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Futebol feito em casa: contamos os segredos das transmissões na TV durante a pandemia

(Foto: Albari Rosa/Foto Digital/Gazeta do Povo)

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16 de maio de 2020. O jogo RB Leipzig 1 x 1 Freiburg e o clássico Borussia Dortmund 4 x 0 Schalke 04, pela 26ª rodada da Bundesliga, marcaram o retorno da primeira grande liga de futebol durante a pandemia do novo coronavírus.

No Brasil, ESPN e Fox Sports deram o pontapé no "novo normal" das transmissões ao vivo. Em home office, as emissoras da Disney começaram uma maratona de exibições 100% caseiras. Um mundo novo para quem estava na linha de frente das partidas.

"Às vezes o sistema não está legal e não tem comunicação. [O produtor diz] você entra quando eu falar 'vai' no WhatsApp. Aí você fica olhando no WhatsApp e vai", revela o narrador Rogério Vaughan, na ESPN desde 1999.

"É uma dependência total, um laço de confiança. Sincronia da equipe é a palavra. Isso une até mais a equipe nesse desafio, que é fazer transmissão de casa", completa Vaughan.

A distância é o maior desafio. No caso de ESPN e Fox Sports, as equipes ficam completamente em casa, por opção da Disney. Além do narrador, cada transmissão tem ao menos um comentarista, produtor e coordenador.

Na sede das emissoras, no máximo três pessoas por turno para apenas para não deixar o sinal cair. Na era 'pré Covid-19', só na ESPN, eram quase 300 pessoas em quatro períodos diários.

"Não estar do lado do narrador é estranho. Não ter na minha frente um monitor enorme para poder assistir o jogo, que é nosso caso na ESPN, também é ruim. Eu faço pelo computador, você já tem a diferença tecnológica inicial", explica o comentarista Gustavo Hofman.

"Você tem a diferença do contato, do ambiente, de não estar numa cabine de transmissão. Mas partir da segunda, da terceira vez, você já se adapta melhor", admite o jornalista, que agora divide o escritório de casa com a esposa, que já trabalhava no esquema de home office antes da pandemia.

Gustavo Hofman e Rogério Vaughan. Foto: Divulgação/ESPN

Nova rotina

Agora é o trabalho que deve se ajustar à rotina da casa. No caso de Hofman, a adaptação acontece com um "pacote completo", um casal de filhos de oito e quatro anos de idade. O filho de Vaughan já é um adolescente de 12 anos, então é mais fácil compreender a situação excepcional.

A nova maneira de trabalhar, aliás, também tem seus benefícios. Perder horas no trânsito para ir e vir? Esqueça. Um abraço reconfortante da família está somente a um cômodo de distância.

"Emocionalmente, eu me sinto bem, sabia? De repente você acaba de transmitir um jogo e vai entrar num programa daqui a duas horas. Você sai, dá um abraço no seu filho, dá um beijo na sua esposa. Você está em casa. Depois você volta a trabalhar de novo", relata o narrador.

O exemplo acima era impossível anteriormente, especialmente nos finais de semana, quando a exigência é maior para quem trabalha na cobertura esportiva. "Você ganha horas preciosas nesse meio tempo. O efeito na saúde emocional não tem dinheiro no mundo que pague", afirma Vaughan.

Transmissão humanizada

Os canais co-irmãos já exibiram mais 100 partidas desde maio. Além do Campeonato Alemão, já retornaram as ligas de Portugal, Espanha e Inglaterra (primeira e segunda divisões) – e em setembro, é a vez da Libertadores.

Grande atração durante a pandemia, o futebol tem rendido ótimas audiências. Em 29 dos 30 dias de junho, por exemplo, ESPN e Fox Sports lideraram a audiência esportiva na TV fechada. Sinal de que o público aprovou as transmissões caseiras, apesar das eventuais falhas que possam ocorrer, principalmente por causa da instável internet brasileira

"O público entendeu bem. Em uma transmissão caiu o sinal e eu vi muita compreensão. 'Poxa, caiu o sinal, mas tudo bem'. Percebi ali que as pessoas entenderam que o mais importante é o bem-estar, a segurança", cita Hofman.

