motta, mas até a publicação da reportagem elas não haviam se manifestado. A reportagem também indagou o parlamentar se ele de fato intermediou a liberação do empréstimo, mas o deputado não respondeu aos contatos.
À época da aquisição da empresa, a sede estava registrada em São José dos Campos, no interior de São Paulo, mas foi transferida para João Pessoa (PB) em outubro de 2024.
Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o dinheiro do empréstimo foi utilizado em abril daquele ano na aquisição de um terreno de mais de 400 hectares em João Pessoa onde funcionava uma antiga fábrica de cimento desativada. O espaço será transformado, ainda de acordo com o jornal, em um novo bairro da capital paraibana. O valor total pago pelos terrenos teria sido de R$ 45 milhões, sendo parte financiada pelo empréstimo do Master.
Posteriormente, o empréstimo teria sido lastreado em um terreno com valor compatível ao crédito ao imóvel adquirido depois, em parte com o próprio dinheiro liberado pelo banco. Ou seja, no momento em que o contrato de crédito foi assinado, a garantia oferecida eram as cotas de uma empresa de R$ 100 mil, não o terreno que ainda seria comprado supostamente com o próprio recurso do dinheiro tomado emprestado.
À Folha, a assessoria da cunhada de Motta afirmou que o contrato de crédito foi celebrado "em condições usuais de mercado, mediante garantias fiduciárias compatíveis com o valor da operação". Disse ainda que a escolha do Master foi pelas condições negociais e operacionais apresentadas naquele momento e que a empresa "não possui qualquer relação societária, comercial ou de gestão com o deputado ".
Questionada sobre os valores e condições de quitação, a empresária não respondeu aos questionamentos da Gazeta do Povo. A defesa de Vorcaro não se manifestou sobre a operação de crédito.
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O que a PF encontrou no celular de Vorcaro
A operação ganhou dimensão política depois que a PF extraiu mensagens do celular de Daniel Vorcaro que indicariam que Hugo Motta solicitou pessoalmente ao banqueiro a liberação do financiamento. Os diálogos foram recuperados por meio de ferramentas forenses e integram relatórios internos que a corporação analisa para decidir se há indícios suficientes para aprofundar formalmente as investigações.
Os investigadores examinam ainda se existe relação de reciprocidade entre o empréstimo e uma emenda parlamentar que propunha obrigar seguradoras e instituições financeiras a destinar recursos ao mercado de créditos de carbono, setor que, segundo a PF, beneficiaria diretamente os negócios da família de Vorcaro.
Questionado pelo Estadão se o parlamentar havia falado diretamente com Vorcaro para liberar os R$ 22 milhões, Motta disse que a reportagem não iria “arrancar” dele uma declaração, que não iria confirmar a informação porque não tinha obrigação de fazê-lo. Ainda ao jornal, sua linha de defesa pública se concentrou no argumento de que a operação financeira observou os parâmetros do mercado e que o empréstimo está sendo regularmente quitado, sem ilegalidades.
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Motta pede investigação "isenta e imparcial"
Com o acúmulo de informações que se tornaram públicas desde a última semana, Hugo Motta declarou defender uma apuração "isenta e imparcial" sobre todos os fatos relacionados ao Caso Master. Interlocutores do presidente da Câmara dizem que ele não pretende se afastar do cargo na Câmara.
As informações sobre Motta surgem em meio ao avanço de uma das investigações mais complexas da história do sistema financeiro brasileiro. O Caso Master, que deu origem à Operação Compliance Zero, chegou na última semana à sua nona fase, tendo mirado até agora banqueiros, operadores financeiros, ex-governadores e parlamentares. O celular de Vorcaro, cujo desbloqueio exigiu o uso de softwares forenses sofisticados, uma vez que Vorcaro se recusou a fornecer as senhas, se tornou o principal fornecedor de evidências da investigação.
A PF já apreendeu ao todo mais de 100 dispositivos eletrônicos entre todos os investigados. O ex-banqueiro teve duas propostas de delação premiada rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, sob o argumento que praticamente tudo o que ele se propunha a revelar já havia sido descoberto e comprovado pela perícia técnica dos aparelhos.
Para os investigadores, o material recolhido até agora traçou um mapa de relações entre Vorcaro e figuras influentes dos três Poderes da República, incluindo conversas, registros de pagamentos, históricos de geolocalização e documentos que atestam uma rotina de supostos favores e vantagens distribuídos a parlamentares e autoridades.













