
Quem vê Ricardo Pereira, de 44 anos, gritando com a garotada, agasalho e apito na boca, não imagina que a verdadeira profissão dele não tem relação com o futebol. O curitibano de nascimento, carioca de coração e sul-africano por adoção, na verdade é chef de cozinha, tem uma churrascaria, e virou treinador quase por acaso na África do Sul.
"Futebol eu sempre gostei, até mais do que a cozinha. O problema é que eu cozinho bem melhor do que jogo bola", brinca o rígido treinador que, exatamente por ter esse estilo disciplinador, resgatou a equipe sub-10 do Edenvale, um bairro localizado na parte leste de Johannesburgo.
Tudo começou por uma insatisfação pessoal. O filho, também Ricardo, de 9 anos, atuava na equipe já fazia um ano. Mas era duro para o pai ir aos jogos e ver o goleiro a posição escolhida pelo garoto ser uma espécie de saco de pancadas.
"Chegou uma hora que não deu mais. Nenhum pai aguentava. O time só perdia e os garotos iam saindo ao poucos. Os pais já não queriam trazer os meninos para os treinos...", conta.
Foi quando o brasileiro resolveu agir. Ofereceu-se para treinar o time, foi aceito e fez uma espécie de revolução na prática esportiva no bairro. Comprou cones, varas e algumas bolas de tamanho proporcional aos da categoria.
Para melhorar a equipe, ligou para a casa de alguns pais outros vieram pelo boca a boca. Afinal, estava acontecendo algo diferente por ali. Era só chegar à beira do gramado e ver com os próprios olhos.
"Antes os treinos eram só com bola. Agora os garotos têm treinos físicos e táticos", afirma Alexandre Botelho, que é português de nascimento, um dos interessados na empreitada.
O nome de seu filho é Alessandro, tem 10 anos e é um dos que estão sempre na mira do treinador. Geralmente, Sandro, como é chamado pelo pai, dá um toque um pouco mais forte do que o necessário na bola.
Quem chega ao treino vê vários carros à volta do gramado e muitos adultos conversando por ali. São os pais, que acabaram se conhecendo e formando uma espécie de grupo. Para eles também virou diversão os trabalhos de sábado pela manhã. Ainda mais depois que a equipe recuperou o gosto pela vitória.
Desde que o campeonato começou, foram duas derrotas, um empate e quatro vitórias. Tudo isso de forma progressiva ou seja, o time está invicto faz cinco partidas.
"Acho que eles compraram a forma de trabalhar", brinca Ricardo, para depois falar sério. "O que falta aqui na África do Sul é base para a garotada. Quando o Parreira veio para cá a primeira vez, ele bateu nisso. Mas ninguém deu muita bola".
Ricardo, contudo, tinha mais simpatia por Joel Santana. O dono do restaurante Brazilian Grill conta que o técnico do Botafogo, no tempo que morou em Johannesburgo, não saia da churrascaria. O proprietário guarda tanto a camisa do Bafana Bafana autografada por Joel como, outra, por Parreira. "Mas o Parreira já é mais assim [certinho], sabe como é."
A vida do brasileiro se acostumou às mudanças. Ele saiu de Curitiba com 4 anos, veio para Johannesburgo com 28 anos, pelo pai, que era piloto da Varig e lhe arranjou um emprego terceirizado da companhia. A partir daí, pulou entre vários empregos, de cozinheiro a gerente de cozinha de hotéis renomados, até conseguir adquirir o Brazilian Grill. Está dando certo, mas ele ainda pensa em um dia voltar ao Brasil.
"O problema é o rand [moeda local]. Se converter para o real, o que tenho fica quatro vezes menor."




