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Petraglia autografa camisa de torcedor durante eleição do Atlético. | /Jonathan Campos/Gazeta do povo
Petraglia autografa camisa de torcedor durante eleição do Atlético.| Foto: /Jonathan Campos/Gazeta do povo

Não houve “soco na mesa”, nem surto de atleticanismo. A tomada de poder do grupo liderado por Mario Celso Petraglia no Rubro-Negro – dirigente reeleito neste sábado (12) para mais quatro anos à frente do clube – foi arquitetada antes da goleada por 5 a 1 para o Coritiba, episódio célebre do processo de transição, em 16 de abril de 1995.

O processo que derrubou o presidente do clube, Hussein Zraik, ocorreria de qualquer forma. Mesmo se o atacante atleticano Paulinho Kobayashi protagonizasse o clássico daquele domingo, com três gols, e imitasse os saltos de um coelho, como fez o centroavante coxa-branca Brandão.

A comissão provisória que inaugurou a Era Petraglia no Atlético foi oficializada um mês e dez dias depois do clássico. Apenas o desfecho de uma novela de ameaças e indecisões que começou a ser escrita ainda em 1994, no auditório da casa na esquina das ruas Buenos Aires e Engenheiros Rebouças, em frente à Baixada.

No princípio, os oposicionistas, liderados por Petraglia, pretendiam suceder Hussein Zraik democraticamente, nas eleições de dezembro do ano seguinte. E José Carlos Farinhaki seria o candidato à presidência.

“Houve a eleição do José Henrique Faria para o Conselho Deliberativo no final do ano. Foi um passo para que eu voltasse como presidente, no lugar do Hussein. Minha eleição era certa”, recorda Farinhaki, mandatário de 1990 a 93.

Petraglia, ao lado do professor José Henrique Faria , comandou a revolução atleticana em 1995. Arquivo/GRPCom

Já em 1995, os dissidentes prepararam o lançamento da chapa. Entretanto, o propósito vazou precocemente e adiou o início do debate político no Joaquim Américo. Mas o silêncio não demorou a ser arruinado.

O time do técnico Hélio dos Anjos passou a vacilar no Paranaense – o técnico acabaria demitido e substituído por Sérgio Cosme. Àquela altura, o enredo era bem mais grave: havia a necessidade de encontrar uma forma de arrancar Zraik da sala da presidência.

Veio o Atletiba da Páscoa, que entrou para a história como capítulo da origem da renovação no Joaquim Américo. Durante o intervalo do confronto, apesar dos 3 a 0 no placar, a torcida do Atlético, posicionada na curva da Igreja do Perpétuo Socorro, reagiu entoando o hino do clube.

Abrigado nas sociais do estádio alviverde, acompanhado dos filhos, ainda desconhecido de todos, Petraglia ficou sensibilizado. E o homem que ao longo dos últimos 20 anos se tornou o cartola-mor do Furacão percebeu que era o momento de atacar.

Mario Celso Petraglia e um dos projetos de ampliação da Arena da Baixada.

No dia seguinte, durante a exibição do Globo Esporte da hora do almoço, tocou o telefone da residência de Carneiro Neto, colunista da Gazeta do Povo. Do outro lado da linha, Petraglia pediu uma indicação de alguém para assumir a presidência – Farinhaki já não servia mais.

Do outro lado, na mesma segunda-feira, o Atlético anunciou mexidas na gestão, acertadas na semana anterior ao duelo catastrófico. A principal delas, o retorno de Valmor Zimermann para ocupar o departamento de futebol, no lugar de Samir Haidar, licenciado.

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“Eu nunca me neguei a ajudar o clube e aceitei”, recorda Zimermann, presidente por duas vezes (1984/85 e 88/89). Desta vez, no entanto, não deu tempo nem para esquentar a cadeira de vice-presidente da bola. O mandato foi recorde: três dias.

Zimermann saiu por ter sido alertado por Petraglia que uma guerra iria estourar na Baixada. Um ato de consideração por quem levou o comandante da insurreição para dentro dos corredores atleticanos, na posição de diretor financeiro, em 1984. A administração do clube começou a ser atacada na imprensa.

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Alarmado, o presidente Zraik atraiu Farinhaki logo em seguida para ser o seu novo escudo contra a rebelião. A artimanha serviria para duas frentes: abastecer o elenco com contratações e tentar amansar o ímpeto da oposição, com quem o “polaco” tinha abertura. Não funcionou.

Rapidamente, o Rubro-Negro foi asfixiado por Petraglia, que nasceu em Cruzeiro do Sul-RS. Peça importante na campanha que elegeu Jaime Lerner governador do Paraná em 1994, o empresário usou sua influência para barrar empréstimos de bancos ao clube, completamente endividado.

Ao mesmo tempo, o Conselho Deliberativo ajustou a manobra para afastar Zraik. Um novo artigo prevendo a existência de uma comissão gestora foi elaborado e, com aprovação geral, acabou incluído no estatuto rubro-negro, com o auxílio de João Augusto Fleury, membro do departamento jurídico.

“Foi um jeito que encontramos, com muitas reuniões e discussões de todos, de achar um caminho correto para os anseios do clube. O desejo de mudança já era quase uma unanimidade”, comenta José Henrique de Faria, então presidente do Conselho Deliberativo.

