
O ambiente não é nada convidativo, encravado no centro de Johannesburgo. Um prédio baixo, envelhecido, de apenas cinco andares. Para subir é preciso contar com a lógica, já que os botões do elevador foram improvisados os números todos invertidos. Lá em cima, porém, funciona um dos negócios mais lucrativos da África do Sul nesta época de Copa do Mundo: uma fábrica de vuvuzelas, a barulhenta corneta, símbolo do torneio.Kevin Fry, dono do empreendimento que ocupa os dois últimos pavimentos do Crastsman Centre, se mostra reticente no primeiro contato, evitando entrar em detalhes. O sorriso, porém, entrega a felicidade de quem está ganhando muito dinheiro com a mania sul-africana, ainda mais neste momento em que o mundo da bola voltou todas as atenções para o país de Nelson Mandela. "Não tenho do que reclamar. Está realmente bom", diz ele, explicando que apenas cinco companhias disputam o mercado na África do Sul.
O distanciamento, contudo, não dura muito. Logo ele inicia o tour pela bagunçada fabriqueta. Mostra a produção, o estoque e apresenta antigos colaboradores. Sem luxo. Passa por sobras de materiais, pula caixas, retira papéis do caminho... Quer mostrar para a reportagem a "menina dos olhos" da empresa, a novíssima máquina de pintar, adquirida há poucos dias para melhorar a qualidade dos produtos bolas, tacos de bets, capacetes estilosos, canetas e canecos fazem parte do renovado mostruário da Plastic Printers. "Pagamos 650 mil rands (cerca de R$ 162 mil). Vamos melhor em muito a qualidade do que vendemos. Não há nada igual na África do Sul", avisa.
Falar do novo brinquedinho empolga o empresário. É a senha para entregar os novos números da organização. "Estamos produzindo 5.600 vuvuzelas por dia 35% acima do normal. E quase sempre vendemos tudo", revela ele. Cada corneta sai da fábrica por 48 rands (R$ 12). Nos shoppings e no comércio de rua é revendido por 100 rands em média (R$ 25). Por causa da diferença, a companhia só negocia grandes quantidades.
Para suprir a demanda, Kevin contratou 100 funcionários temporários em maio, fechando um quadro de 185 empregados. A escala de trabalho também mudou. Agora vai de segunda a sábado, muitas vezes entrando pela noite. "Não tem problema. Gosto de fazer vuvuzelas. Só não gosto muito do barulho", afirma Tobias Motlmale, 55 anos, há cinco na Plastic Printers. Reclamação compartilhada por alguns jogadores e por emissoras de rádio e televisão um pedido oficial para a proibição da entrada das vuvuzelas nos estádios foi feito e negado pela Fifa. A empresa fechou importantes contratos recentemente com parceiros comerciais da entidade que rege o futebol no mundo, o que ajuda a explicar o período lucrativo (não revelado). O Mc Donalds encomendou canetas. A MTN (telefonia), pequenas bolas de futebol. "Só não conseguímos nada com a Fifa e com a Confederação Sul-Africana. Eles nos mandaram uma carta avisando que não permitiam o uso dos símbolos da Copa e do Bafana, Bafana", explica Kevin, antes de ser interrompido por um intenso barulho que vem da sala de trás. É mais uma "fornada" de vuvuzelas saindo para o mercado.







