
No mundo real, a maior crise econômica desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Na ilha da fantasia do futebol, uma disputa cada vez mais milionária, que acaba de ganhar novos e endinheirados participantes. A Liga dos Campeões abre, hoje, a fase de grupos da sua edição 2012/13 exibindo uma Europa totalmente oposta da que estampa o noticiário econômico e político. E com a Uefa dando mais um passo para aproximar a prosperidade boleira do aperto do dia a dia.
Mais aguardado dos oito jogos previstos para hoje, todos às 15h45 (de Brasília), Real Madrid x Manchester City sintetiza essa disparidade. Ontem, na mesma Madrid em que o governo espanhol anunciava uma aceleração na venda de títulos da dívida pública para se enquadrar no plano de ajuda do Banco Central Europeu , a única crise que pairava sobre o vestiário merengue era entre os jogadores e o técnico José Mourinho.
"Sou amado pelas pessoas que importam mais. Minha família, em primeiro lugar, meus jogadores e minha comissão técnica. Aqui no clube, tenho boas relações com todo mundo", discursou o português, que administra um elenco avaliado em mais de meio bilhão de euros.
Do outro lado, o Manchester City planeja, enfim, dar o passo seguinte no projeto financiado pelo Abu Dhabi United Group. Após sair de uma fila local de 44 anos, os Citzens chegaram à constatação de que os 227 milhões gastos em 2009 não foram suficientes para montar um time capaz de conquistar a Europa. "Precisamos de mais jogadores", disse, em agosto, o técnico Roberto Mancini somente no último dia da janela de transferências o clube torrou 32 milhões em reforços.
Também é nos petroeuros que outros dois clubes calibram sua ambição na Liga. Adquirido pelo Qatar Sports Investments, o Paris-St. Germain passou de força média na França a novo rico do continente. O investimento de 108 milhões levou ao Parque dos Príncipes jogadores como Pastore e Lugano. Classificou-se à LC com um amargo vice-campeonato nacional. Para a atual temporada, o gasto chegou a 128 milhões. Com Ibrahimovic, Thiago Silva, Lavezzi e (a partir de janeiro) Lucas no elenco, o clube pretende brigar pelo título continental.
No auge para o PSG, o sonho árabe acabou de forma amarga para o Málaga. O xeque catariano Abdullah Al Thani gastou, há um ano, 58 milhões para reforçar o time e conseguir a vaga na Liga dos Campeões. A classificação veio, mas o mecenas cansou do brinquedo. Al Thani cortou investimentos, vendeu jogadores e o Málaga precisou raspar o tacho das suas categorias de base para ter o número mínimo de inscritos na fase preliminar. Eliminou o Panathinaikos, mas entra na fase de grupos como potencial saco de pancadas.
Quedas vertiginosas como a do Málaga estão no alvo do fair play financeiro, projeto que a Uefa vem implantando no futebol desde 2009, início da gestão Michel Platini. O primeiro passo foi levantar o prejuízo acumulado dos clubes: endividamento médio de 36% e débito acumulado de 400 milhões em 2009; endividamento de 56% e acumulado de 8,4 bilhões em 2010, em um universo de 650 clubes.
A etapa seguinte foi começar a punir os maus pagadores. Semana passada, a entidade reteve o pagamento de prêmios a 23 clubes europeus, todos em dívida com seus funcionários ou governo dos seus países. Entre os punidos, Málaga, Atlético de Madri e Sporting. Ao fim dessa temporada, a Uefa fará um novo levantamento dos que gastam mais do que arrecadam. Eles terão um ano para ajustar suas contas, sob risco de serem proibidos de disputar competições em 2014/15.
"O fair play financeiro não vai impedir os clubes de comprar jogadores. Apenas queremos que eles gastem o que seus orçamentos comportam", diz Platini, resumindo o projeto em uma simplicidade que parece não ser entendida somente pelo fantasioso mundo do futebol.



