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Brasil

A arte da guerra

Dunga comanda a seleção com mão de ferro. Controla tudo e põe a mídia como principal inimiga

Jogadores da seleção brasileira chegam ao Hoerskool Randburg, local de treinamento da seleção: único contato com o público foi através do vidro fumê do ônibus estilizado pela Fifa | Valterci Santos/ Gazeta do Povo – enviado especial
Jogadores da seleção brasileira chegam ao Hoerskool Randburg, local de treinamento da seleção: único contato com o público foi através do vidro fumê do ônibus estilizado pela Fifa (Foto: Valterci Santos/ Gazeta do Povo – enviado especial)

Dunga moldou a seleção brasileira à sua imagem e semelhança. Um exército formado por soldados que vão à luta pela "pátria amada", "vencendo obstáculos" diariamente. É a filosofia da guerra que inspira – e motiva – o treinador. "É o mesmo da época em que era jogador", atesta o lateral-direito Maicon.

Metódico, nada acontece dentro do hotel Fairway, concentração do Brasil na África do Sul, sem o seu consentimento. Cuida de tudo. Preocupa-se com tudo. Uma simples falha logística é motivo para cobranças, muitas vezes em um tom acima do normal.

A imprensa é o alvo principal do técnico, o inimigo do momento às vésperas da estreia do país na Copa – amanhã, às 15h30 (de Brasília), contra a Coreia do Norte.

Inflado pela insatisfação em relação ao tratamento dado pelos jornalistas à desavença entre Da­­niel Alves e Júlio Baptista durante um treino na semana passada, Dunga partiu para o contra-ataque. Fechou o portão da Hoerskool Randburg em três oportunidades nos últimos quatro dias, incluindo o trabalho de ontem à noite (horário local).

"Em nove anos que estou na se­­leção é a primeira vez que isso acon­­tece", diz Rodrigo Paiva, diretor de comunicação da CBF. "A ra­­zão de tudo é ele. Todos aqui trabalhamos para o técnico", emenda ele, visivelmente contrariado.

O superpoder estabeleceu in­­formalmente uma cartilha de comportamento dentro do hábitat do time nacional. Para não aborrecer ao chefe, o restante da comissão técnica não dá entrevista. O médico José Luiz Runco por mais de uma vez acenou negativamente a um pedido da imprensa para esclarecer, por exemplo, dúvidas relacionadas à condição física de Júlio César – o goleiro ficou de fora do amistoso contra a Tanzânia, há uma semana, por causa de dores nas costas.

O mesmo vale para Taffarel, observador técnico da CBF, que peregrinou atrás de informação dos norte-coreanos. Está proibido de falar o que viu.

Controle ainda mais rígido há sobre os jogadores. Dunga leva o grupo com mão de ferro. Ninguém ousa desobedecer. Dentro de um trio de opções apresentado por Paiva ainda antes de o desembarque do time em Johannesburgo, o ex-volante escolheu o pacote mais básico. Coletiva uma vez por dia com apenas dois atletas – seguindo uma divisão igualitária entre todos do elenco.

"Há uma hierarquia. O técnico e o supervisor [Américo Faria] es­­tão acima de mim", afirma o diretor. A censura se estende, inclusive, aos dias de folga. Os reservas Gra­­fite e Thiago Silva passaram reto por um grupo de repórteres. "Não dá, não dá... Não podemos", disseram, enquanto passeavam em um shopping.

Restrições que, pelo menos no discurso, não aborrecem aos boleiros – Júlio César se recusou a dar entrevista enquanto esteve lesionado. "São decisões do Dunga que não afetam em nada. É o critério adotado pelo professor", explica Maicon. "Deste jeito ele conquistou a torcida brasileira", completou, fechando a defesa a Dunga.

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