Mesmo solitário e enfraquecido, Zraik não aceitou renunciar e propunha, no máximo, antecipar as eleições. Acabou convencido por uma “proposta” irrecusável: caso não pulasse fora, poderia ter de arcar, pessoalmente, com encargos do Atlético. Além disso, concordou com a chance, mais honrosa, de declarar-se impedido de comandar o clube.

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Foi o que aconteceu no dia 17 de maio de 95, corrido pouco mais de um mês do Atletiba. E para que a comissão provisória alcançasse o poder, foi necessário ainda que tomassem a mesma atitude de Zraik o vice-presidente, Abílio Abreu Neto, o presidente do Deliberativo, José Henrique de Faria, e o vice do órgão, Raul Mazza Júnior.

“A política do Atlético entrou em completa ebulição. Eu estava com as ações esvaziadas e o Mario [Celso Petraglia] tinha muito poder e um plano ousado. Aceitei pensando naquilo que poderia ser melhor para o Atlético”, diz Hussein Zraik.

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A pista estava livre, mas Petraglia tinha receio de ter de “pagar a conta”. E por causa disso, titubeou até o último momento. Até mesmo minutos antes da reunião para anunciar a comissão provisória, dia 26 de maio. Disse que não assumiria mais, preocupado com os débitos de cerca de R$ 2,5 milhões do Rubro-Negro.

A aproximação definitiva com o Atlético, há duas décadas, coincidiu com o afastamento gradativo do então novo cartola do controle da Inepar. Um dos conglomerados mais poderosos do Paraná, a empresa foi dirigida pelo gaúcho junto com os irmãos Atilano e Jauvenal de Oms.

O empresário conhecia o potencial do futebol para gerar dinheiro e tratava abertamente da disposição de transformar o clube do coração em negócio. Impulsionado por esse desejo de participar de grandes transações, a hesitação ficou para trás e Petraglia subiu o seu 1,90 m pelas escadas.

Discursou com entusiasmo para os conselheiros e abriu, oficialmente, os trabalhos da comissão. O conjunto dispunha, entre outros, de Ademir Adur, Ênio Fornea, Marcos Coelho e João Augusto Fleury da Rocha, personagens também importantes na evolução do Furacão, todos atualmente afastados.

Na mensagem, Petraglia fez questão de realçar o quanto a reação da torcida, cantando o hino nos 5 a 1 do dia 16 de abril, o empurrou até aquela passagem memorável. Passados vinte anos, tudo o que aconteceu no Atlético só reforça o impacto no cartola empreendedor do verso composto por Genésio Ramalho e Zinder Lins: “Atlético, Atlético, conhecemos teu valor”.

Patrimônio

Nos quase 20 anos em que Mario Celso Petraglia deu as cartas no Atlético, o clube avançou em todas as frentes. Conquistou títulos importantes, como o Brasileiro de 2001 e, especialmente, viu crescer o patrimônio, uma marca pessoal do cartola. Nas contas do dirigente, o Rubro-Negro valerá R$ 1 bilhão quando tudo estiver concluído.

Logo que chegou ao poder, em 1995, Petraglia apresentou um projeto para reformular o Joaquim Américo. Após oito anos fechado, o estádio havia sido reaberto há apenas um ano, por iniciativa do presidente José Carlos Farinhaki.

Ainda naquela temporada, o Rubro-Negro fechou um acordo com o governo do estado, que desapropriou o parque aquático do clube, em São José dos Pinhais, para construir um canal extravasor. Em troca, ofereceu uma indenização que possibilitou a compra do CT do Caju.

Arena da Baixada e teto retrátil: obra do dirigente.Daniel Castellano/Gazeta do Povo

O projeto da nova praça esportiva, a terceira versão da Baixada, não saiu do papel imediatamente, apenas feitas adequações. Até que em 1997 o sonho de Petraglia de construir uma arena nos moldes europeus passou a sair do papel.

O “Farinhacão”, como ficou conhecido, foi demolido e, com o suporte de Ênio Fornéa, membro da diretoria atleticana e engenheiro renomado, a nova casa ganhando forma. Até que em 24 de junho de 1999 foi inaugurada a Arena da Baixada, pioneira no estilo arquitetônico na América Latina.

Desde então, Petraglia, que fez carreira profissional no ramo de infraestrutura, dirigindo a empresa Inepar, passou a alimentar outro desejo: trazer a Copa do Mundo para a Curitiba.

Um longo e intrincado processo que iniciou em 2007, com a confirmação do Brasil como sede do Mundial. Foram anos de confusões, no âmbito do futebol, para a escolha da Baixada, e na esfera pública, com a discussão com o governo do Paraná e a prefeitura de Curitiba para dividir o custo.

Somente em 2012 a quarta versão do Joaquim Américo começou a ser erguida. Por pouco o projeto não foi riscado do programa da Fifa, por causa do atraso em decorrência da má gestão. Ficou pronto pouco antes do início da Copa, em junho do ano passado. Quatro jogos foram disputados na Arena.

Mesmo um ano após a competição, ainda não se sabe como será paga a conta da reformulação, que custou cerca de R$ 346,2 milhões, de acordo com o Tribunal de Contas do Estado (TC-PR). Atlético, prefeitura e governo discutem a fatura.

E os planos de Petraglia quanto ao patrimônio ainda não cessaram. Após cobrir o estádio com um teto retrátil, o dirigente pretende construir um ginásio multiuso no terreno do estacionamento anexo.

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