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Apelido

Coxa-branca com muito orgulho

A ofensa de cunho nazista ao zagueiro Breyer, no primeiro Atletiba a decidir um campeonato, em 1941, aos poucos foi se tornando marca registrada da torcida

Breyer (à esq.) com Batista, Sardinha, Cecílio, Saul e o técnico Antonio Cortese, antes do amistoso com o América-RJ (17/9/1939) |
Breyer (à esq.) com Batista, Sardinha, Cecílio, Saul e o técnico Antonio Cortese, antes do amistoso com o América-RJ (17/9/1939)
 
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Coxa-branca com muito orgulho

“Alemão... Quinta coluna... Co­­xa-branca!”, bradava, entre outros xingamentos, o célebre atleticano Jofre Cabral e Silva da cerca do Estádio Joaquim Amé­­rico. Era ofensa ao zagueiro Breyer, nascido na Alemanha, pivô da Segunda Guerra Mun­­dial que completava seu segundo ano em 1941. Impossível ima­­ginar que, quase três décadas depois, a expressão se tornaria a maior identidade da torcida coritibana.

Naquele 19 de outubro, pela primeira vez a dupla Atletiba se encontrava em uma decisão. Apesar dos insultos, o Alviverde – então tratado como alvinegro, por causa das camisas brancas e calções pretos – venceu no reduto adversário por 3 a 1. Uma semana depois, ganharia também a segunda partida por 1 a 0 e conquistaria seu sétimo título estadual. Mas o apelido pegou. Contra a vontade de Breyer, que o detestava.

Contra a vontade de todos no clube. Como a presença alemã ainda era muito forte no time, a alcunha passou a ser cada vez mais usada pelos adversários. “Passamos a ser chamados as­­sim”, lembra Aryon Cornelsen. Companheiro de equipe do za­­gueiro, o centromédio de origem dinamarquesa e alemã ainda viria a ser presidente do Coritiba.

O apelido ganhava um tom ainda mais pejorativo por causa da guerra. Enquanto o Eixo liderado pela Alemanha de Hitler era combatida pelos Aliados na Europa, os alemães ou seus descendentes sofriam as consequências por aqui.

Desde a década anterior, quando o nazismo ganhou força, o clube convivia com insinuações de preconceito racial. Acusações que o presidente Antônio Couto Pereira rebatia prontamente. Seu exemplo preferido era o negro Moa­­cyr Gonçalves, jogador e técnico nos anos 30. Citaria também os irmãos Bananeiro e Janguinho, que atuariam nos anos 40.

Mas Breyer, assim como a grande maioria dos jogadores, tinha as coxas brancas mesmo. Ele veio com a família para o Brasil aos seis anos de idade. Vice-campeão brasileiro de decatlo em 1939, com 20 anos, treinava na pista ao lado do campo do Coritiba e acabou convidado a jogar na ponta direita. Depois de três partidas, sua altura (1,86 m) e vigor físico o transformaram em zagueiro.

Deixou o futebol em 1944, ainda chateado com o apelido. “Mas não foi por isso que ele parou, não. Queria fazer outras coisas”, diz Laís Levoratto Breyer, que o conheceria nos anos 50 e seria sua esposa até a morte em 2001. Enquanto jogava, era funcionário da Fun­dição Müller – no mesmo local onde hoje se encontra o shopping homônimo. Mais tarde se tornaria corretor de imóveis e dono do restaurante Nino, no centro de Curitiba.

A expressão “coxa-branca” percorria um caminho paralelo. A antiga ofensa aos poucos foi sendo adotada pelos coritibanos. Não há nenhuma explicação exata, mas a comemoração do título de 1969 é apontada como marco para a união entre torcida e apelido. Vem daquela partida contra o Água Verde, no Estádio Oresthes Thá, o registro dos primeiros gritos da arquibancada. “Aí ele (Breyer) passou a gostar. Ficou com orgulho”, conta Dona Laís.

Tanto que sua lápide no Cemitério Água Verde traz a epígrafe Hans Egon Breyer “O Coxa Branca”.

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