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Tiago Recchia

Rosquinha de polvilho

Tio Wal é um indignado por natureza. Curitibano ultraconservador, está sempre com um jornal embaixo do braço e um guarda-chuva na mão. Veste um indefectível paletozinho surrado, calça de tergal idem e um sapato mais rodado do que o mais velho táxi da cidade. Ontem Tio Wal deixou na portaria do meu prédio duas folhas de caderno escrito à mão algo que vou tentar traduzir aqui:

Buenas, Tiago.

Estava pensando sobre o problema de onde será o Atletiba, já que a PM e o Ministério Público fincaram pé proibindo por questões de segurança o Janguito. O clássico poderia ser muito bem ser realizado no Couto, mas o Coxa possivelmente vai usar os mesmos argumentos do início do campeonato, que tem de preservar os lugares de seus sócios pagantes, etc e tal.

É impressionante como nossos dirigentes de futebol são irritantes! Sabemos que o Paranaense não é grande coisa, mas o Coxa não podia fazer um esforcinho para torná-lo menos pior? Não estou dizendo que o CFC é obrigado a ceder seu campo, seja por empréstimo ou locação. A propriedade é privada e seu dono a dispõe como achar melhor. Mas é óbvio que um Atletiba naquele que se apresenta como o estádio menos ruim seria melhor para aquele detalhe sempre tão ignorado pelos nossos dirigentes: os torcedores.

O Coxa já deixou claro que só joga em seu estádio na condição de mandante. Nossos dirigentes precisam urgente consultar um dicionário para aprenderem a diferença entre rivalidade e picuinha. Jamais ouvi que o São Paulo tenha negado seu campo para Corinthians, Palmeiras ou Santos; que a torcida são-paulina tenha abraçado o Morumbi, ou outra bobagem dessas. Isso se chama maturidade. Além do mais, futebol é negócio, entretenimento e tem custo. Nada melhor do que distribuir esses custos entre o maior número possível de parceiros.

Claro, não dá para jogar apenas na conta do Coxa essa falta de maturidade para lidar com o negócio futebol, pois ainda não esquecemos daquela proibição de dar a volta olímpica na Arena, quando o Coxa conquistou o Estadual. Talvez a origem disso tudo seja a famigerada regra de que o mandante tem carga de 90% dos ingressos contra 10% do visitante. Tem coisas que só existem no Brasil: Jabuticaba, Pororoca e esta estúpida distribuição da carga de ingressos.

A alegação de que isso é para melhorar a segurança é uma estultice. Será que já não chegou a hora dos dirigentes e do poder público pararem de subestimar a inteligência do povão? No alto dos meus 60 anos, nunca presenciei tanta estupidez.

Bem, Tiago, isso é só um desabafo. Espero não ter lhe chateado. Passe lá em casa qualquer dia desses para tomar um café com rosquinha de polvilho que minha velha faz como ninguém.

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