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Copa 2014

Lar do Brasil, Teresópolis é terra do descaso

Cidade da região serrana do Rio ainda tem vivas as lembranças e sequelas da maior tragédia climática da história do país

Trator derruba o que restou de uma casa após as fortes chuvas que destruíram a região em 2011: pouco mudou de lá para cá | Albari Rosa, enviado especial/ Gazeta do Povo
Trator derruba o que restou de uma casa após as fortes chuvas que destruíram a região em 2011: pouco mudou de lá para cá (Foto: Albari Rosa, enviado especial/ Gazeta do Povo)
Mesmo aguardando a reconstrução de boa parte da cidade, Teresópolis se enfeitou como pôde para saudar a seleção |

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Mesmo aguardando a reconstrução de boa parte da cidade, Teresópolis se enfeitou como pôde para saudar a seleção

A aposentada Carmina Siqueira (de rosa), de 78 anos, diz que só sobreviveu às fortes chuvas porque

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A aposentada Carmina Siqueira (de rosa), de 78 anos, diz que só sobreviveu às fortes chuvas porque

Flávio da Silva (com a camisa da seleção) aproveitou a proximidade da equipe de Scolari para reclamar do descaso com a população |

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Flávio da Silva (com a camisa da seleção) aproveitou a proximidade da equipe de Scolari para reclamar do descaso com a população

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Nada mudou três anos após a maior tragédia climática da história do Brasil, quando 911 pessoas morreram na região serrana do Rio de Janeiro, 382 em Teresópolis, cidade que abriga a seleção brasileira para a Copa. Nenhuma casa foi entregue a quem perdeu tudo por causa das fortes chuvas. Cerca de 60 mil pessoas permanecem em áreas de risco.

SLIDESHOW: Confira o cenário desolador que ainda impera na região

VÍDEO: Sobrevivente Carmina Siqueira, 78, fala sobre chuvas de 2011 na cidade

Uma delas é Carmina Si­­queira, 78 anos. Em janeiro de 2011, cinco parentes da aposentada foram vítimas da enxurrada que desabou dos morros. "Abriguei mais de 20 pessoas. Balançou demais, mas Deus segurou", relembra, na varanda da moradia equilibrada no alto de uma encosta.

Campo Grande, o bairro onde Carmina segue com o filho Manoel, praticamente sumiu soterrado pela lama. Restaram alguns vizinhos que também não aceitaram o aluguel social oferecido pela prefeitura. Quase todos, entretanto, habitam residências condenadas e têm data limite para recolher o pouco que sobrou e ir embora.

Ontem, tratores e caminhões removiam restos da catástrofe na região. Não há quase ninguém pelas ruas de um cenário pós-guerra. Pichado na parede de uma construção invadida por terra até 1 metro de altura, a frase: "Não votem neles, assinado: condenados".

"Acho que perdi uns 200 conhecidos. Ficou deserto. Os políticos não aparecem mais aqui, temos a companhia dos cachorros só", conta o eletricista Marcos Vidal, 41 anos.

A prefeitura de Teresópolis promete disponibilizar 950 domicílios até o fim do ano. A intenção é fechar 2015 com 1.600. De acordo com os números oficiais, foram 9.110 desalojados e 6.727 desabrigados. Há 130 desaparecidos.

Em 2011, o governo federal destinou R$ 30 milhões para a recuperação da região – R$ 7 milhões para Teresópolis. Logo em seguida, pipocaram denúncias sobre possíveis irregularidades na aplicação dos recursos. Hoje, a maioria dos atingidos recebeu indenização. Entretanto, há insatisfação quanto aos acertos e à falta de reajuste do aluguel social (de R$ 400 a R$ 500 por mês).

"As indenizações não correspondem ao que as pessoas perderam. Outras coisas não fazem sentido. Querem obrigar produtores rurais a irem para apartamentos", critica Flávio Antônio da Silva, 35 anos. Trajado com o uniforme da seleção, com parte do corpo enlameada, o motorista armou um protesto solitário na entrada da Granja Comary, ontem à tarde. Distribuiu aos jornalistas um documento de quatro páginas com reclamações. "Sou metade vítima, metade torcedor. Gosto de futebol, quero que o Brasil seja campeão. Teresópolis é o lar da seleção e do descaso", afirma.

Estada do time de Felipão divide a cidade

A escolha da Granja Comary como base da seleção na Copa divide Teresópolis. A cidade espera receber cerca de 100 mil pessoas, entre turistas e profissionais de imprensa – a população local é de pouco mais de 150 mil habitantes. "Estamos animados. A estada do Brasil pode ajudar na redenção do município após o que aconteceu em 2011", crê Ronaldo Fialho, secretário municipal de Turismo.

A lembrança da tragédia serve também de argumento para detonar a estada. "Temos gente que ainda não tem onde morar. Gastar com a Copa é jogar dinheiro no lixo", diz o garçom Anderson Almeida.

Apesar da expectativa otimista, nem mesmo o secretário garante que Teresópolis se preparou adequadamente. "Fizemos o melhor possível. Mas estamos no Brasil, não na Alemanha", aponta Fialho.

O político destaca a reforma da Praça Luís de Camões e a instalação de internet por Wi-Fi em diversos pontos da cidade. Além disso, há decoração alusiva ao Mundial por toda a parte – imagens exaltando a condição de "casa da seleção brasileira".

Enquanto isso, o prefeito Arlei Rosa (PMDB) pode perder o cargo, acusado de abuso de poder econômico e de meios de comunicação. Rosa é o terceiro a ocupar o posto desde a catástrofe de 2011. O prefeito na época, Mário Jorge, foi cassado por mau uso de verba pública. O vice, Ro­­ber­­to Pinto, assumiu e morreu dois dias depois.

Destruição em Teresópolis

Esportes | 1:19

Senhora espera até hoje, em área de risco, nova casa prometida pela prefeitura de Teresópolis aos atingidos pela tragédia de três anos atrás.

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