Imagens do cotidiano de Dar Es Salaam: guarda anda com a escopeta a tiracolo | Albari Rosa/Gazeta do Povo – Enviado especial
Imagens do cotidiano de Dar Es Salaam: guarda anda com a escopeta a tiracolo| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo – Enviado especial

Economia

Gás e petróleo rendem lucros para o Brasil

O Brasil tem planos ambiciosos para uma parceria comercial com a Tanzânia. Gás e petróleo na cos­­ta do país africano, banhada pelo Oceano Índico, estão na mira brasileira a partir de 2011. A Petrobras está construindo plataformas no litoral e o planejamento é faturar bem mais do que os US$ 50 milhões já conseguidos neste ano.

"Queremos arrecadar US$ 1 milhão por dia assim que as plataformas de extração estiverem todas trabalhando no ano que vem", revela o embaixador brasileiro Francisco Luz, na Tanzânia há dez meses. O diplomata está se preparando para a visita do presidente Lula no início de julho. O petista virá ao leste africano a caminho da final da Copa. No encontro com as autoridades tanzanianas, novos acordos de exploração de gás serão assinados.

"Esse jogo é um sonho para eles. Quando me falaram que seria possível, achei que era um sonho e eles estavam confundindo com a visita do Lula", confessa o embaixador, que representou o Brasil em um encontro que pretendia espalhar a mensagem de "chutar longe" a malária da África.

  • mulher carrega o filho nas costas
  • Burca esconde o rosto de adeptas do islamismo
  • Ônibus velho transita pelas ruas da cidade

Próximo ao moderno estádio onde o Brasil enfrentou a Tanzânia, na zona portuária de Dar Es Sa­­­laam, a pobreza deixa o fato de a se­­leção brasileira ter visitado o país em último plano. Outras prioridades, como conseguir qualquer moeda que um estrangeiro possa arrumar, são bem mais urgentes na paupérrima região.

Ao avistar a reportagem internacional, os tanzanianos corriam para tentar algo. Ofereciam passeios ao turístico arquipélago de Zanzibar, ao mercado pesqueiro local e, até mesmo, escolta a pé nas perigosas ruas e alamedas.

As imagens da cidade não são muito diferentes de qualquer outra metrópole pobre africana. Ônibus precários para todos os lados, filas de desempregados sentados em bancos de praça e sujeitos mal-encarados olhando de onde podem tirar alguma vantagem.

Com uma grande influência muçulmana, a Tanzânia também mostra cenas típicas do Oriente. Na margem do Oceano Índico, mulheres com burcas cobrindo todo o corpo (inclusive o rosto) aparecem em cada esquina.

Em um cenário desses, o futebol dos "Samba Boys" (Garotos do Samba) é extremamente admirado, mas poucos têm acesso a informação suficiente para ver e saber de Kaká ou Luís Fabiano.

Prova disso foi o público abaixo das expectativas no luxuoso Estádio Nacional Benja­­min Mkapa. Certamente, a plateia era composta pela minoria rica que domina o país.

"Sou pintor de navio e ganho US$ 150 por mês. Como vou pagar US$ 25 para ir ao estádio. Já me dou por satisfeito em ver na televisão", disse Abdul Saidi, que vestia roupas fétidas e rasgadas em frente ao embarque para Zanzibar, sobre os bilhetes da partida, que chegaram a custar US$ 180. "Sou fã do Pelé. Vi ele jogar na Tanzânia nos anos 70", lembrou, referindo-se a uma das muitas excursões do Santos.

Como a nação menos precária da região leste africana, a Tanzânia ainda recebe imigrantes de outros países bem mais miseráveis. Os moçambicanos (antiga colônia portuguesa) são cerca de 1 milhão de pessoas na terra vizinha.

Falar português pelas ruas de Dar Es Salaam significa ser rapidamente reconhecido pelos imigrantes. Simpatia não falta. O que eles não possuem é dinheiro.

"Trabalho como taxista aqui há cinco anos. É muito difícil viver nessa situação. Somos muito pobres. Tanto em Moçambique como na Tanzânia faltam escolas e emprego", lamenta o moçambicano Paulo Domingo, que vive na Tanzânia com o irmão Kassimo.

Outro moçambicano, Evance Jonhpita, é pescador. Com os US$ 200 que arrecada por mês, sustenta família e conterrâneos chegados recentemente e sem emprego.

"Levo vocês [jornalistas brasileiros] andando ao mercado de pesca, ao hotel e à orla. Não quero cobrar nada, mas estou com fome", pediu, pouco se importando de as estrelas da seleção brasileira estarem a pou­­cos quarteirões de distância.

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