Os problemas de conexão até humanizam a jornada esportiva, acredita Vaughan. "O público está gostando. De certa forma é mais humano. Ele está na casa dele, nós nas nossas. Qualquer problemas é mais compreensível".

O narrador, no entanto, não economiza elogios à estrutura de trabalho oferecida para o home office. Os canais utilizam programa que não causa o famoso delay (atraso). A única exigência é uma internet a cabo.

Qualquer ajuste mais técnico na máquina pode ser feito remotamente por um engenheiro da emissora. E quando há algum problema de comunicação entre os profissionais, o WhatsApp resolve.

A grande diferença na relação narrador/comentarista é que não há a troca de olhar que facilita a deixa para uma comentário. Mas tudo se adapta. "Para fazer uma interferência agora temos que sempre chamar pelo nome para não ter atropelamento no ar", conta.

"Mas a velocidade da tecnologia impressiona e assunta. Não sei se daqui a algum tempo vai ser necessário ter um local físico. Esse tipo de evento eu poderia estar na China, em Chicago ou Lisboa e faria da mesma forma", garante o narrador.

E no Brasil?

Apesar de a pandemia não dar sinais de diminuição no Brasil, os campeonatos de futebol já estão voltando – ou até já foram encerrados, como é o caso do Carioca. Ao mesmo tempo, as transmissões também vão se adaptando à nova realidade e protocolos de segurança.

Na Globo, referência em futebol no país, não há planos de repetir o método de ESPN e Fox Sports. Ao mesmo tempo, nenhuma previsão do retorno de narrador e comentarista no estádio.

O padrão é o do famoso "off-tube", quando os profissionais irradiam do estúdio, assistindo pela televisão. De acordo com a assessoria de imprensa da emissora, no entanto, em alguns casos os comentaristas entrarão, sim, pela internet.

A plataforma de streaming DAZN foi na contramão. Seguindo protocolos de segurança, transmitiu três das quatro partidas da retomada do Paranaense no último fim de semana com equipes completas (narrador, comentarista e repórter) in loco no estádio. Apenas o duelo Cianorte x Operário foi feita via tubo, direto de Leeds, na Inglaterra, onde fica a sede da empresa.

No estádio ou via internet, o momento é propício para inovar na cobertura do futebol ao vivo, opina o jornalista especializado em mídia Erich Beting.

"A transmissão precisa ser mais dinâmica para quem está em casa. Não mais dar para fazer o que fazia antes. Vai se ter que usar mais recurso de tecnologia, pensar como suprir a ausência da torcida. Vejo a necessidade ser criativo", opina Beting, citando como exemplo a instalação de telões em estádios para a criação de uma "torcida virtual" ou mesmo a utilização de sons de torcedores, como têm acontecido nas transmissões na Europa.

"O barulho da torcida deixa o jogo com menos cara de pré-temporada, torna a transmissão melhor pensando em quem está assistindo", concorda Gustavo Hofman.

Mas não se iluda com grandes mudanças, de acordo com Beting. Para ele, o torcedor brasileiro muito "tradicionalista" e pouco afeito a inovações. É provável, inclusive, que por causa das restrições de segurança e limitação de pessoal os recursos estéticos até diminuam.

"Acho que vamos ter transmissões mais cruas, no sentido de menos câmeras disponíveis. Vamos ter um futebol mais parecido com a TV do fim dos anos 90, início dos anos 2000. Tenho essa impressão", avalia o jornalista especializado na cobertura de televisão Gabriel Vaquer, que considera que a grande inovação causada pela pandemia já aconteceu.

"Havia muita dúvida sobre como as transmissões de casa iriam acontecer, se qualidade seria boa, se elas seriam no mesmo nível do estúdio. A própria Disney mostra aquele aviso antes dos jogos, pedindo desculpas por eventuais problemas técnicos. Mas está provado que é possível fazer transmissão remota de qualidade. Até pelo custo, porque são mais baratas, elas vão ser tendência para os próximos anos", crava.

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