
Se a Copa de 2014 tem um "dono", é bom o Brasil não ouvir muito os seus conselhos. Influenciado pelo discurso otimista da Fifa, que não se cansa de exaltar a organização do Mundial sul-africano, Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do Comitê Organizador Local (COL), já avisou que usará o torneio de 2010 como referência.
Quer fazer igual daqui a quatro anos. Reproduzir a modernidade e praticidade dos estádios não seria nada mal. É o ponto alto da África do Sul. De resto, há mais exemplos negativos do que positivos. O que não deixa de ser bom ao Brasil, facilitando a tarefa de superar a Copa anterior.
O país de Nelson Mandela ousou conceber um campeonato no padrão europeu, mas o plano fracassou. Resta ainda um preço alto a ser pago.
A partir de amanhã, o evento da Fifa deixará um saldo duvidoso para o país. A África do Sul teve de gastar muito dinheiro dos contribuintes. A conta bateu na casa dos 40 bilhões de rands (cerca de R$ 10 bilhões). Algo fabuloso para uma nação que tem 40% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza.
Muito para o território que, de acordo com a ONU, tem as três cidades com maior desigualdade social do mundo. Muito para um país no qual seu presidente, Jacob Zuma, foi eleito com a principal promessa de que levaria serviços básicos à população, coisa como água encanada, energia elétrica e esgoto.
Os serviços básicos não vieram e, com o fim da Copa, contrastam ferozmente com estádios modernos. A perspectiva é de que estádios monumentais como o Soccer City, em Johannesburgo, ou o Green Point, na Cidade do Cabo, sirvam apenas como pano de fundo para os protestos e greves que só deram uma trégua para a realização do Mundial. Ou alguém consegue imaginar, por exemplo, qual a serventia do Mandela Bay, em Porto Elizabeth, um estádio que custou cerca de R$ 600 milhões e agora servirá de casa ao único time local, que está praticamente falido? O Bay United foi recriado em setembro de 2009 apenas para que a praça de esportes tenha alguma serventia.
Mas isso é apenas a ponta de um iceberg que ficará cada vez mais exposto com o fim do campeonato. Para bancar a competição, o governo federal respondeu por mais de 85% do investimento. O montante formou um tripé de prioridades: estádios (11,7 bilhões de rands R$ 2,9 bilhões), transporte (13,3 bilhões de rands R$ 3,3 bilhões) e segurança (1,3 bilhão de rands 325 milhões).
E essa talvez seja a maior lição que fica ao Brasil: evitar ao máximo o desperdício no uso de verbas públicas, que também deve ser a principal fonte de arrecadação do Mundial de 2014. E aplicá-las de maneira adequada. Afinal, se os rands em profusão não deixaram a África do Sul passar vergonha, também não foram suficientes para resolver todos os problemas estruturais do país.
Quem precisou ir e vir, especialmente em Johannesburgo, padeceu. Táxis são raros e nada confiáveis. Os corredores de ônibus, inspirados em Curitiba, foram entregues faltando semanas para a bola rolar. E, mesmo mais baratos, seguros e limpos, não agradaram a população local, que prefere andar espremida nas milhares de vans clandestinas.
A segurança também mostrou falhas. À medida que o Mundial foi se encaminhando para o fim e a vigilância afrouxou, o número de assaltos aumentou consideravelmente.
O Brasil pode e deve fazer melhor. É só fechar os ouvidos para os conselhos da Fifa, que teima em jogar os erros do Mundial sul-africano para debaixo do tapete, e de Ricardo Teixeira. "A África já pode se orgulhar. Tudo ficou pronto e funcionou", discursou o suíço Joseph Blatter, presidente da entidade.




