
Recordes costumam ser motivo de comemoração como a festa em torno do nadador Cesar Cielo, que em 2009 fez os menores tempos da história nos 50 e 100 metros livre. Outra marca, porém, destacou-se mais no ano esportivo brasileiro: o de maior número de atletas flagrados usando doping. Foram 46 exames positivos em 2009 para o uso de substâncias proibidas.
Até então o ápice era de 31 testes, em 2004. Há cinco temporadas, o futebol foi o esporte com maior número de quedas (11); e os anabolizantes foram os campeões de uso, encontrados em 15 verificações. Agora, o atletismo encabeçou a lista, com 17 aparições deflagradas, seguido do futebol (10). A eritropoietina (EPO) apareceu 12 vezes.
O Paraná teve quatro atletas envolvidos, todos flagrados pelo uso da droga do momento: a EPO. Luciana França, atleta dos 400 m com barreira, da Rede Atletismo; Alex Arseno, Alcides Vieira e Cléberson Weber, da equipe DataRo, de ciclismo, compõem o grupo. Todos condenados a dois anos de suspensão.
"Foi um número surpreendente. Há tempos não tínhamos casos de doping e este ano foram oito (uma absolvição, a de Maurício Morandi). Acredito que os ciclistas viram que não dá para arriscar e esse número deve cair novamente em 2010", diz o presidente da Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC), José Luís Vasconcellos.
O dirigente não descarta que os atletas tenham subestimado a fiscalização. A confederação faz, anualmente, 280 exames por ano, em provas internacionais. "Pelo custo do exame (de R$ 500 a R$ 1 mil, cada), não temos como fazer em outros períodos", conta.
A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) é uma daquelas que adotaram os exames-surpresa. O resultado foi um dos casos mais surpreendentes do ano: os cinco atletas da Rede Atletismo flagrados pelo uso de EPO às vésperas de disputarem o Mundial de Berlim, em agosto. Eles não teriam sido informados de que a substância injetada em seus corpos, sob a orientação do técnico Jayme Netto e do fisiologista Pedro Balikian Junior, era vetada.
O positivo para furosemida (diurético) no teste da ginasta Daiane dos Santos, em novembro (ainda luta nos tribunais pela absolvição), e da triatleta Mariana Ohata também chamaram a atenção.
Mariana foi suspensa seis anos do esporte. Ela já havia sido flagrada em 2002, pelo uso de um derivado de anfetamina. Na natação, a jovem Lorena Rezende foi flagrada pelo uso de anfetamina no Troféu José Finkel deste ano. Ela afirmou que usou um suplemento alimentar e não sabia que continha produtos proibidos.
O "eu não sabia" é um argumento comum dos atletas para se defenderem. Uma justificativa fraca, afirma uma fisioculturista que prefere não se identificar. Ela diz acreditar que todo atleta de alto rendimento sabe bem o que ingere ou aplica no próprio corpo. "Fora da temporada de competição, muitos atletas usam produtos ilícitos e assim não caem nos testes", conta.
O desconhecimento da lista de produtos proibidos não convence a Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês). "Segundo o Código Mundial da entidade, cabe ao atleta exercitar o seu auto-controle", afirma o doutor em Ciências do Esporte e autor do livro Leis Antidoping, Alberto Puga.
No campo do Direito, o flagrante por doping acarreta a chamada responsabilidade objetiva ou seja: o atleta será responsável, independentemente de ter culpa.
O presidente da Associação Brasileira de Estudo e Combate ao Doping (ABECD), Alexandre Pagnani, defende que as confederações também sejam responsabilizadas. "Elas têm de esclarecer o atleta que, muitas vezes, não tem condições de sozinho saber o que pode usar ou não. A questão vai além. Falta uma política de investimentos contra o doping", diz.
Ele se refere ao fato de grande parte das Confederações não aplicarem testes fora de competições internacionais. "Uma solução seria incluir na legislação que parte da receita da Lei Piva deva ser destinada à aquisição de exames", sugere.




