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Cotidiano

A Copa em 14 polegadas

Em meio à alta tecnologia que cerca o Mundial sul-africano, maioria da população brasileira ainda se vê obrigada a torcer com limitações extremas

Sidnei (dir.) acompanha o jogo ao lado do cunhado Luís Gonçalves, da sogra Zélia Gomes Gonçalves e dos filhos: família unida para torcer pelo sucesso da seleção de Dunga | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Sidnei (dir.) acompanha o jogo ao lado do cunhado Luís Gonçalves, da sogra Zélia Gomes Gonçalves e dos filhos: família unida para torcer pelo sucesso da seleção de Dunga (Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo)

Nesta Copa do Mundo nunca a tecnologia esteve tão em evidência. É transmissão em alta definição, testes em três dimensões, câmera sobrevoando o campo e câmera superlenta. Mesmo assim, para uma grande parcela da população brasileira, o Mundial é o mesmo de anos atrás: uma televisão 14 polegadas e muita torcida.

É o caso do catador de papel Sidnei Soares das Neves, de 29 anos. Pai de três crianças – duas com algum grau de deficiência mental, problema semelhante ao da esposa –, Neves se sustenta com um salário de R$ 200, além de R$ 120 do Bolsa Família. ­Com isso, o morador da Vila das Torres, em Curitiba, vive em quatro cômodos, totalizando cerca de 20 metros quadrados, na esperança de que um dia chegue a sua vez na fila da Cohab.

Mesmo assim, inovações chamam a atenção do papeleiro. "Eu gosto de tecnologia. Fiz até um curso de informática. Tem de ser atualizado", garantiu Neves, contando que já ouviu falar em televisão de alta definição, a HD. "Eu vi por foto, por ilustração. Chamou a atenção a qualidade."

O avanço tecnológico que o catador de papel almeja, porém, é bem mais simples. E passa pelo fato de ter conseguido um computador. "Eu quero colocar internet aqui. Eu sei mexer e é bom para educar as crianças. Todos os vizinhos têm. Por que o Sidnei não?", indagou, em terceira pessoa.

Não é só a falta de internet que diferencia a família Neves dos vizinhos. Mesmo em um lugar de baixa renda como a Vila das Torres, a miséria destes brasileiros é assustadoramente maior do que a dos companheiros de bairro. Por todo o lado do terreno, entre restos recicláveis, muitos entulhos e sujeira, gerando um cheiro característico.

Entre casas de alvenaria da vila está o barraco de Sidnei, que fica ao lado da casa de compensado e madeira da sogra, Zélia Gomes Dias Gonçalves. Essa residência é maior, com cerca de 64 metros quadrados, divididas também em quatro cômodos.

A senhora de 57 anos abriga mais dois filhos, sendo que Luís Carlos Gonçalves, o mais velho, sofre de dois problemas: uma deficiência mental leve e uma paralisação de uma das pernas, fruto de intervenções médicas somadas ao abuso de álcool. A renda, cerca de mil reais, é fruto das pensões que Zélia e Gonçalves recebem.

Para assistir à partida entre Brasil e Portugal, na última sexta-feira, a maioria da família se reuniu no quarto de Gonçalves, um dos maiores cômodos. Nele, entre quadros religiosos, como de São José, padroeiro dos trabalhadores e da família, estava uma das três tevês das casas, tendo perto de 20 anos de idade, mas com ótima imagem. A reportagem da Gazeta do Povo acompanhou todo o jogo ao lado deles, quando, mesmo com todas as dificuldades, destacou-se a hospitalidade dos moradores. Tanto que, no fim, a única reclamação de todos foi do futebol apresentado naquele dia na África do Sul.

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