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Literatura

Casagrande escancara drama e fantasmas em livro

Biografia do ex-atacante da seleção não deixa de lado fases delicadas que envolvem doping e envolvimento dele com drogas

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(Foto: Divulgação)

"O ser humano gosta de heróis. Nós nos emocionamos mais ainda com aquele lutador de boxe que é muito bom, mas sofre uma queda, e depois outras, mas consegue se levantar e ainda fazer o nocaute no final", afirma o publicitário Washington Olivetto sobre Casagrande. A frase, regis­trada na biografia do ex-atacante, Walter Casagrande, Casagrande e seus demônios, resume a jornada do ex-jogador do Corinthians e da seleção brasileira e comentarista de futebol.

O livro lançado nesta semana (às vésperas de seu aniversário de 50 anos, comemorados amanhã) e escrito pelo jornalista Gilvan Ribeiro, prende o leitor por começar a contar a história justamente pelo pior momento de Casão, quando estava na lona e com contagem aberta para o nocaute: os anos de 2006 e 2007, quando teve quatro overdoses, sofreu com alucinações, e, depois de um grave acidente de carro, foi internado em uma clínica de recuperação por sua mãe e seu filho.

O conhecido envolvimento de Casagrande com as drogas ressurge como uma confissão. Como também ao revelar ter usado doping quando jogava na Europa. Foram quatro vezes em que teve Pervitin (estimulante dado aos soldados na Segunda Guerra) injetado no músculo. "Cansaço? Esquece... se fosse preciso, dava para jogar três partidas seguidas", fala. Esse momento foi um dos poucos que Casagrande teve receio de ver exposto ao público.

"Tinha a coisa de ele ter vergonha do doping mais do que outras coisas que tinha feito. Acabei o convencendo que teríamos de contar essa história. Optamos por não citar os nomes dos clubes para não termos problemas jurídicos. Quisemos mostrar que [o doping no futebol] foi algo muito disseminado na Europa. E [as declarações de Casão no livro] estão tendo repercussão na Itália e em Portugal", diz o escritor Gilvan Ribeiro.

Entre as outras coisas que poderia ter mais vergonha de ver publicado, além das quatro overdoses, estão a prisão por posse de cocaína, o fato de o vício ter acabado com um casamento de 21 anos, de sofrer por quase um ano alucinações que incluem a visão constante de demônios, de até hoje ter o acompanhamento de três terapeutas e um psiquiatra. Nada disso o embaraça. O reconhecimento da sua fraqueza é o que o mantém sóbrio, conta. "Não peguei bem o jeito até hoje. Fico quase o tempo todo dentro de casa porque ainda não consegui ter a manha de impor o limite", declara Casagrande no capítulo que fecha a biografia.

As alegrias também estão na obra, especialmente as da década de 1980: ter feito, ao lado de Sócrates, parte da Democracia Corintiana; participado ativamente da "Diretas Já", contribuído para a criação do Partido dos Trabalhadores (PT); convivido com a nata do rock nacional da época; das aventuras com os amigos do bairro da Penha; de ter sido ídolo do Corinthians e ter disputado a Copa de 86 (e as rusgas com o técnico Telê Santana).

Casagrande fugiu de ler a prova da sua biografia antes de ir para a gráfica. Suas tera­peutas leem para ele alguns trechos. "Ele disse que começava a ler e ficava nervoso por ver sua história materializada no papel, por todos lendo coisas íntimas, pesadas. Ele entrou em crise, fiquei muito preocupado", conta o escritor.

Serviço: Casagrande e seus demônios. Autores: Walter Casagrande e Gilvan Ribeiro. 264 páginas. Editora Globo. R$ 34,90

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